sexta-feira, 16/10/2026
Lula e Flávio
Os candidatos à presidência, Lula e Flávio Bolsonaro Fotos: Lula Oficial e Charles Vieira/Campanha Flávio Bolsonaro

Do “Brasil que sonha” ao “Brasil que vence”: a disputa de narrativas entre Lula e Flávio Bolsonaro

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Por Diego da Costa (*)

 

No próximo dia 25 de outubro, os brasileiros voltarão às urnas para decidir quem comandará o país pelos próximos quatro anos. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL).

O Tribunal Superior Eleitoral confirmou que os dois foram os candidatos mais votados no primeiro turno. Flávio Bolsonaro terminou com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%.

Mas, antes de olhar apenas para números, pesquisas ou estratégias eleitorais, há uma pergunta que merece atenção especial: como cada candidato está contando a história do Brasil que pretende construir?

Essa é uma questão de comunicação.

E os dois planos de governo apresentam diferenças bastante interessantes nesse aspecto.

Os documentos oficiais podem ser consultados diretamente no Tribunal Superior Eleitoral – Planos de Governo do 2º turno.

Lula: a comunicação da esperança, da reconstrução e da continuidade

O plano de governo de Lula começa por uma palavra extremamente poderosa no campo da comunicação: “sonho”.

O documento afirma que “o povo brasileiro sonha e almeja um futuro melhor” e apresenta a esperança como elemento mobilizador.

A narrativa construída é a de um país que passou por um período de ruptura e que precisa continuar um processo de reconstrução.

O plano trabalha conceitos como democracia, redução das desigualdades, direitos sociais, desenvolvimento sustentável, soberania nacional, valorização do trabalho e fortalecimento das políticas públicas.

Sua estrutura também revela uma determinada visão de Estado: um Estado que planeja, coordena, investe, protege direitos e atua para reduzir desigualdades.

A mensagem central, portanto, não é simplesmente “mudar o Brasil”.

É algo mais próximo de:

o Brasil começou uma reconstrução e precisa continuar avançando.

Essa escolha de comunicação é importante.

Lula procura falar para o cidadão, mas frequentemente parte de uma perspectiva mais ampla: a sociedade, o Estado, a democracia, a economia, o desenvolvimento e o projeto nacional.

É uma comunicação predominantemente coletiva.

O documento oficial de Lula pode ser consultado na íntegra no Plano de Governo Lula 2027–2030 no TSE.

Flávio Bolsonaro: a comunicação da segurança, da autonomia e da prosperidade

No plano de Flávio Bolsonaro, a estratégia narrativa é bastante diferente.

Logo na organização do documento aparecem expressões curtas e fáceis de memorizar:

“Brasil sem Medo”.

“Brasil por Elas”.

“Brasil sem Fila”.

“Brasil Mais Barato”.

“Brasil que Prepara”.

“Brasil que Prospera”.

“Brasil que Cresce”.

Do ponto de vista da comunicação, existe aqui uma escolha clara: transformar grandes temas nacionais em promessas associadas à vida cotidiana.

Medo.

Fila.

Preço.

Trabalho.

Casa própria.

Empreendedorismo.

Família.

Segurança.

Prosperidade.

O plano começa colocando o cidadão diante de perguntas bastante concretas: como pagar as contas? Como conseguir um emprego melhor? Como cuidar dos filhos? Como ter segurança? Como sair da dependência de programas sociais? Como comprar uma casa? Como abrir um negócio?

É uma comunicação que procura partir da vida da pessoa para chegar ao projeto de país.

Essa diferença é significativa.

Enquanto Lula apresenta uma narrativa mais orientada para a transformação estrutural da sociedade, Flávio procura construir uma narrativa mais orientada para a experiência individual e familiar.

O plano oficial de Flávio Bolsonaro pode ser consultado no Plano de Governo Flávio Bolsonaro 2027–2030 no TSE.

Duas maneiras de contar o futuro

É justamente aqui que a análise de comunicação fica mais interessante.

Os dois planos apresentam propostas para temas como economia, educação, saúde, segurança, infraestrutura, tecnologia, trabalho, meio ambiente e desenvolvimento.

Portanto, a diferença não está simplesmente nos assuntos abordados.

Está principalmente na forma de organizá-los e apresentá-los.

Lula utiliza uma linguagem de projeto nacional.

Flávio utiliza uma linguagem de benefício concreto para o cidadão.

Lula fala em reconstrução, democracia, direitos, desenvolvimento e soberania.

Flávio fala em segurança, liberdade, autonomia, redução de custos, trabalho e prosperidade.

Em outras palavras:

Lula comunica mais o país que pretende transformar.

Flávio comunica mais a vida que pretende mudar.

Essa talvez seja uma das principais diferenças narrativas entre os dois documentos.

O poder das palavras simples

Existe uma importante lição de comunicação no plano de Flávio Bolsonaro.

Expressões como “Brasil sem Fila” e “Brasil Mais Barato” funcionam porque transformam conceitos complexos em imagens mentais simples.

O eleitor não precisa necessariamente compreender toda a arquitetura administrativa de uma política pública para entender o que significa “sem fila”.

O mesmo acontece com “mais barato”.

É uma promessa comunicacional imediatamente compreensível.

Já a linguagem utilizada por Lula trabalha com conceitos que exigem maior contextualização: democracia, desigualdade, soberania, transformação estrutural, desenvolvimento sustentável, reconstrução do Estado.

Isso não significa que uma estratégia seja melhor ou pior.

Significa que elas utilizam códigos diferentes para disputar atenção e compreensão.

E comunicação política é, antes de tudo, uma disputa pela atenção das pessoas.

Medo e esperança como gatilhos narrativos

Há ainda outro contraste bastante evidente.

O plano de Lula utiliza fortemente a ideia de esperança.

O plano de Flávio utiliza fortemente a ideia de segurança diante do medo.

São dois sentimentos extremamente poderosos na comunicação.

A esperança olha para aquilo que podemos construir.

O medo olha para aquilo que precisamos evitar.

Um comunica a possibilidade de um futuro melhor.

O outro comunica a necessidade de recuperar segurança, controle e previsibilidade.

E aqui aparece uma regra clássica da comunicação:

Pessoas não se mobilizam apenas por informações. Elas se mobilizam também por sentimentos, valores e expectativas de futuro.

O cidadão como protagonista

Outra diferença merece atenção.

No plano de Lula, o protagonista da narrativa é frequentemente o povo brasileiro enquanto coletividade.

No plano de Flávio, o protagonista aparece muitas vezes como o indivíduo, a família, o trabalhador, a mulher, o empreendedor ou o cidadão que precisa recuperar autonomia.

É uma mudança importante de perspectiva.

De um lado:

“Que país queremos construir?”

Do outro:

“Que vida queremos proporcionar ao cidadão?”

As duas perguntas são legítimas.

Mas produzem narrativas diferentes.

Mais do que propostas, são histórias sobre o Brasil

Talvez esse seja o ponto mais importante desta eleição.

Um plano de governo não é apenas uma lista de medidas administrativas.

Ele também é uma história sobre o país.

Toda candidatura precisa responder, explícita ou implicitamente, a três perguntas:

Onde estamos?

Onde queremos chegar?

Por que devemos acreditar que esse caminho é possível?

Lula apresenta um Brasil que precisa continuar uma trajetória de reconstrução, inclusão social e fortalecimento do Estado.

Flávio apresenta um Brasil que precisa superar medo, burocracia, perda de poder de compra e dependência, avançando em direção à autonomia, segurança e prosperidade.

São duas interpretações diferentes sobre o presente e duas narrativas diferentes sobre o futuro.

E é justamente aí que a comunicação deixa de ser apenas comunicação.

Ela passa a ser posicionamento.

A eleição também será uma disputa de narrativas

Independentemente da preferência política de cada cidadão, existe uma lição importante para quem trabalha com gestão, marketing, comunicação ou liderança:

não basta ter uma proposta. É preciso saber explicar por que ela importa.

Uma política pública pode ter dezenas de páginas de fundamentação técnica.

Mas, se não conseguir responder à pergunta “o que isso muda na minha vida?”, terá dificuldade para conquistar atenção.

Da mesma maneira, uma promessa pode ser extremamente simples e emocional, mas precisará enfrentar outra pergunta:

“Como isso será realizado?”

É nesse equilíbrio entre emoção, proposta, credibilidade e execução que está o verdadeiro desafio da comunicação política.

No segundo turno de 2026, Lula e Flávio Bolsonaro apresentam não apenas dois conjuntos de propostas.

Apresentam também duas maneiras de explicar o Brasil.

Uma fala mais diretamente em esperança, reconstrução e transformação coletiva.

A outra fala mais diretamente em segurança, autonomia, liberdade e prosperidade individual e familiar.

No fim, a disputa de comunicação pode ser resumida em uma pergunta:

Qual dessas narrativas será capaz de explicar melhor o futuro que o eleitor deseja para o Brasil?

A resposta será dada nas urnas em 25 de outubro.

E, para quem observa a política sob a ótica da comunicação, talvez a grande lição seja outra:

antes de convencer alguém sobre uma proposta, é preciso conseguir fazê-lo entender por que aquela proposta importa para a sua vida.

Essa é a essência da Comunicação Assertiva.

 

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Sobre Diego da Costa

Diego da Costa
Diego da Costa é profissional de administração, escritor e radialista. Atualmente participa ativamente do Business Network International (BNI) nas equipes Protagonista (Coordenador de Educação) e Luminare (Embaixador).

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