sexta-feira, 31/07/2026
Série The Faithful
Série The Faithful. em cartaz na Netflix

O fiel e as mulheres

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Sara, Hagar, Rebeca, Lia e Raquel. O que há de comum na história dessas importantes mulheres do Antigo Testamento? Uma promessa. Um Deus amoroso e presente, que por meio de nossas existências não cessa de se revelar desde a criação dos nossos primeiros ancestrais, agindo em nossa história, ao passo que, também, nos deixa livres para tomarmos as nossas decisões e fazermos as nossas escolhas.

As trajetórias de vida dessas cinco mulheres deixam claro que elas estão longe de serem do tipo sexo frágil. Elas exerceram uma significativa influência nas decisões e ações de homens como Abrãao, Isaac e Jacó. E de igual modo, em Esaú, Benjamin e José, o José do Egito, entre outros. Histórias comuns que se interconectam, colaborando não somente para a formação de um povo, como também de uma fé em um Deus único, capaz de mudar os destinos da história, com reflexos imediatos no tempo presente.

Sara e Hagar estão às voltas com a vida de Abrãao, o pai da fé, como ficou conhecido. Tendo ouvido a voz de Deus, que lhe deu uma incumbência, partiu para a Terra Prometida, Canaã, a fim de iniciarem o processo de afirmação de uma aliança entre o Criador e a criadora, rompida com a desobediência de Adão e Eva. Sara, a mulher que não se curvava para ninguém, sequer um homem e apenas para Deus, foi provada até os últimos dias de sua vida, para que nela se cumprisse a promessa que Deus fez a Abrãao, gerando um filho em idade avançada: Isaac.

Antes disso, Sara também foi teimosa e impaciente fazendo a serva egípcia Hagar deitar-se com Abrãao e deste relacionamento gerar Ismael. Nesse particular, vemos que Deus respeita as nossas escolhas e atitudes, mas deixa claro que cada um é responsável por suas ações. O compromisso Dele era com Abrãao e Sara e, portanto, o filho da promessa não era o primogênito, Ismael, mas Jacó. E disso decorre mais uma contenda entre irmãos, como já havíamos visto com Abel e Caim, embora o desfecho não tenha sido o mesmo.

Rebeca e Isaac tiveram filhos gêmeos. Esaú e Jacó. A julgar pelo direito da primogenitura, Esaú, impulsivo e inconsequente, seria o herdeiro do pai e continuador das promessas de Deus a Abrãao (farei de seus descendentes tão numerosos quanto as estrelas). Mas, a vontade de Deus era outra e manifestou isto não a Isaac, que preferia Esaú, mas a Rebeca. E esta teve que enfrentar inúmeras dificuldades, incompreensões, para fazer valer a vontade de Deus, que entendia que Jacó fosse mais talhado para a liderança.

Rebeca valeu-se até mesmo da astúcia para cumprir os designíos divinos, na famosa passagem bíblica de Gênesis 27, em que Isaac, cego e doente, abençoa Jacó achando que era Esaú. Episódio que o forçou ao exílio do primeiro, para as terras de origem dos avós (Sara e Abrãao), o lugarejo de Harã (antiga região da Mesopotâmia, atual Síria). Ali, Jacó conheceu duas mulheres de fibra: Lia e Raquel (duas irmãs, um só coração, como costumavam dizer uma para a outra).

Jacó ficará muito tempo dividido entre o amor que Lia lhe tinha e o amor que ele tinha por Rebeca. Com ambas, teve nove de seus doze/treze filhos. Com Lia, Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom e Diná, única fêmea da prole. Com Rebeca, José e Benjamim, deste último, ela morreu no parto. Sem falar nas servas Bila (serva de Rebeca e mãe de Dã e Naftali), e Zilpa (serva de Lia e mãe Gade e Aser).

Ao contrário de Caim e Abel, onde o primeiro matou o segundo, entre Esaú e Jacó (que depois virou Israel e fundou as doze tribos do povo judeu) e Raquel e Lia, depois de longa e ruidosa contenta, se conciliaram amorosamente e fizeram orgulhosos vossos pais e a Deus. Por isso, Ele não se fez de rogado em abençoar a todos eles e a todas elas, sendo-lhes Fiel, apesar de suas infidelidades, inclusive no que diz respeito às relações sexuais poligâmicas, tão comuns naquela época e só regulamentada com os Dez Mandamentos.

Fato é que, Sara, Hagar, Rebeca, Lia e Raquel devem ser observadas com um olhar mais atento e menos misógino em nosso tempo. Mulheres destemidas e fortes, mas ao mesmo tempo, tementes a Deus, capazes de colaborar, tanto quanto os homens, nos desígnios de Deus para a humanidade, que sempre foram e serão os melhores possíveis, ainda que isto fira e confunda a lógica e razão humanas.

A representação dessas mulheres fascinantes está presente na mais nova série da Netflix: “The Faithful (2026), com destaque para sua sinopse que diz: “Histórias de família, amor, ciúme e poder sob a perspectiva das célebres matriarcas do Livro de Gênesis da Bíblia”. Estrelado por atores e atrizes conceituados, como Alexa Davalos (de Fúria de Titãs, 2010) e Ben Robson (Herói da Liberdade, 2020), a série procura manter a fidelidade com a narrativa bíblica, mas ao mesmo tempo permite fazer uso da licença artística para contar, de forma fascinante, histórias que colaboraram, sobremaneira, para o empoderamento da figura feminina, ainda tão questionado em nosso tempo, passados tantos séculos.

 

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Sobre Claudefranklin Monteiro

Claudefranklin Monteiro Santos
Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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