Em “Um Sim à Vida”, educador revisita a infância, a fé e uma trajetória construída entre Sergipe e Bahia
Por Antônio Carlos Garcia (*)
Aos 91 anos, o educador e escritor Josué da Silva Mello voltou à terra natal, Lagarto, para lançar, neste domingo (20), o livro Um Sim à Vida – Memórias e Proposições Impactantes. Radicado há décadas em Feira de Santana, na Bahia, onde construiu grande parte de sua trajetória profissional e intelectual, ele reúne na nova obra memórias da infância, da família e da carreira, além de reflexões sobre a vida, a fé e as experiências que contribuíram para sua formação.
A obra havia sido apresentada em Feira de Santana, no dia 27 de agosto, durante o Festival Literário e Cultural de Feira de Santana (Flifs). O lançamento em Lagarto ganha significado especial porque leva o livro ao lugar onde estão algumas das principais lembranças recuperadas pelo autor.

Hoje, 22, pela manhã, Josué da Silva Mello este na tribuna livre da Câmara Municipal de Feira de Santana para apresentar o livro “Um Sim à Vida: Memórias e Proposições Impactantes”. A obra, prefaciada pelo Dr. João Batista de Siqueira, presidente da Academia Feirense de Letras, aborda memórias da infância, passeando por questões pedagógicas.
Um Sim à Vida dialoga com uma obra anterior, A Vida Merece um Sim, lançada em Sergipe, em setembro de 2025, na Academia Sergipana de Letras. Na nova publicação, Josué retoma a ideia do “sim” à existência e acrescenta histórias e reflexões que surgiram posteriormente.
Ele conta que a procura pelo livro anterior foi maior do que a quantidade de exemplares que tinha disponível. Ao mesmo tempo, outras lembranças começaram a aparecer. “Foi rápido. E muitas pessoas ficaram querendo o livro e eu não tinha mais para entregar. Nesse ínterim, apareceram também algumas histórias novas, algumas lembranças novas de memórias, e eu achei que devia compartilhar essas memórias com os amigos, com os parentes, com os familiares também”, contou.
Para Josué, o “sim” que aparece nos títulos das duas obras ultrapassa suas próprias memórias e expressa uma maneira de compreender a existência e a responsabilidade de cada pessoa em relação às demais. “Essa vida que nós temos foi um presente de Deus para nós. Deus nos presenteou com a vida. Foi um sim de Deus para nós”, afirmou.
A partir dessa compreensão cristã, ele defende que esse “sim” deve alcançar também as relações humanas. “A nossa missão é ser um sim para o outro”, resumiu.
Durante o lançamento, Josué relacionou essa reflexão sobre a fé também à própria história familiar. Ao falar da esposa, Tecla Mello, contou que a curiosidade em torno do nome dela o levou a pesquisar a história de Tecla de Icônio, personagem da antiga tradição cristã associada ao apóstolo Paulo.
Segundo a tradição relatada por Josué, Tecla era uma jovem de Icônio, na atual Turquia, que teria rompido o noivado para seguir os ensinamentos cristãos após ouvir as pregações de Paulo. Condenada à morte mais de uma vez por causa de sua decisão, teria sobrevivido à fogueira e ao ataque de animais, episódios interpretados pela tradição como milagres.
Tecla teria posteriormente se dedicado à pregação e à assistência aos doentes, tornando-se conhecida na tradição cristã como Protomártir e Igual aos Apóstolos. Josué contou que foi pesquisar essa história motivado justamente pelo nome da mulher com quem compartilha sua própria trajetória.
A infância que ajudou a formar o educador
Ao reconstruir sua trajetória, Josué procura responder a uma pergunta: por que se tornou a pessoa que é? Parte da resposta, segundo ele, está na primeira infância vivida em Lagarto.
Filho de agricultor, lembra que o pai sustentava a família com o trabalho rural. Dos 22 filhos, 11 morreram ainda na infância. Josué associa essas mortes às condições sanitárias e à assistência precária aos partos naquele período, quando muitas crianças nasciam pelas mãos de parteiras leigas. Ele próprio considera ter sobrevivido àquele contexto como sua “primeira vitória”.
Suas recordações avançam para uma infância sem brinquedos comprados e muito anterior às telas que hoje fazem parte do cotidiano das crianças. Aos três anos, brincava descalço no quintal, entre formigas, lagartas e as galinhas criadas pela mãe.
Ali construía suas próprias fazendas. Pedaços de maniva de mandioca viravam estacas; barbantes dos embrulhos das compras da família se transformavam em cercas; e a imaginação criava cancelas, carros de boi e embarcadores de gado.
As galinhas frequentemente destruíam tudo. No dia seguinte, ele reconstruía. “Eu aprendi a criar. Eu aprendi a viver com as adversidades desde três anos de idade e a ver as derrotas não como derrota, mas como oportunidade de recriar”, disse.
Décadas depois, Josué identifica naquela experiência uma característica que carregaria para a vida profissional: a capacidade de enfrentar dificuldades.
“Na vida adulta eu aprendi a administrar crises. Nunca fui chamado para administrar uma instituição em bonança. Sempre tive oportunidade de administrar instituição que estava para fechar. Sempre tive crise. E me tornei um gestor de crises.”
Essa percepção encontra paralelo em sua trajetória dedicada à educação. Josué foi professor, pró-reitor e reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), além de secretário municipal de Educação e integrante do Conselho Estadual de Educação.
Uma entrevista que ganhou as páginas do livro
Um Sim à Vida – Memórias e Proposições Impactantes tem também uma ligação direta com o Só Sergipe. A publicação traz uma entrevista feita pelo jornalista Antonio Carlos Garcia com Josué Mello, em Feira de Santana. O conteúdo daquela conversa foi posteriormente atualizado pelo próprio Josué para integrar o livro.
O encontro permitiu a Garcia conhecer não apenas a trajetória profissional do educador, mas também características pessoais que passaram a marcar a relação entre os dois. Para o jornalista, Josué sempre se mostrou um homem honrado, um excelente educador e, sobretudo, uma excelente pessoa.
Foi também por intermédio de Josué que Antonio Garcia conheceu o professor e historiador Claudefranklin Monteiro Santos, também lagartense. Claudefranklin tornou-se posteriormente colunista do Só Sergipe, onde escreve às sextas-feiras. Sua estreia como articulista ocorreu em 16 de março de 2023, com o texto “Aracaju por Maria Nely Santos”.
Claudefranklin é também biógrafo de Josué. Em 2023, publicou O Poder Libertador da Escola na Trajetória de Vida de Josué da Silva Mello, dedicado à história do educador. A parceria intelectual entre os dois continua: atualmente, eles escrevem juntos Palavra e Missão – Temas de Teologia Cristã para Além dos Muros da Igreja.
“Eles foram atrás de sonhos”
Durante o lançamento de Um Sim à Vida, Claudefranklin chamou a atenção para um aspecto que considera marcante na história do biografado: a existência de lagartenses que construíram suas trajetórias longe da cidade e, por isso, são pouco conhecidos por parte dos próprios conterrâneos.
“A história de vida de Josué Mello reflete um pouco do que nós temos aqui em Lagarto, que é o desconhecimento de tantos lagartenses que fizeram sua vida fora de Lagarto e que, em razão de estarem distantes, as pessoas às vezes nem sabem de suas origens”, afirmou.
O historiador lembrou a reação que encontrava quando começou a falar sobre Josué e dizia que ele era filho de Caraíbas, em Lagarto. “Mas um lagartense foi reitor e conquistou tanto?”, recordou Claudefranklin. Para ele, deixar a cidade não significou romper com as origens. “Eles não foram porque não gostavam de Lagarto. Eles foram atrás de sonhos.”
Claudefranklin vê na história do educador características que considera representativas de sua terra natal. “Primeiro, a inteligência do povo lagartense. Segundo, a capacidade criativa que nós temos.”
Mais de nove décadas depois das primeiras experiências no interior sergipano, Josué continua transformando lembranças em livros. Em Um Sim à Vida, volta à infância, à família, à educação e à fé para mostrar como essas experiências ajudaram a construir sua maneira de compreender a própria existência — e o “sim” que, para ele, deve ser dado à vida.
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