sábado, 15/01/2022
E as horas e os dias vão passando... Imagem: Pixabay

José, Judith & máquina de lavar

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Luiz Thadeu (*)

O que leva duas pessoas tão diferentes viverem sob o mesmo teto por tanto tempo?

A pergunta povoa a mente de muitas pessoas por esse mundão, desde que o mundo é mundo. O primo Paulo Henrique, em mesa de bar, após cervejas geladas, quando todos viramos poetas, profetas, sábios, filósofos, psicólogos e afins, me disse: “Mister, como querer que dê certo duas pessoas, criadas de forma tão diferente, conviverem no mesmo espaço?”, “Claro que tem tudo para dar errado”, arrematava ele, que está no segundo casamento.

Lembrei de Paulo Henrique, pois esses dias encontrei um amigo, dos velhos tempos, que continua casado com a mesma mulher, há quarenta anos.

Conheço o casal faz um bocado de tempo, moramos na mesma cidade do interior, quando fui a trabalho, ele também. Casamos na mesma época.

Nosso encontro casual, na farmácia, perguntei pela esposa, como estava. Caro leitor, amiga leitora, já notaram que no adiantado da idade, é na farmácia, nos consultórios médicos e nos laboratórios de análises clínicas, que mais encontramos os conhecidos? Isso, para não falar em encontros em velórios e missas de sétimo dia. Só no mês passado fui a três missas de despedida de amigos. Entramos na fase das despedidas.

Mas voltando à farmácia, meu amigo que está aposentado, me falou da rotina: parou de sair de casa, tudo está muito caro, tem deixado o carro na garagem por causa do preço do combustível. Vai sempre ao supermercado a procura de ofertas.

Com os filhos casados, a mais nova, ainda solteira, morando em Milão, fora estudar moda, a casa ficou grande demais para ele e Judith.

Mesmo com tantos anos casado com a mesma mulher, as divergências, em vez de diminuírem, aumentaram. Vivem em campos opostos, se um diz que tal coisa é vermelha, o outro afirma que é azul. Um acha a comida insossa, o outro reclama do sal. Brigam por causa do calor, e pelo vento. Até por causa do momento político que o Brasil está enfrentando, dividido entre direita e esquerda; um defende Bolsonaro, para o outro Lula é o salvador da pátria.

Assim, eles passam os dias. Ele me diz que sexo virou coisa do passado, tamanha é a diferença dos dois. “Judith sublimou o sexo, nem amigos somos mais, você já viu alguém fazer sexo com o inimigo?”.

Sempre que ouço histórias de casais, com longa convivência, com tantas diferenças, me pergunto: Como essas pessoas conseguiram copular? Como conseguiram procriar? Criar filhos juntos? Enfim, como conseguiram fazer tantas coisas boas juntos ao longo do tempo?

Ele me diz que o que mais o tem tirado do sério com Judith, é sua mania de limpeza. “Ela deve ter TOC (transtorno obsessivo compulsivo), não é possível quantas vezes ela limpa a casa por dia. Passa o dedo nos móveis a procura de sujeira. Varre a casa diversas vezes.  E, as roupas, que ela coloca na máquina de lavar todos os dias, às vezes duas vezes no mesmo dia”. “Isso não é normal, ela deve ser psicótica”. “Já falei para nossos filhos, a mãe de você precisa ser internada”. Quis saber o que acha disso. “Ela diz que o louco, que precisa de tratamento, sou eu”.

Pergunto o que os mantêm juntos, ele balança a cabeça, sem ter uma resposta pronta.

“Você viu os preços dos produtos no supermercado? Eu fazia compras para um mês, só promoções. Com uma semana já não tinha sabão em pó, amaciante, essas coisas”.

E… o que você fez? Perguntei eu.

“Não fiz nada, quando acabou, logo na primeira semana, ela me disse que tinha que comprar mais, eu simplesmente disse, agora só no próximo mês”. “Judith desconhece as palavras: planejamento, economia, racionamento. Ela não sabe o que é inflação, carestia”. “Até hoje não sei que planeta ela habita”.

“Como ela não mudou sua mania de limpeza, saiu e comprou sabão em pedra, em pó, amaciante, água sanitária”. “E, para completar, ela coloca uma quantidade de roupas aquém do que manda o manual”. “Acho que é pirraça. A máquina de lavar parece bate-estaca, não para nunca, estou para enlouquecer com o barulho”. “Você acredita que começa na hora do café da manhã? Contando, ninguém acredita”.

Já no adiantado da hora, peço licença para meu amigo José, mando um abraço para Judith, me dispenso, e vejo José se afastar. Lá vai José para sua peleja diária com Judith e a máquina bate-estaca.

Penso em como somos diferentes uns dos outros, e nisso reside a beleza da vida. Enquanto Judith tem mania de limpeza, tem que lavar roupas todos os dias, José preocupado com os custos, a natureza grita, com seus recursos findando, a começar pela água potável.

Quem acompanhou a Cop 26, Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2021, realizada na bela cidade de Glasgow, Escócia, viu os alertas que cientistas, estudiosos, ativistas ambientais sobre o futuro do nosso planeta.

Se não formos dizimados pelas brigas caseiras, será pela falta de água.

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(*) Luiz Thadeu Nunes e Silva. Engenheiro agrônomo, palestrante, cronista e viajante: o sul-americano mais viajado do mundo com mobilidade reduzida, visitou 143 países em todos os continentes.

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