Por Antônio Carlos Garcia (*)
Profissionais brasileiros de tecnologia da informação, especialmente os mais experientes, estão sendo cada vez mais atraídos por empresas estrangeiras e passando a trabalhar para o exterior sem sair do país. O movimento, impulsionado por salários mais altos, trabalho remoto e oportunidades globais, tem provocado uma crescente exportação de talentos.
Dados de plataformas de mercado de trabalho, como a Glassdoor, indicam a forte disparidade salarial entre o Brasil e o exterior. Enquanto profissionais seniores de tecnologia no país recebem, em média, entre R$ 12 mil e R$ 18 mil mensais, posições semelhantes em empresas internacionais podem ultrapassar US$ 150 mil por ano (por mês US$ 12,5), o que hoje corresponde a R$ 61.950,00 — especialmente em polos como os Estados Unidos.
Levantamento da Deel reforça essa tendência ao apontar crescimento de 53% na contratação de brasileiros por empresas estrangeiras em 2024, com destaque para a área de tecnologia.
Carreira global
Um exemplo desse cenário é a sergipana Lanay Marques, que mora em Aracaju e trabalha remotamente para a empresa alemã OllyGarden, especializada em observabilidade de sistemas. Aos 31 anos, ela construiu uma trajetória que reflete esse novo cenário globalizado da tecnologia. Natural de Aracaju, ela iniciou a carreira no mercado local, mas rapidamente percebeu as limitações da região para profissionais da área. A virada veio durante a pandemia, quando passou a atuar remotamente para empresas de outros estados, ampliando sua rede de contatos e experiência.
O salto internacional, no entanto, exigiu preparação. Lanay chegou a perder uma primeira oportunidade no exterior por não dominar o inglês. A partir disso, intensificou os estudos no idioma, o que se mostrou decisivo. “Esse é um dos pontos principais para trabalhar fora. Você precisa conseguir se comunicar bem”, afirma.
A oportunidade definitiva surgiu a partir de um encontro presencial em Aracaju, onde conheceu o empresário paulista Juraci Paixão Kröhling. Anos depois, já estabelecido na Europa e à frente da própria empresa, ele lembrou de Lanay ao abrir uma vaga.
Hoje, mesmo trabalhando para uma empresa com sede na Alemanha e equipe distribuída por vários países, ela segue morando em Aracaju e atuando de forma totalmente remota. “A diferença é de cinco horas. Quando aqui é meio-dia, lá já é fim de tarde. Isso impacta bastante a dinâmica de trabalho”, explica.
Na empresa, atua em DevOps e SRE (Site Reliability Engineering), em um ambiente multicultural onde o inglês é a língua principal. Apesar do ganho financeiro, ela pondera que a decisão envolve outros fatores. “Vale muito a pena financeiramente, mas existem questões como o tipo de contrato, a variação do dólar e a adaptação ao modelo internacional de trabalho”, diz.
A experiência também ampliou sua visão de mundo. Nos últimos meses, visitou países como Portugal, Holanda, Alemanha e Itália — algo que mudou sua perspectiva sobre carreira e qualidade de vida.
Empresas globais de olho no Brasil
A conexão entre Lanay e a OllyGarden passa diretamente pela trajetória do empresário Juraci Paixão Kröhling, CEO da empresa. Ele deixou o Brasil em 2008, passou pela República Tcheca e, desde 2011, vive na Alemanha, onde fundou a OllyGarden em 2022, focada em monitoramento e qualidade de sistemas.

A empresa opera de forma totalmente remota, com profissionais espalhados por países como Brasil, Argentina, Itália, Suíça e Alemanha. Mesmo assim, mantém encontros presenciais periódicos na Europa. Segundo Juraci, a migração de profissionais brasileiros é motivada por um conjunto de fatores. “Não é só salário. Qualidade de vida, segurança e estrutura social pesam muito na decisão”, afirma.
O impacto no Brasil já é perceptível. O CEO da Koud, empresa especializada em alocação e recrutamento de profissionais de tecnologia, Frederico Sieck, aponta que há escassez de profissionais seniores, enquanto iniciantes enfrentam dificuldade para ingressar no mercado. Empresas estrangeiras, por outro lado, veem o Brasil como fonte estratégica de talentos qualificados com custo competitivo, intensificando a disputa global por profissionais.
Do Recife para o Vale do Silício
A trajetória do engenheiro de software Bruno Quaresma, de 34 anos, reforça essa realidade. Ele mora em Recife e trabalha para a empresa americana Adapt, sediada em São Francisco, na Califórnia. Com cerca de oito anos de experiência em empresas estrangeiras, ele afirma que o principal atrativo inicial foi a remuneração.

“Quando comecei, mesmo com o dólar mais baixo, já ganhava o dobro do que recebia no Brasil”, relata. Hoje, atuando como engenheiro full stack com foco em front-end, ele explica que o mercado internacional é dividido entre empresas que buscam mão de obra mais barata e aquelas que oferecem condições equivalentes às praticadas nos Estados Unidos.
“As melhores oportunidades exigem mais. Você compete com talentos do mundo inteiro. O inglês e a comunicação fazem muita diferença”, afirma. Segundo Bruno, profissionais seniores podem receber entre US$ 120 mil e US$ 170 mil por ano, podendo ultrapassar US$ 200 mil em regiões como a Califórnia.
Ele também destaca benefícios como viagens internacionais pagas pela empresa — já esteve nos Estados Unidos diversas vezes a trabalho — e a flexibilidade da rotina.
Por outro lado, alerta para a disciplina exigida no trabalho remoto. “Um erro comum é não dar visibilidade do que está fazendo. É importante mostrar ao time o que está sendo produzido”, diz. Bruno reforça ainda que empresas estrangeiras tendem a priorizar profissionais mais experientes. “Elas buscam seniores porque já têm autonomia. Para júnior, é mais difícil conseguir vaga remota internacional”, explica.
Novos caminhos

Outro profissional que vivenciou esse movimento foi Victor Yuri Oliveira da Silva, de 27 anos. Ele trabalha com tecnologia desde os 16 e já recebeu propostas internacionais para atuar como engenheiro de plataforma, com salários entre US$ 7 mil e US$ 8 mil mensais. As abordagens vieram de empresas do Canadá, Estados Unidos e Irlanda, principalmente via LinkedIn.
Apesar disso, decidiu permanecer no Brasil naquele momento, principalmente por não se sentir seguro com o inglês. Hoje, com maior domínio do idioma, afirma que avaliaria novas propostas, embora esteja mais focado no empreendedorismo. Victor explica que o interesse internacional está ligado à combinação de alta qualificação e custo competitivo.
Um profissional que ganha cerca de R$ 15 mil no Brasil pode receber propostas entre US$ 4 mil e US$ 5 mil mensais — vantajoso para empresas e trabalhadores. Atualmente, ele mantém atuação remota, possui escritório em Alphaville (SP) e lidera projetos próprios ligados à tecnologia e inteligência artificial.
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