segunda-feira, 23/11/2020
O trabalho do futuro Foto: Agência CNI

O futuro do trabalhador

Petruska Menezes (*)

O Fórum Econômico Mundial (FEM) é uma organização sem fins lucrativos e tem como missão a melhoria do papel do Estado do mundo, em assuntos importantes, como Saúde e Meio Ambiente, que são questões globais. Entre seus membros estão os CEOs das maiores empresas internacionais, atores e estudiosos influentes do setor econômico, políticos e líderes mundiais.

O FEM apresentou um relatório do que ele chama de “Quarta Revolução Industrial”, ou seja, como os fatores sociais, econômicos e tecnológicos irão influenciar a força de trabalho que sofrerá mudanças nos próximos cinco anos. Os novos papéis apontam para os seguintes tópicos: analistas de dados, agentes de vendas especializados, novos tipos de gerentes, diversidade e igualdade de gênero.

De um modo muito simplista, mas didático, estamos saindo de um modelo de força de trabalho bruta para o trabalho voltado a ações ligadas à cognição e ao mundo virtual. Caberá às máquinas, cada vez mais desenvolvidas, montar e desenvolver – com perfeição – as atividades que antes eram exercidas por seres humanos. A força de trabalho tenderá a migrar para a gestão e administração dos processos, interação entre as atividades e pessoas, especialização e aprofundamento do conhecimento laboral.

O emprego formal de carteira assinada com garantias trabalhistas, aparentemente, está terminando e abrindo caminho para uma gestão de carreira autônoma, que precisará ser autogerida, com atitudes proativas e com seu próprio planejamento de trabalho e vida. A área de serviços será a que terá maior empregabilidade desde o entretenimento até a saúde. E, certamente, a pandemia acelerou esse processo que já havia começado.

O que é necessário destacar é que temos um país onde a maioria da população não tem qualificação para assumir esse novo mercado de trabalho que está chegando. Nossa matriz histórica é de colonialismo e submissão, que gerou um patriarcado ainda muito presente, em especial no Nordeste, que traz em conjunto um racismo estrutural.

Grada Kilomba Foto: José Frade/EGEAC. Cortesia de EGEAC

Neste “teatro real”, o filho do “senhor” fica submisso até que possa ocupar o lugar do pai e repetir o seu papel; a mulher é subjugada em suas qualificações, ainda assumindo condição de ser frágil e menos competente e, por isso, com funções de cuidado e zelo, como faziam as senhoras dos engenhos; e o racismo que perpassa brancos e negros de forma inconsciente (estrutural), como nomeado por Neusa Santos, Grada Kilomba, Fanon e Djamila Ribeiro, ecoa no vazio, não gerando oportunidades realmente igualitárias para a capacitação e a introdução dessas pessoas no futuro mercado de trabalho.

Entretanto, o mais grave deste cenário é que o novo mercado pede pessoas que possuam equilíbrio mental para poder se relacionar com seu público. Elas devem atender e corresponder de forma adequada à demanda. Essa é a maior das ironias para os estudiosos do comportamento humano.

A primeira Revolução Industrial foi extremamente destrutiva do núcleo familiar, uma vez que colocou pai, mãe e filhos para trabalhar até 12 horas por dia. Tivemos uma parte desse movimento no Brasil, mas também havia famílias em que um dos cônjuges trabalhava enquanto o outro cuidava da prole. Porém, tal situação não durou muito. Atualmente, pai, mãe e avós estão inseridos no mercado de trabalho em busca de sua subsistência. A aposentadoria não é garantia de sobrevivência. A pergunta que fica é: quem cuida das crianças?

A Psicanálise é taxativa ao afirmar que o desenvolvimento infantil saudável só ocorre quando existem afetividade e relacionamento entre pais e filhos. Independentemente dos diversos autores antigos ou contemporâneos, tendo mais ou menos influência. Todos, sem exceção, afirmam como fundamentais à saúde mental e física do bebê a harmonia e o amor dos pais. Se o mercado de trabalho demanda esse tempo, quem dará o amor? Uma babá não consegue desempenhar, com o mesmo afinco, esse papel, salvo raríssimas exceções.

Assim, o mesmo mercado de trabalho que rompeu os laços familiares em prol do desenvolvimento econômico do país, acabou potencializando falhas no desenvolvimento humano, que nos trouxeram as principais psicopatologias atuais, como depressão, síndrome do pânico e transtorno de ansiedade, que chegam aos nossos consultórios todos os dias e são os principais motivos de afastamento para tratamento de saúde nas empresas.

Agora, na quarta onda, o FEM pede pessoas com equilíbrio mental para se relacionar e lidar com a demanda. Parece que alcançamos as consequências dos primeiros atos. Será necessário cuidar de uma população adoecida ou faltará mão de obra. E aos trabalhadores, fica o eterno conselho: o mais importante é cuidar-se!

Com a publicação deste Relatório do Fórum Econômico fica mais claro ainda: sairá na frente aquele que tiver maior autoconhecimento e capacidade de equilibrar-se. Ter resiliência e poder lidar com situações adversas, podendo lidar com seus sentimentos, pois assim, o “sentir” poderá juntar-se ao “pensar” e potencializar a criatividade, abrindo mais caminhos.

(*) Profa. Esp. Petruska Passos Menezes é psicóloga e psicanalista, integrante do Círculo Psicanalítico de Sergipe, tem MBA em Gestão e Políticas Públicas pela FGV (Fundação Getúlio Vargas), Gestão Estratégica de Pessoas (pela Fanese), Neuropsicologia (pela Unit) e em curso Gestão Empresarial pela FGV.

** Esse texto é de responsabilidade exclusiva da autora.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe.

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