quarta-feira, 28/10/2026
Manifestação pelas Diretas Já, em São Paulo
Manifestação pelas Diretas Já, em São Paulo Foto: Agência Brasil/Arquivo

 Esta eleição trouxe nova semente

Compartilhe:

Por Valtênio Paes (*)

Quem viveu a manifestação popular pelas “Diretas Já” entre março de 1983 e abril de 1984 lembrará uma das maiores manifestações populares do Brasil. O povo foi para as ruas; artistas, representantes de categorias profissionais, estudantes e políticos se uniram por um único lema.  Defendiam as eleições diretas contra as indiretas controladas pelos militares por vinte anos. Era a manifestação latente que fervilhava nas ruas. Políticos e líderes sociais de várias tendências ideológicas se uniram num mesmo palanque na defesa de pauta única. A emenda foi rejeitada, porém a ditadura ruiu.

Nomes históricos se destacaram pela capacidade de argumentação sem perderem suas tendências ideológicas. Num mesmo palanque, todos se respeitavam, exercitando a tolerância em prol das eleições, como objetivo maior. Mais de 40 anos se passaram, os líderes desapareceram, deixando Lula como sobrevivente. O uso das redes digitais hipnotizou o povo e influencers se tornaram políticos. Cada um, mentindo para sua bolha e ficando rico.

O movimento agregou diversos setores da sociedade brasileira. Participaram inúmeros partidos políticos de oposição ao regime ditatorial, além de lideranças sindicais, civis, artísticas, estudantis e jornalísticas. Dentre eles, segundo a Enciclopédia Livre, destacaram-se:

“Tancredo Neves, Leonel Brizola, Miguel Arraes, José Richa, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Dante de Oliveira, Mário Covas, Gerson Camata, Orestes Quércia, Luiz Inácio Lula da Silva, Eduardo Suplicy, Roberto Freire, Luís Carlos Prestes, Fernando Henrique Cardoso, Jorge da Cunha Lima, Marcos Freire, Fernando Lyra, Jarbas Vasconcelos e Moreira Franco [4]. Dentre personalidades em geral, destacaram-se Heráclito Fontoura Sobral Pinto, Sócrates (futebolista), Christiane Torloni, Mário Lago, Gianfrancesco Guarnieri, Fafá de Belém, Chico Buarque, Taiguara, Beth Carvalho, Martinho da Vila, Osmar Santos, Juca Kfouri, entre outros. A música “Coração de Estudante” de Wagner Tiso e Milton Nascimento tornou-se hino popular na rua, no rádio e na TV.

Ulysses Guimarães
Ulysses Guimarães, o Senhor Diretas Arquivo/Agência Brasil

 

Logo depois, os militares se afastaram do poder. Veio a eleição, ainda indireta, de Tancredo Neves que falecera antes de assumir a presidência, sendo substituído por José Sarney, seguido da eleição do Congresso Constituinte. Com o novo Legislativo, novamente a participação popular ativa através das instituições, com 122 propostas de emendas populares e mais de 61.000 apresentadas pelos parlamentares. O apoio popular na elaboração de nova Carta Magna ensejou o título de Constituição Cidadã. Ulysses Guimarães, cognominado “Senhor Diretas” afirmara em seu discurso de promulgação:

…. “Há, portanto, representativo e oxigenado sopro de gente, de rua, de praça, de favela, de fábrica, de trabalhadores, de cozinheiras, de menores carentes, de índios, de posseiros, de empresários, de estudantes, de aposentados, de servidores civis e militares, atestando a contemporaneidade e autenticidade social do texto que ora passa a vigorar”…

Nos últimos vinte anos, o povo foi saindo paulatinamente das ruas por força da calmaria política e do crescimento econômico. O país chegara a ocupar o posto de sexta economia do mundo em 2013, enquanto lideranças e participação popular declinavam. Aos poucos, já na segunda eleição da presidenta Dilma, o declínio foi cedendo lugar à polarização entre o ódio conservador e a insistência de manutenção de um discurso carente de renovação.  Uma onda conservadora ocupou espaço sob a influência externa de países e empresas digitais. Lideranças progressistas sem criatividade não atualizaram a relação do discurso com a prática.

Por outro lado, a lógica da frente ampla conservadora começa a varrer o planeta. Argentina, Chile, Equador, Colômbia, Peru, Paraguai, Bolívia, Costa Rica, Alemanha, além de fortes influências nas assembleias da França, Espanha, Portugal e no Parlamento Europeu. Todos esses fenômenos se explicam facilmente pela mesma razão que explica a política de “frente ampla” dos protestantes. Com a percepção de que a esquerda está no controle da academia, das elites globais, do mundo corporativo e dos organismos multilaterais, a direita é hoje a “contracultura”.

Nada original! Tudo começou com o movimento luterano da Europa para o mundo, porém, nos dias atuais, o negacionismo ousa confrontar a diversidade brasileira. Nas artes, na política, na música, na culinária, no esporte, com a amplidão territorial e o clima, amplamente diferentes dos de outros países, ficará difícil impor o rigor negacionista ou conservador. Muito difícil enquadrar capilaridades sociais diferentes, que se conectam naturalmente, de um povo, porque é a própria diversidade que gera unidade e força. Resta saber como esta onda conservadora, e até negacionista, reagirá à resistência do Brasil nesta eleição.

Independentemente de qualquer resultado final do pleito de 25 de outubro de 2026, o Brasil não será o mesmo porque as sementes das manifestações populares no segundo turno germinarão. Teremos consequências das manifestações populares que apareceram nas ruas. Parece que o povo acordou da anestesia das redes digitais.

Atente-se para o fato de que ataques às universidades federais de Roraima, Alagoas, Pernambuco, Rio de Janeiro, tiros próximos da UFS, dentre outras ações criminosas, levaram a geração Z para as ruas. Tal fato levou ao encontro entre os jovens e os veteranos adeptos da participação popular em defesa de uma sociedade mais justa, humana e menos desigual socialmente. Curiosamente, o que estava sendo antídoto contra as manifestações nas ruas foi usado como combustível para a revitalização. Somente a história dirá a durabilidade e a eficácia, porém a semente da participação popular, que estava adormecida, sinaliza que está germinando. Adubemos este terreno para que o ódio e a desigualdade sejam sepultados.

 

Compartilhe:

Sobre Valtenio Paes de Oliveira

Coditiano
(*) Professor, advogado, especialista em educação, doutor em Ciências Jurídicas, autor de A LDBEN Comentada-Redes Editora, Derecho Educacional en el Mercosur- Editorial Dunken e Diálogos em 1970- J Andrade.

Leia Também

Jogo do Confiança

   Confiança: da alegria à vergonha social

  Por Valtênio Paes de Oliveira (*)   Em textos anteriores, nesta coluna, tratamos da …

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WhatsApp chat