Diretora da Petrobras confirma início da infraestrutura do SEAP em 2027; projeto pode transformar Sergipe em um dos principais polos de petróleo e gás do país.
Por Antônio Carlos Garcia (*)
As duas plataformas do Projeto Sergipe Águas Profundas (SEAP), o maior investimento da Petrobras fora do pré-sal, terão a infraestrutura de escoamento implantada a partir de 2027, segundo a diretora executiva de Exploração e Produção da estatal, Sylvia Anjos, na abertura da 5ª edição do Sergipe Oil & Gas (SOG26), nesta quarta-feira (29).
O empreendimento prevê a construção de um gasoduto de 134 km de extensão, dos quais 111 km em trecho marítimo e 23 km em terra, além da interligação de 32 poços e da instalação de equipamentos submarinos. Segundo a Agência Petrobras, a licitação para o fornecimento de árvores de natal molhadas (ANMs) já está em andamento, e novas licitações para as demais infraestruturas devem ser abertas ainda em 2026.
“A questão da infraestrutura tudo já começa provavelmente para o ano que vem. A gente está em toda a parte de contratação e tudo mais. Mas eu só posso garantir que, quando a plataforma chegar, vai estar tudo pronto”, afirmou Sylvia Anjos. Embora a executiva tenha usado o singular, o SEAP prevê duas unidades de produção: a P-81, vinculada ao módulo SEAP I, e a P-87, do módulo SEAP II, ambas contratadas junto à SBM Offshore sob o modelo BOT (Build, Operate and Transfer).
Capacidade e investimentos
As duas plataformas terão capacidade instalada conjunta de 240 mil barris de petróleo por dia e processamento de 22 milhões de m³ de gás natural por dia. O início da produção de óleo está previsto para 2030, com exportação de gás a partir de 2031. Os investimentos totais nos dois módulos superam R$ 60 bilhões, com produção estimada em mais de 1 bilhão de barris de óleo equivalente.
A decisão final de investimentos (FID) do SEAP II foi aprovada em dezembro de 2025. O FID do SEAP I foi aprovado em abril de 2026. A assinatura dos contratos com a SBM Offshore estava prevista para maio de 2026, após etapas de governança e aprovação junto aos parceiros.
Transição energética
Durante a palestra de abertura, Sylvia Anjos defendeu que o petróleo e o gás natural continuarão desempenhando papel estratégico na transição energética. Segundo ela, o setor de energia responde por 68% das emissões globais de gases de efeito estufa, enquanto a agricultura representa 11%.
No Brasil, o cenário é diferente: a energia responde por 25% das emissões e a agropecuária por 38%. Para a executiva, essa característica da matriz energética brasileira reforça a importância do gás natural como combustível de transição e amplia a relevância de projetos como o SEAP.
Sergipe prepara salto histórico na produção
Hoje, Sergipe ocupa uma posição modesta entre os produtores nacionais. Dados consolidados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram que o estado encerrou 2025 como o nono maior produtor de petróleo e gás do Brasil, com produção média de cerca de 12,4 mil barris de óleo equivalente por dia, mantendo em operação campos históricos como Carmópolis, o maior campo terrestre produtor de petróleo do país.
Com o início da produção do SEAP, entretanto, esse cenário deverá mudar radicalmente. A Petrobras estima que Sergipe alcance produção de aproximadamente 240 mil barris de petróleo por dia e 18 milhões de metros cúbicos de gás natural diariamente, volume equivalente a cerca de 20% da produção nacional de gás natural.
Na prática, o Sergipe Águas Profundas poderá multiplicar por quase vinte vezes a produção atual do estado, reposicionando Sergipe entre os principais polos brasileiros da indústria de petróleo e gás. “Vai realmente contribuir não só para o gás do país, mas também para reduzir o preço do gás. Só se reduz preço com aumento da oferta. Hoje nós somos importadores”, afirmou Sylvia Anjos.
Plataformas exigirão bilhões em investimentos
A dimensão do projeto explica por que as obras de infraestrutura precisam começar anos antes da chegada das plataformas.
Cada FPSO do SEAP demandará investimentos da ordem de US$ 5 bilhões, terá vida útil superior a 25 anos, contará com 10 a 20 poços produtores, entre 200 e 350 quilômetros de linhas submarinas e operação em lâminas d’água próximas de 2 mil metros.
Os poços poderão alcançar aproximadamente 7 mil metros de profundidade, enquanto cada unidade terá capacidade para gerar cerca de 100 megawatts de energia.
Descomissionamento também movimenta bilhões
Ao mesmo tempo em que prepara a chegada da nova fronteira petrolífera, Sergipe também vive o encerramento de um ciclo histórico da indústria.

A Petrobras executa na Bacia Sergipe-Alagoas um dos maiores programas de descomissionamento do país, com previsão de investimentos de aproximadamente US$ 1,7 bilhão até 2029. O programa envolve a retirada e destinação sustentável de 26 unidades de produção marítimas, além do abandono de poços e da recuperação ambiental das áreas operacionais.
O descomissionamento cria uma nova frente de negócios para empresas de engenharia, logística, manutenção e serviços especializados, movimentando a cadeia produtiva antes mesmo da entrada em operação das plataformas do SEAP.
Na prática, Sergipe passa a viver duas etapas simultâneas da indústria do petróleo: o encerramento da produção em ativos maduros e a implantação da maior fronteira de exploração offshore da Petrobras fora do pré-sal.
Estado quer transformar gás em indústria
Durante a abertura do Sergipe Oil & Gas, o governador Fábio Mitidieri defendeu que Sergipe aproveite a nova riqueza para industrializar sua economia. “Não queremos ser apenas o Uber do gás, extraindo essa riqueza e enviando para outros estados. Queremos atrair indústrias, agregar valor e gerar empregos aqui.”
Segundo o governador, o Estado trabalha para ampliar a qualificação da mão de obra, preparar o ambiente regulatório e transformar a expansão da produção de gás natural em desenvolvimento econômico permanente.
A abertura do evento também foi marcada pela assinatura de dois acordos de cooperação técnica voltados ao fortalecimento do mercado de gás natural. Um deles integra o Pacto Nacional para o Desenvolvimento do Mercado de Gás Natural, reunindo o Ministério de Minas e Energia, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) e o Governo de Sergipe. Outro acordo aproxima a ANP e a Agrese para harmonizar a regulação estadual, criando um ambiente mais favorável à expansão da infraestrutura e à atração de novos investimentos.
Lei do Gás abriu caminho para investimentos

Relator da Lei do Gás (Lei nº 14.134/2021) no Senado, o senador Laércio Oliveira afirmou que os números apresentados durante o evento representam uma transformação para Sergipe. “Quando vejo essa curva de crescimento, não enxergo apenas gráficos. Vejo a transformação da vida de milhares de sergipanos. Quero ajudar a construir essa escadinha para que Sergipe chegue ao topo.”
Segundo o parlamentar, a legislação abriu o mercado brasileiro de gás natural, ampliou a concorrência e criou condições para novos investimentos no setor.
Durante o evento, Laércio também revelou que solicitou à Petrobras a doação da plataforma Guaricema para Sergipe e participou do lançamento do livro Cinco Anos da Lei do Gás: Conectando o Brasil ao Futuro, obra que analisa os impactos do novo marco regulatório sobre o mercado brasileiro de gás natural.
Sergipe consolida protagonismo energético
Para o sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, Sergipe vive um momento histórico. “Hoje, quando se fala em petróleo e gás no Brasil, fala-se também em Sergipe.”
Realizado até sexta-feira (31), no Centro de Convenções AM Malls, o Sergipe Oil & Gas chega à quinta edição consolidado como o principal encontro da cadeia de óleo e gás do estado. O evento reúne cerca de 90 expositores, mais de 120 palestrantes e representantes das principais empresas do setor.
Mais do que discutir perspectivas, a edição deste ano acompanha o início da execução de um projeto que poderá transformar Sergipe em um dos principais polos brasileiros de petróleo e gás natural. Com o avanço do SEAP, o estado deixa de ocupar uma posição secundária na produção nacional para assumir um papel estratégico no abastecimento energético do país.
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