quarta-feira, 02/12/2020
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O cirurgião Raul Andrade: treinamento em Atlanta

Cirurgia robótica é uma realidade em Sergipe

A cirurgia robótica já é uma realidade em Sergipe. O Hospital São Lucas, pertencente à Rede D’Or São Luiz, adquiriu o robô Da Vinci, estimado em R$ 7 milhões, e, neste final de semana está realizando cirurgias utilizando esse aparelho. Foram realizadas três cirurgias no sábado e outras três ocorrem hoje, domingo. O cirurgião do aparelho digestivo, Raul Andrade, 44 anos, é um dos profissionais que foi  treinado na sede da empresa que fabrica o robô, a Intuitive Surgical, em Atlanta (EUA), para fazer este tipo de procedimento em Sergipe.  Segundo ele, incisões neste tipo de cirurgia são bem menores, se comparadas com as vídeolaparascopias, a precisão é bastante alta e o tempo de recuperação do paciente também é menor. “A cirurgia robótica, costumo dizer que é o futuro da cirurgia que chegou para nós”, garante Raul Andrade, ao assegurar que “o robô torna os movimentos mais precisos, não há tremores, acelera a recuperação do paciente, permite que se evite a lesão de pequenos nervos e vasos sanguíneos, que não se conseguia ver na cirurgia por vídeo”. A cirurgia robótica é uma novidade no país, por isso, acredita o médico, ainda não consta no rol de procedimentos da Agência Nacional de Saúde (ANS). Ele também desconhece que tal procedimento é coberto pelos planos de saúde.  Mas, Raul acredita que a tendência, agora, é que mais pessoas prefiram se submeter a cirurgia robótica. Na sexta-feira, véspera das primeiras três intervenções, Raul Andrade recebeu o Só Sergipe para a seguinte entrevista:

SÓ SERGIPE – Neste final de semana, o senhor está realizando seis cirurgias bariátricas utilizando o robô Da Vinci. Três no sábado e mais três hoje, domingo. 

RAUL ANDRADE – Nós começamos no sábado, o programa de cirurgia robótica em Sergipe, no Hospital São Lucas, que faz parte da Rede D’Or. Esse programa de cirurgia é o maior da América Latina. A equipe de cirurgia do aparelho digestivo, da qual eu faço parte com mais dois cirurgiões, está revezando os primeiros procedimentos.

O cirurgião Raul Andrade e o robô Da Vinci

SS – Quem são os seis pacientes?

RA – Temos pacientes do sexo masculino e feminino, todos com indicação para cirurgia bariátrica. E a cirurgia robótica é a alternativa mais moderna que existe para a via de acesso.  Ela é realizada através de pequenas incisões, como na vídeolaparascopia, mas são incisões ainda menores e utilizando da plataforma do robô que agrega mais precisão e qualidade, porém sempre comandada pelo cirurgião.

SS – Qual a vantagem deste tipo de cirurgia?

RA – A cirurgia robótica, costumo dizer, é o futuro da cirurgia que chegou para nós. Nessa cirurgia, trabalhamos comandando os braços robóticos que são extremamente precisos e reproduzem os movimentos dos punhos e das mãos como se nós estivéssemos operando com as mãos dentro do abdome do paciente. Tem uma vantagem com relação à cirurgia por vídeolaparascopia nesse sentido, os movimentos são mais delicados, a recuperação pós-operatória é mais rápida, o robô tem a capacidade de evitar tremores, que são naturais da mão humana, seja pelo cansaço ou qualquer outro motivo. O robô torna os movimentos mais precisos, não há tremores, acelera a recuperação do paciente, permite que se evite a lesão de pequenos nervos e vasos sanguíneos, que não se conseguia ver na cirurgia por vídeo.  Por exemplo, na cirurgia de próstata, você tem uma lesão muito menor de nervos e diminui as sequelas que podem acontecer no pós-operatório, como dificuldade de retenção urinária ou incontinência urinária ou a síndrome de disfunção eréctil. Essas coisas diminuem muito quando você faz a cirurgia mais precisa  utilizando o robô.

SS – Existem desvantagens?

RA –Talvez seja ainda o custo do robô. É uma tecnologia, não tenho dúvida, extremamente superior a que temos hoje, mas isso agrega um custo alto. Não é todo hospital que pode adquirir um robô, porque o custo é bastante elevado, algo em torno de R$ 6 a R$ 7 milhões, um aparelho como esse. Mas a tecnologia e a capacidade que o robô agrega ao cirurgião, em termos de precisão do procedimento, compensa tudo isso.

SS – E essa cirurgia é cara para o paciente também? Os planos de saúde cobrem esse custo?

RA – Infelizmente, a cirurgia robótica, por ser uma novidade, e isso é compreensível, ainda não foi agregada no rol de procedimentos da Agência Nacional de Saúde (ANS). Desconheço algum plano de saúde que, hoje, cubra o custo da cirurgia robótica. Existe um custo adicional para o paciente, que é bem otimizado por parte dos hospitais para que se viabilize para o paciente. Tem o custo da utilização das pinças do robô e do equipamento.  E o cirurgião junto com o paciente vão avaliar que tipo de procedimento cirúrgico será realizado, se vai valer a pena ele investir nisso.

SS – Imagino que o senhor conversou com essas seis pessoas, sugerindo a cirurgia.

RA – Quase todas as cirurgias que realizamos por vídeolaparascopia, que já é uma evolução da cirurgia convencional, podem ser feitas por via robótica com uma precisão maior e com vantagens evidentes.  Em alguns casos, como nas cirurgias de próstata, é extremamente superior a vantagem do robô. E com o avanço das plataformas robóticas, cada vez mais teremos essa diferença aumentada: mais vantagem da cirurgia robótica em relação à cirurgia videolaparoscópica.  Temos o dever de oferecer ao paciente sempre que acharmos que ele vai se beneficiar deste procedimento. Nós temos acesso a essa tecnologia no nosso Estado, temos que oferecer.

SS – Quanto tempo, em média, dura cada uma dessas cirurgias?

RA – A cirurgia, por via robótica, dura o mesmo tempo ou menos que a cirurgia por vídeo. É em torno de uma hora ou uma hora e meia. É o tempo que nós gastamos.

SS – Já existem outras pessoas na fila para a cirurgia com o robô?

RA – Sim. Há muita gente querendo e alguns pacientes que já foram operados serão submetidos a reoperações do abdome.   A cirurgia robótica é escolha do paciente, porque ela permite mais tranquilidade, e trabalha com calma em regiões com aderência, que já foram operadas. É muito difícil para o cirurgião e o robô torna isso mais fácil. O programa está começando e esperamos aumentar cada vez mais o número de cirurgias aqui. Tomara que possamos trazer um maior número de pacientes para que se beneficie da cirurgia robótica.

SS – Além do senhor, quantos cirurgiões aqui em Sergipe estão capacitados para fazer essas cirurgias?

RA –Esse programa inicial de robótica surge, aqui no Hospital São Lucas, com cinco profissionais.  São dois profissionais do aparelho digestivo – eu e o Fábio Almeida – e três urologistas que estão treinados e certificados.

SS – Como foi esse treinamento e onde aconteceu?

RA – É um treinamento longo. Precisamos conhecer a fundo todo o robô, como liga e desliga, monta e desmonta. Essa é a primeira parte. Depois, temos que participar de cirurgias em centros onde ela é realizada; depois passamos 40 horas em um simulador da própria empresa, a Intuitive Surgical, e treinamos bastante. Depois, começamos uma certificação internacional, que fizemos recentemente em Atlanta (EUA), onde está a sede da empresa, para, a partir daí, começar a fazer as primeiras cirurgias, sempre acompanhadas por um cirurgião experiente no método. Hoje somos cinco capacitados, mas a ideia do programa de robótica é, a partir deste grupo inicial, irmos treinando e certificando outros cirurgiões. Não tenho dúvida, que a médio prazo, nós estaremos operando, apenas, na via robótica do Da Vinci. Mas a Intuitive já tem outros robôs para lançar.

O cirurgião comandando o robô, ontem à tarde

SS – Esse robô está disponível para cirurgias oncológicas e para outros tipos?

RA – Sim, sim. Nós também realizamos as cirurgias oncológicas do aparelho digestivo. A cirurgia robótica pode ser utilizada, desde os procedimentos mais simples, como de vesícula ou apendicite, como de esôfago, no tratamento de refluxo, as bariátricas. Quando passamos para cirurgias oncológicas, vemos vantagens muito evidentes que nelas é importante a retirada dos gânglios acometidos e retirada dele, por via robótica, que chamamos de linfadenectomia, é feita com uma visão muito mais detalhada. O robô permite que tenhamos uma visão tridimensional (em 3 D), imagem totalmente diferente que vemos em tela plana 2D. Conseguimos enxergar melhor, trabalhar com mais conforto, mais delicadeza e precisão. E mantém o cirurgião ativo, sem cansaço em procedimentos longos como as cirurgias oncológicas.

SS – O robô Da Vinci  executa exatamente o movimento que o cirurgião faz. Nos mais antigos, se o cirurgião quer que a pinça vá para o lado esquerdo, ele tinha que movimentar a mão para o lado direito. E outra coisa, quando o cirurgião para de olhar para a tela, o robô para o movimento, justamente para não prejudicar o paciente.

RA – Isso mesmo. Existem vários mecanismos de defesa, de segurança no robô.  Um deles, é que quando colocamos o rosto na tela, nós podemos ativar as pinças e trabalhar. Imediatamente, quando tiro o rosto, todas essas pinças ficam congeladas, estáticas, dentro do abdome do paciente e podemos levantar, olhar o paciente, reavaliar um exame e voltar para o procedimento.  Essa é uma grande vantagem. O cirurgião consegue controlar três pinças e ótica, ao mesmo tempo.  Ele mesmo consegue filmar e mostrar a imagem que ele quer ver, expor os tecidos precisando apenas de um auxiliar, ao invés de dois como tínhamos. Então, praticamente, o cirurgião vai conseguir fazer o trabalho dele e do próprio auxiliar e do que filma.  Ele consegue com um robô fazer o trabalho dos três com precisão maior.

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