quinta-feira, 11/08/2022
Luiz Thadeu e sua colega de colégio de infância
Luiz Thadeu e a Dra. Sônia Jorgete: memórias de infância Foto: Acervo pessoal

Um dia corrido e muito especial

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Luiz Thadeu (*)

Sexta-feira, prenúncio de um dia corrido. Muita coisa acumulada, postergada, urgência em ser resolvida.

Levanto-me da cama cedo, higiene pessoal rápida, tomo café da manhã apressado, pego o carro, atravesso a cidade, para encontrar com o primo Paulo, responsável pela limpeza de uma área, que por descuido, cresceu o mato que enrama pelas paredes laterais, causando problemas para os vizinhos. Procrastinar, é o que tenho feito há tempos. Claro que o volume de problemas cresce, o tempo cobra.

Tenho consultas marcadas previamente, para este dia. Uma no final da manhã, angiologista; outra, no começo da tarde, dermatologista.

Com o adiantado da idade o corpo mostra fadiga de material. Como não há peças de reposição, tem que fazer pequenos reparos, evitando problemas maiores.

Consulto as horas, o tempo teima em seguir seu curso, tenho 45 minutos antes da primeira consulta. Lembro que nunca sou atendido na hora previamente marcada. Todos correndo, consultórios cheios, médicos cada vez mais exaustos, atendimentos rápidos, “o próximo por favor”. Atendimento cronometrado.

Paro no supermercado para pequenas compras, nada de demorar em gôndolas. Quando posso, vou a supermercados como quem vai a museu, observo cada produto, meticulosamente.

Com a carestia – sou da época da hiperinflação do Sarney – cada vez maior, redobro a atenção para fazer valer meus minguados reais. Encerro as compras, pago no caixa, acomodo as compras no carro, sigo para primeiro médico, o angiologista.

Faço a ficha, assino papéis para prestação do plano de saúde. Sento-me, aguardo para ser chamado, espero um pouco mais, passa da hora marcada. Sou atendido por um jovem médico, da idade do meu primogênito. Pede-me para tirar a calça, mostrar a perna esquerda, sequelada por causa do acidente, que quase ceifou minha vida, em julho de 2003.

Dr. Maurício faz a anamnese, perguntas para seu diagnóstico. “Doi?”, pergunta apertando a panturrilha. “As dores são frequentes?”. Passa exames de imagem. Fim da consulta, me encaminho para recepção, marco os exames para semana seguinte.

Sigo para casa; os fiéis companheiros, Duck e Fiona, em uma orquestra de latidos, me aguardam. Querem carinho, faço-lhes agrado, coço-lhes as costas, deitam-se, dormem.

Quando partir desta terra, não desejo mais voltar, mas se tiver que voltar, e puder escolher, quero ser cachorro. Desde que seja para ter donos amorosos.

Almoço, ligo a TV, por teimosia e vício. O noticiário é dominado por notícias ruins, tóxicas: violência, corrupção, muitas mentiras, estamos no período eleitoral, no qual todos têm solução para os problemas nunca resolvidos. Já tentei não acompanhar o noticiário, missão impossível. Com as facilidades da tecnologia, tenho 228 assinaturas de jornais, revistas, blogs e portais de notícias, em português e espanhol.

– Não, isso não é coisa de gente normal, é coisa de maluco, diria a você, caro leitor, amiga leitora. É vício mesmo.

Sempre fui louco por notícias, tive assinatura de todas as principais revistas e jornais impressos. Até do Jornal do Brasil fui assinante. Era despachado do Rio, no início das manhãs, recebia à noite, quiçá no dia seguinte em minha casa.

Quando me casei, fui trabalhar e morar em Pindaré-Mirim, interior do Maranhão. Lugar pequeno, era assinante da Veja, a maior revista em circulação no Brasil.

Meu exemplar chegava com duas semanas de atraso, quando não era extraviado. Junto com Veja, assinava Playboy, Exame, Quatro Rodas, Seleções, e as revistas americanas Newsweek e a Time. Imagine as revistas postadas em NY, EUA, e chegando em minhas mãos em Pindaré-Mirim. Era quase como ser despachadas para a lua ou para Marte. Sem ler em inglês, era tão somente para ter as revistas de maior vendagem do mundo, com o meu nome e endereço impressos na capa.

Hoje, leio a Time, digital, traduzida por um aplicativo. A Newsweek não circula mais.

Voltando a sexta-feira, consulto novamente as horas, vejo que está próximo da consulta da dermatologista.  O consultório fica próximo de casa, rodo um pouco a procura de um estacionamento. A cidade tem mais carros do que ruas. Estaciono, me encaminho para a sala 311, onde a médica atende.

Na noite anterior, em conversa com Heloísa, companheira de jornada, falo o nome da médica dermatologista, Dra. Sônia Jorgete, ela me diz: “Salvo engano, ela foi tua colega do Jardim de Infância Pituchinha”. Lembrava vagamente de alguém com este nome.

A atendente ao preencher a ficha, já com as carteiras de identidade e do plano de saúde em mãos, pergunta se é minha primeira vez, meu endereço, e conclui “Aposentado?”.

-Não, aposentado, não. Sou tudo, menos aposentado. Você sabe o que é um aposentado? É aquele que voltou para seus aposentos, que não faz mais nada de útil. Sou engenheiro agrônomo, palestrante, viajante, contador de histórias, tudo, menos aposentado.

-Moço, aprendi com o senhor que aposentado é aquele que voltou para os aposentos.

Era somente eu, logo fui anunciado. Entrei, me apresentei, perguntei se a médica tinha estudado no antigo Pituchinha.

-Sim, estudei lá. Nos conhecemos? Como é o seu nome?

-Luiz Thadeu, terminei o Jardim de Infância em 1969.

-Então éramos da mesma turma.

Estávamos de máscaras, após retirarmos, com nossa mais nova versão, 53 anos depois, estava sendo atendido por uma colega do jardim, uma antiga Dra do ABC.

-O que te traz aqui?

-Estou com manchas nas costas, que arde de vez em quando.

-Levante a camisa, por favor. Arde quando está muito calor?

-Sim.

-Não é nada sério, vou te passar um sabonete e um creme. Vai resolver.

Falamos de alguns nomes, rebobinando a memória. Lembramos das donas da escolinha, que moravam ao lado. D. Felicidade e a filha Teresinha Rego.

-Lembra do Afonso? Foi professor de meu filho, disse ela.

-Lembra da Cristina, era loirinha? Morreu.

-O Djalma também morreu, fui à missa de 7° dia. Ele era amigo do meu marido.

Não lembrava nem do Afonso e nem da Cristina. Do Djalma, sim. Ele era irmão de um cara que cursou agronomia na minha época, Luís Eugênio, que morrera recentemente de Covid-19.

Agora era vez de perguntar, “Lembra de Ana Lúcia?

-Não, como ela era?

-Pequena, branquinha, linda.

-Não lembro.

Ana Lúcia foi minha primeira paixão, aos seis anos. Lembro dela de saia curta, aparecendo a calcinha de folhinho cor de rosa.

Eram outros tempos: meninos de azul, meninas de cor de rosa.

Ao final da consulta, tiramos uma foto para registrar o momento.

Cinquenta e três anos depois, um filme passou pela minha cabeça. Lembrei de minha lancheira azul, que tinha uma garrafa transparente e tampa azul, que levava Ki-suco de morango ou de uva, umas bolachas água e sal e uma banana. Lembrei de minha saudosa mãe, professora Maria da Conceição, que fazia um sacrifício danado para pagar uma escola de qualidade. Graças ao esforço dela tive o privilégio de estudar nos melhores colégios da época.

Lembrei da grande figueira que ficava na entrada da escolinha, com suas raízes enormes, e das lacerdinhas, um bichinho preto que se caia no olho fazia um estrago danado. Lembrei de alguns colegas, sem associar os nomes. Lembrei de Ana Lúcia, linda, e sua calcinha de folhinho. Por onde andará Ana Lúcia?

De volta para casa, ao abrir a porta, sou recebido com alegria por Duck e Fiona, ansiosos por carinho. Hora de coçar suas costas e receber lambidas em forma de gratidão e amor. Momentos únicos, de felicidade.

Tudo passa, somente algumas memórias ficam.

__________________

(*) Luiz Thadeu Nunes e Silva é engenheiro agrônomo, palestrante, viajante, cronista, autor do livro “Das muletas fiz asas”. Um pouco de tudo, menos aposentado.

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