sexta-feira, 24/05/2024
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O Jesus Esotérico: motivos para o iniciado manter os seus segredos

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Por Nilton Santana[1]

 

Para a minha mulher,

Fernanda,

e para a minha filha,

Heloísa.

“Os lábios da Sabedoria estão fechados, exceto aos ouvidos do Entendimento.”[2]

O Caibalion

 

Toda escola esotérica possui o silêncio com um papel capital. Não se pode conceder alguns ensinamentos para pessoas que não estão preparadas para receber determinadas sabedorias.

O Caibalion é explícito ao ensinar a qualidade excepcional do esoterismo, uma vez que espalhar o que a maioria não está preparada para apreender, ou até mesmo não deseja compreender, é uma loucura fatal.

Mas por qual motivo não se compreendem bem as “verdades esotéricas”? Por que alguns ensinamentos necessitam ser observados com o método esotérico? Por qual motivo a Maçonaria preza pela discrição sigilosa de seus membros?

O motivo é bastante simples e pode ser entendido no próprio Caibalion:

“Existiu sempre um punhado de homens para cuidar do altar da Verdade, em que mantiveram sempre acesa a Lâmpada Perpétua da Sabedoria. Estes homens dedicaram a sua vida a esse trabalho de amor que o poeta muito bem descreveu nestas linhas:

“Oh! não deixeis apagar a chama! Mantida de século em século. Nesta escura caverna. Neste templo sagrado! Sustentada por puros ministros do amor! Não deixeis apagar esta divina chama!”

Estes homens nunca procuraram a aprovação popular, nem grande número de prosélitos. São indiferentes a estas coisas, porque sabem quão poucos de cada geração estão preparados para a verdade, ou podem reconhecê-la se ela lhes for apresentada. Reservam a carne para os homens feitos, enquanto outros dão o leite às crianças. Reservam suas pérolas de sabedoria para os poucos que conhecem o seu valor e sabem trazê-las nas suas coroas, em vez de as lançar ao porco vulgar, que enterrá-las-ia na lama e as misturaria com o seu desagradável alimento mental. Mas esses poucos não esqueceram nem desprezaram os preceitos originais de Hermes, que tratam da transmissão das palavras da verdade aos que estão preparados para recebê-la, a respeito dos quais diz o Caibalion: “Em qualquer lugar que se achem os vestígios do Mestre, os ouvidos daqueles que estiverem preparados para receber o seu Ensinamento se abrirão, completamente.” E ainda: “Quando os ouvidos do discípulo estão preparados para ouvir, então vêm os lábios para enchê-los com sabedoria.” Mas a sua atitude habitual sempre esteve estritamente de acordo com outro aforismo hermético também do Caibalion: “Os lábios da Sabedoria estão fechados, exceto aos ouvidos do Entendimento.”[3]

Veremos que o Caibalion preza pelo esoterismo. Assim como vários Livros da Bíblia também aprecia a prática esotérica. O que seria esoterismo? Em toda religião há uma face exotérica e uma face esotérica. A exotérica é a destinada para a maior parte da população, enquanto a esotérica é somente dirigida para alguns poucos iniciados. Eso em grego significa “dentro de” e designa um saber interno, que vai além das aparências (oposição a Exo que significa “fora de”). O esotérico necessita de uma hermenêutica que permita observar de forma mais detalhada a natureza do que é apresentado pelo exotérico. O exoterismo seria o primeiro degrau, o degrau do que é apresentado, já o esoterismo seria os degraus sequentes[4]. Então ao dizer que Jesus era Esotérico e ao dizer que a Bíblia defende o esoterismo, não estou aqui tentando falar em conceitos vagos, e muito menos vilipendiar a mensagem bíblica. Estou simplesmente dizendo que a Bíblia possui linguagens mais profundas que a mensagem literal. Existem mensagens simbólicas na Bíblia que somente alguns poucos a compreenderam ao longo de toda a história. E tais conhecimentos sempre foram mal-compreendidos pelas multidões, por isso que tais grupos esotéricos sempre foram pouco numerosos: Maçonaria, Rosa-Cruz, Martinismo e entre outras sociedade de iniciados. Convém dizer que no judaísmo também temos uma contraparte esotérica que é a Cabala, e no Islã temos a parte esotérica chamada de sufismo. Quero deixar claro aqui que procuro enaltecer a mensagem da Bíblia e lançar luz sobre uma nova forma de observar o texto sagrado.

A missão de Hermes, o mensageiro dos deuses e deus da palavra era a de decifrar as mensagens do Olimpo, desvendava os mistérios e entregava aos homens os segredos dos oráculos[5]. A missão do esotérico também é a de desvendar os segredos e entregar aos que estão aptos a entender.

A prática esotérica da Maçonaria tem como norma o sábio silêncio. O sigilo na contemporaneidade se faz imensamente necessário. Porque a infantilidade da maior parte das pessoas ainda está presente hoje como esteve presente em outras eras. Nem todos estão prontos para te compreender, por isso, a necessidade do esoterismo. Ser esotérico é entender que há níveis de compreensão diferentes de uma mesma religião. Ser esotérico é procurar contemplar a realidade sem as suas máscaras.

Dadas estes esclarecimentos convém voltar ao Caibalion. O autor do Caibalion foi influenciado pelas palavras do apóstolo Paulo que em Hebreus capítulo 5:13-14, explicita:

De fato, aquele que ainda se amamenta não pode degustar a doutrina da justiça, pois é uma criancinha! Os adultos, porém, que pelo hábito possuem o senso moral exercitado para discernir o bem e o mal, recebem o alimento sólido.”[6]

Atentemos para o ato de reservar a carne para os homens adultos, enquanto as crianças recebem leite. Vemos aqui uma clara explicação do principal motivo para se manter o segredo. Todos os demais motivos são derivados deste motivo principal, tal como os galhos de uma árvore nascem do seu tronco, os motivos secundários nascem do motivo primário.

Por qual razão não se pode dar carne para crianças? Porque a carne não seria digerida bem pelo organismo de uma criança que não está ainda completamente desenvolvido. A criança necessita do leite e não da carne. A carne seria rechaçada pela criança recém-nascida porque possui um organismo imaturo. O leite seria então o item alimentício ideal para a sustentação da criança. Por outro lado, o adulto que possui um organismo amadurecido, necessita da carne para a sustentação do seu corpo. O adulto possui dentes para mastigar, ou seja, possui capacidade de compreensão mais aprofundada.

Há pessoas que são como crianças, não estão aptas para receber ensinamentos místicos e rechaçariam o conhecimento maçônico caso o conhecessem. Tal como o organismo de uma criança não processaria bem a carne, uma pessoa inapta não processaria bem o conhecimento esotérico. Já outras pessoas são como adultos, e são capazes de compreender as orientações profundas que revelam perenes verdades. Porque o corpo adulto processa bem a carne que lhes chega ao paladar, por isso, são aptas para processarem o conhecimento esotérico e filosófico contidos em alguns círculos.

Para aqueles que acreditam que tudo que é verdadeiro deve ser revelado para todos, analisemos que jamais falamos para crianças sobre namoro, apenas quando estes crescem e tornam-se adolescentes ou adultos é que passamos a conversar sobre atos afetivos e libidinosos com a devida maturidade.

Observemos também que cuidar e proteger uma criança é saber o momento adequado para lhes ensinar determinadas coisas. Porque cada ensinamento é recebido pelo nível de compreensão adequado. Uma criança que é repreendida pelos pais somente compreenderá que a repreensão foi um ato de amor quando crescer. Porque compreende o quanto aquela repreensão a fez avançar. Porém, enquanto é ainda criança verá aquele ato não como algo carinhoso, mas como uma atitude cruel. Compreendemos as atitudes carinhosas dos nossos pais apenas quando crescemos. O esotérico é aquela criança que cresceu, se tornou adulto e compreendeu.

Ensinamentos esotéricos de Jesus

O próprio Jesus Cristo possuía conhecimentos secretos que não eram revelados à maior parte das pessoas. As orientações de Cristo possuíam dois níveis, um para os profanos e outro para os iniciados. E podemos ver isto em alguns ensinamentos dos Evangelhos. O mais conhecido é a mensagem que adverte para não dar o que é sagrado aos cães e nem atirar pérolas aos porcos[7]. Existe aí, um alerta do perigo que é descumprir a sua prudente orientação: quando atiramos pérolas aos porcos podemos ser vítimas de pessoas imaturas que nos atacarão por pura falta de entendimento. Aquilo que não compreendido é muitas vezes entendido como afronta pelos profanos.

Aqui temos a comparação de algumas pessoas com animais que não possuem discernimento para assimilar conteúdos simbólicos e intensos. Ao ler a Bíblia percebemos que há uma leitura simbólica que é muito mais significativa que a leitura literal. Entre Esaú e Jacó, entre o Faraó e Moisés vemos a alusão a duas formas de comportamento, assim como as tentações de Jesus quando lidas atentamente revelam como vencer o próprio ego para alcançar o Eu-Crístico, ou, o Cristo que vive em mim. Várias narrativas bíblicas que ficam muito mais ricas quando compreendemos a sua mensagem simbólica. Mensagem que somente era compreendida por um pequeno círculo de iniciados.

Na Bíblia notamos que Jesus mantinha um pequeno círculo de iniciados. Onde está isso? Vejamos o contexto do que está escrito em Lucas capítulo 22:

“Jesus então enviou Pedro e João, dizendo: “Ide preparar-nos a páscoa para comermos”. Perguntaram-lhe: “Onde queres que a preparemos?” Respondeu-lhes: “Logo que entrardes na cidade, encontrareis um homem levando uma bilha de água. Segue-o até a casa em que ele entrar. Direis ao dono da casa: ‘O Mestre te pergunta: onde está a sala em que comerei a páscoa com os meus discípulos?’ E ele vos mostrará, no andar superior, uma grande sala, provida de almofadas; preparai ali”. Eles foram, acharam tudo como dissera Jesus, e prepararam a páscoa.”[8]

Vemos aqui que Jesus enviou seus dois discípulos a um lugar secreto, onde nem mesmo o próprio Jesus sabia onde se localizava, mas conhecia os sinais e senhas para identificar o local. O sinal era um homem carregando um cântaro (ou bilha em algumas traduções) de água, que deveria ser seguido. Ao chegar no local, uma senha que deveria ser falada pelos dois discípulos. O porquê do local ser secreto é óbvio visto que poderia haver pessoas com a intenção de prender, matar ou causar danos a Jesus e seus seguidores.

Outro trecho da Bíblia que denota mais uma vez que Jesus mantinha um grupo esotérico é em Mateus 13:11, que diz: “Porque a vós é dado compreender os mistérios do Reino dos céus, mas a eles não.” Fica claramente perceptível aqui que haviam duas mensagens sendo passadas por Jesus Cristo, uma mensagem dirigida ao povo, por isso, exotérica, e outra mensagem dirigida aos seus mais fiéis seguidores, por isso uma mensagem esotérica. A estes seguidores são dadas as chaves para conhecer os “mistérios do Reino dos céus”.

E no versículo 13 ao 16, Jesus também explica o motivo de falar em parábolas[9]:

“Eis por que lhes falo em parábolas: para que, vendo, não vejam e, ouvindo, não ouçam nem compreendam. Assim se cumpre para eles o que foi dito pelo profeta Isaías: Ouvireis com vossos ouvidos e não entendereis, olhareis com vossos olhos e não vereis, porque o coração deste povo se endureceu: taparam os seus ouvidos e fecharam os seus olhos, para que seus olhos não vejam e seus ouvidos não ouçam, nem seu coração compreenda para que não se convertam e eu os sare (Is 6,9s). Mas, quanto a vós, bem-aventurados os vossos olhos, porque veem! Ditosos os vossos ouvidos, porque ouvem!”[10]

Temos aqui mais uma alusão à ideia de que há palavras que não são compreendidas pelas “crianças”, mas sim pelos “adultos”. Percebemos também que “ver” e “ouvir” não se trata de uma dependência dos órgãos sensitivos, mas de um preparo interior que possibilita a pessoa a “ouvir” e a “ver”.

E para destacar ainda mais a visão de que Jesus mantinha um grupo esotérico consideremos também Marcos, capítulo 4, versículos 33 e 34: Anunciava-lhes a Palavra por meio de muitas parábolas como essas, conforme podiam entender; e nada lhes falava a não ser em parábolas. Aos seus discípulos, porém, explicava tudo em particular.”[11]

Vemos aqui a distinção entre profanos e iniciados. Para os primeiros, Jesus falava em parábolas e para os segundos eram revelados os mistérios do reino de Deus, ditos “em particular”, ou seja, ditos fora do alcance das multidões.

Humildade, Sabedoria e Amar a Verdade

A diferença entre um iniciado e um profano não se deve ao conhecimento, mas sim a simplicidade da sabedoria. Destacamos haver dois níveis na mensagem cristã relatada pelos Evangelhos: uma direcionada para o povo em geral e outra para alguns iniciados. O iniciado ama a Verdade. A ideia de que há pessoas que buscam a Verdade, que amam a Verdade e a estas são dadas as chaves para adentrar ao Reino dos Céus.

Entretanto, há pessoas que não amam a Verdade, apegam-se às suas mentiras por mil motivos e estes tapam os seus ouvidos e fecham os seus olhos, e assim, o coração não compreende. Percebemos aqui que o verdadeiro sábio é antes de tudo aquele que ama a Verdade e amar a Verdade é uma atitude do coração, é uma predisposição que a pessoa possui. Ou seja, amar a Verdade e conhecer os ensinamentos esotéricos depende muito mais de uma postura, de um comportamento mediante o mundo, e não de conhecimentos adquiridos. Lembremos que dentre os apóstolos haviam iletrados e letrados. Pertencer a círculos esotéricos não é uma questão de conhecimento, mas de “postura”, “comportamento de amar a Verdade”.

Portanto, não deve existir espaço para a arrogância, uma vez que a abertura para a compreensão não depende daquilo que a pessoa adquire, mas do comportamento que ela possui. E comportamento é algo que pode ser modificado a qualquer momento.

Destaco que a arrogância é sempre inimiga do conhecimento, pois, o arrogante observa tudo de forma unilateral, acredita que somente ele possui conhecimento, por isso, estaciona em aprendizado, porque a arrogância o impede de perceber os outros e aprender com os outros. Não há arrogante que seja sábio. O sábio é sempre humilde e o verdadeiro maçom sempre busca a sabedoria. O sábio guarda seus segredos na intenção de guardar ensinamentos que farão diferença para os sublimes iniciados da humanidade. O arrogante esconde o conhecimento dos que amam a Verdade e são capazes. O sábio quando vê alguém capaz logo o inicia em seus ensinamentos.

Podemos nos perguntar: quem não ama a verdade? E a resposta vem de forma muito simples. A maior parte da humanidade não ama a verdade. A maior parte da humanidade não almeja o conhecimento. A humanidade em sua maioria busca como algo sagrado enaltecer o seu ego, busca o dinheiro, busca o prestígio social, busca atos libidinosos. Buscar dinheiro e buscar satisfazer a libido não são atitudes ruins. De alguma maneira dinheiro é sobrevivência, e a libido nos torna mais humanos, podendo até mesmo ser um degrau para a evolução pessoal dos esotéricos. O problema está quando colocamos o dinheiro e a libido como fins únicos e totais da nossa existência. Nada é completamente ruim ou bom, ruim ou bom são os usos que fazemos do dinheiro e das atitudes libidinosas.

A paz já se encontra dentro de você. Deus já está dentro de você. Quando reconhecemos isso, tudo fica tranquilo, as buscas cessam, porque nada nos falta. Quando reconhecemos que o Reino já está em nosso interior, nada nos falta. Podemos ter demandas exteriores, o mundo material denota isso, entretanto, as demandas interiores cessam completamente. Por isso que em Lucas está escrito que “O Reino de Deus está em vós.”[12] Possuímos uma centelha divina habitando em nós. Reconheça que Deus está no outro e reconheça que Deus está em você.

 

 

Referência

BÍBLIA – Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002

O Caibalion: Estudo da Filosofia Hermética do Antigo Egito e da Grécia/Três Iniciados; tradução Rosabis Camaysar.  São Paulo: Editora Pensamento, 2021.

GALVÃO, José Raimundo. Linhas Cruzadas. São Cristóvão: Editora UFS, 2010.

Referência Virtual

Porto Editora – esoterismo na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2024-04-28 13:11:24]. Disponível em https://www.infopedia.pt/$esoterismo

[1]Nascido em Aracaju, professor de História, membro da Loja Estrela de Davi e amante dos estudos sobre religiosidades e mitologia.

[2] O Caibalion: Estudo da Filosofia Hermética do Antigo Egito e da Grécia/Três Iniciados; tradução Rosabis Camaysar.  São Paulo: Editora Pensamento, 2021.

[3] Ibidem, p. 2.

[4]Porto Editora – esoterismo na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2024-04-28 13:11:24]. Disponível em https://www.infopedia.pt/$esoterismo

[5] GALVÃO, José Raimundo. Linhas Cruzadas. São Cristóvão: Editora UFS, 2010.

[6] BÍBLIA – Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

[7] Ibidem. Mateus 6:7.

[8] Ibidem.

[9] Ibidem.

[10] Ibidem.

[11] Ibidem.

[12] BÍBLIA – Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002

 

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