sexta-feira, 12/08/2022
Poesia
Poeta amazonense Thiago de Mello Foto: Portal Cultura Amazonas

Faz escuro no Brasil e no mundo, mas cantaremos

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literatura
Germano Viana Xavier (*)

Vozes fundamentais para a manutenção da vida são silenciadas a todo instante. Por vezes, a morte chega lenta, marota, tira o batimento dos corações e dos pulsos de um punhado de homens e mulheres que lançam ou lançaram luz sobre o mundo. Outras vezes, é o próprio homem que se adianta e se expressa com brutalismos e desgovernanças e violentas violências. No fim de tudo, é a vida quem termina sendo derrotada, esmagada, esganiçada, deturpada, estuprada, abafada… Daí que a rudeza da revolta precisa também vigorar, para que o canto pela existência insista em brotar de nossas bocas e mãos e abraços.

Quando eu soube do falecimento do poeta amazonense Thiago de Mello, no início de 2022, fui buscar seu livro “Faz escuro mas eu canto” em revisitação, certamente a sua obra-prima. O Amazonas nos deu o poeta Thiago de Mello e tal gesto não foi aleatório. Se há um lugar no Brasil, no continente e no mundo que carece de vozes de luta, poéticas ou não, este lugar é a região amazônica. Berço de todos os silêncios inaugurais e de todas as formas vitais, o Amazonas e a Amazônia necessitam com urgência de quem não silencie as suas dores e os seus golpes sofridos ano após ano, dia após dia.

A poesia presente em “Faz escuro mas eu canto” é aberta aos anseios da população brasileira, mesmo das gentes que mais se distanciam da região natural ao poeta. Em tempos tão sombrios como os de agora, nada mais útil e necessário do que beber da fonte de palavras e versos que nos inspiram coragem e luta. Se faz escuro, mas se cantamos, se não calamos, se não cessamos de erguer a voz e o braço, a manhã chega, a manhã chegará. Pode até tardar, mas chega, chegará.

É tempo de esperança, ainda é tempo de esperança. É tempo de buscar a vida verdadeira dentro de estatutos do Homem que não os impeçam de seguir adiante. É preciso cantar cantos de companhia em Tempos de Cuidados, elaborar toadas de ternura, criar palavras de alegria no corpo e na alma, insistir no pão nosso de cada dia, cantar a música que clareia, o fonema que é raiz, desinventar o amargo das coisas todas, ser o próprio sereno a serenar.

É preciso trabalhar

todos os dias

pela alegria geral.

É preciso aprender

esta lição todos os dias

e sair pelas ruas

cantando e repartindo

a esperança,

a mão cristalina,

a fronte fraternal.

 

Thiago de Mello.

__________

(*) Germano Xavier nasceu em Iraquara, Chapada Diamantina-Bahia, em 1984. É jornalista pela UNEB e mestre em Letras pela UPE. Publicou o livro Clube de Carteado (Franciscana, 2006). Seu livro de contos intitulado Sombras Adentro (ainda não publicado) foi finalista do IV Prêmio Pernambuco de Literatura (2016). Em 2021, publicou o livro O Homem Encurralado (Penalux); e em 2022 , Esplanada do Tempo, que compreende a segunda parte da Trilogia do Centauro. Escreve para encontrar o equador de todas as coisas.
** Esse texto é de responsabilidade exclusiva do autor.  Não reflete, necessariamente, a opinião do Só Sergipe.
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