sexta-feira, 24/05/2024
Calçada da Fama
Via glamourosa, em Hollywood Imagem: PIxabay

A tormentosa viagem de uma ideia ruim

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Por Luciano Correia (*)

 

O jornalista Aparício Torelly, o célebre Barão de Itararé, dizia que de onde se espera é que não sai nada mesmo. Isso também pode ser dito de outra forma: aquilo que já começa errado, só pode terminar errado. Essa semana nos brindou com uma dessas peças produzidas para enriquecer nosso estoque de grandes bobagens, o famoso Festival de Besteiras que Assola o País, o Febeapá de Sérgio Porto, também conhecido por Stanislaw Ponte Preta. A pérola saiu aqui do lado, em Pernambuco, quando o presidente do TJ local, Ricardo Paes Barreto anunciou a implantação de uma Calçada da Fama, à imagem e semelhança daquela via glamourosa que eternizou as estrelas de Hollywood numa calçada de Los Angeles.

A nova meca da fama iria gravar em luxuoso mármore as mãozinhas de juízes e desembargadores pernambucanos que, de tantos relevantes serviços prestados, no dizer do doutor Ricardo, são verdadeiros heróis, portanto dignos da celebridade nesse museu a céu aberto. Infelizmente, para o douto pai da ideia, ela teve vida curta, após a repercussão nacional que o caso ganhou. De tão estapafúrdia, sua obra genial sequer despertou o escárnio, senão risadas.

Fiquei pensando como uma genialidade dessas consegue prosperar numa esfera tão sofisticada quanto a cabeça de um poder importantíssimo, sério, com tantas atribuições e desafios a cumprir na sua missão. Não sei se o desafortunado desembargador (desafortunado de bom senso, se me entendem, porque de resto…) consultou assessores sobre a conveniência de realizar seu projeto, quiçá saiu da cabeça de outra pessoa, um colega de toga, um publicitário em busca de uma causa e de 30 dinheiros.

Já podíamos ver a comoção dos visitantes do mais novo ponto turístico do Nordeste diante das mãozinhas das vossas excelências. “Olha que forte a mão do doutor José dos Santos, de onde saíram tantas sentenças históricas”. E ainda: “Essas mãozinhas de doutor Antônio Silva bateram o martelo contra bandidos e salafrários, todos postos para ver o sol quadrado nas instalações de um xilindró”. Uma mais taradinha, quase suspirando: “Olha que mão grande tinha o doutor João. Imagino como era gostoso receber seus carinhos”.

Mas isso nem importa tanto. O espantoso é saber que a ideia, entre sua concepção no cérebro do criador e o anúncio da implantação, correu trecho entre os burocratas que corporificam a inquebrantável cadeia dos trâmites no serviço público. É incrível pensar que não houve um mané qualquer, ou alguém mais crítico, com a coragem de avisar que aquilo ia dar… em merda, numa monumental cagada, data vênia.

A extraordinária figura dos assessores. Esses, como as coisas e os seres, que podem pertencer aos reinos animal, vegetal ou mineral, se dividem em várias categorias. Há os Aspone, o sujeito que, como diz o nome, faz porra nenhuma em nenhum lugar. Só comparece mesmo na folha de pagamento. Há assessores capazes, mas se melindram de corrigir seus superiores. Há os covardes, que jamais vão contrariar uma ideia vinda do andar de cima. E há os bajuladores contumazes, que turbinam a ideia, botam pilha diante do seu autor, buscando acumular mais pontos nas milhagens de um puxa saco e achar um novo meio de agradá-lo.

No caso do pobre presidente do TJ pernambucano, nenhum assessor ou amigo se ergueu contra a consumação de uma verdadeira ideia de jerico. Ele, por seu turno, desligou o desconfiômetro durante toda a gestação de sua cria e ignorou os apelos do seu anjo da guarda. O resultado foi o que vimos: a calçada, que já estava em execução, e vai custar alguns trocados ao rico povo pernambucano, foi abortada como uma dessas coisas que jamais deveria ter ido além das elucubrações de um magistrado em busca de uma causa. Uma diarreia mental para embotar a grandeza e o espírito do bravo e querido Pernambuco.

 

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Sobre Luciano Correia

Luciano Correia
Jornalista e presidente da Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju).

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