sexta-feira, 04/09/2026
Aglaé Fontes
Aglaé Fontes, a grande homenageada Foto: Ascom/Funcap

Escutar, planejar e agir: O Museu da Gente Sergipana e a celebração da memória

Compartilhe:

 

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Há uma discussão sobre homenagens que vale a pena sempre revisitarmos: se elas devem ser feitas em vida ou não. Eu, particularmente, entendo que ambas são importantes e bem-vindas. É bem verdade que as que são feitas em vida são mais emocionantes e, em geral, fazem justiça à memória de pessoas em tempo, sem deixar que o esquecimento tome seu lugar. Entretanto, as homenagens póstumas também têm seu significado, sobretudo, para os familiares. Fato é que elas não devem deixar de ser feitas, não no afã de massagear o ego de um ou de outro, mas de dizer um muito obrigado a quem tanto nos fez bem em vida ou não.

Jogral com Tereza Cristina, Lindolfo Amaral e Angélica recordando, no jogral, momentos da trajetória de Aglaé Fontes

Mais na frente, retomarei esse ponto. Antes, até porque uma coisa tem a ver com a outra, gostaria de fazer registro de um evento que ocorreu no último dia 4 de novembro deste ano, nas dependências do Museu da Gente Sergipana (MGS). Trata-se de uma escuta pública com vistas à atualização do seu Plano Museológico, previsto para o quinquênio 2025-2030. Depois de uma etapa de escuta ao nível das redes sociais e outros expedientes para ouvir a sociedade e seus visitantes (recorde batido de um milhão deles esta semana), a instituição convidou e reuniu alguns especialistas, estudiosos e entusiastas da história e da cultura sergipanas na modalidade presencial, dividindo-os em quatro Grupos de Trabalho, a saber: GT 1 – Penduricalhos da Gente Sergipana; GT 2 –  Educação e Museu: Um espaço de fomento a identidade sergipana; GT 3 – O lugar da tecnologia para a interação com a gente sergipana; e GT 4 – Acessibilidade e Museu: Pensando a acessibilidade para expandirmos a inclusão.

A professora Karla Jamylle Souza Santos, supervisora do Museu da Gente Sergipana, ficou responsável de conduzir todo o processo, não somente de fazer as vezes de cerimonialista, mas também de organização das falas.  Na parte da manhã, uma espécie de “esquenta tamborins”, com uma apresentação síntese de cada GT e de seus propósitos e motes discursivos, momento este precedido de uma fala de boas-vindas do superintendente do Instituto Banese e diretor do museu, Ezio Déda, que fez, também, um breve relato do histórico do lugar; e de uma palestra proferida pela museóloga Heyse Souza de Oliveira, com o tema “Introdução ao conceito de plano museológico, sua importância e principais componentes”.

Museu da Gente Sergipana
Público foi prestigiar Aglaé Fontes   Foto: Ascom/Funcap

 

À tarde, deu-se a escuta propriamente dita. O GT 1 foi coordenado por mim e pela professora Aglaé d´Ávila, que debatemos sobre a escolha e a inserção de elementos simbólicos dos 75 municípios sergipanos e que estão representados no hall de entrada do Museu da Gente. O GT 2 ficou sob a responsabilidade do Prof. Osvaldo Ferreira Neto e da Profa. Dra. Verônica Maria Meneses Nunes, que ficaram responsáveis por refletir sobre a composição da exposição “Nossos Cabras” e fatos culturais, sociais, ambientais e históricos de relevância para o Estado, na perspectiva de atualizar a “Renda do Tempo” na exposição “Midiateca”. O GT 3 procurou discutir métodos para a utilização dos recursos multimídias como dispositivos para explorar de maneira mais ampla os discursos presentes nas exposições, além de atuarem como dispositivos pedagógicos para o ensino-aprendizagem da cultura sergipana, tudo isso sob a competente e dinâmica coordenação das professoras Janaína Cardoso de Mello e Priscila Maria de Jesus. Por fim, coordenados por Cristina de Almeida Valença Cunha Barroso e Germana Gonçalves de Araújo, o GT 4 apontou e vislumbou possíveis melhorias no acesso à informação, à orientação espacial dos visitantes e à estrutura predial, no que diz respeito à acessibilidade.

Em linhas gerais, os caminhos apontados para o Museu da Gente Sergipana são alvissareiros. É bem verdade que boa parte deles dependerá, por exemplo, de dotação orçamentária. São ideias que agregarão ainda mais valor a um dos mais representativos lugares de memória do Estado. Ele existe desde 26 de novembro de 2011, que hoje, também leva o nome do saudoso governador Marcelo Déda (1960-2013). Vale aqui, destacar o papel dos estagiários e demais componentes do MSG, que colaboraram para que tudo acontecesse a contento: Romero Crispim, Carlos Weniso Fonseca Viana (supervisores), Analice Silva Araújo Moura, Leonardo Teles de Matos Santos, Jenyfer Elizabeth França, Sofia de Jesus Carvalho e Sabrina Pereira de Jesus (estagiários). Afora, Karla Jamylle Souza Santos, a quem me referi antes.

Bel, filha de Aglaé Fontes
Bel, filha, ao lado da escultura de Aglaé Fontes

“Apois”, voltemos à questão das homenagens. Naquele mesmo dia 4 de novembro, véspera do Dia Nacional da Cultura, no final da tarde, após os trabalhos da escuta pública, também nas dependências do museu, pude testemunhar uma das mais belas, criativas e justas homenagens a um de nossos mais importantes nomes no campo cultural de Sergipe: professora Aglaé d´Ávila Fontes. Tudo feito às escondidas, em parceria com amigos e colegas do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, para que o elemento surpresa fosse a tônica de toda a solenidade, que contou com exibição de trechos de um documentário sobre ela, produzido por Patrícia Cerqueira, apresentação de jogral (com Tereza Cristina, Lindolfo Amaral e Angélica), grupo folclórico, cantoria, com participação de familiares, tendo como corolário o descerramento de placa e de sua escultura no pátio do museu à frente da sala de exposição “Mamulengo de Cheiroso: a magia do teatro de bonecos”.

Entre os presentes à homenagem, inúmeras personalidades, autoridades e agentes culturais sergipanos, a exemplo de Beatriz Góis Dantas, Terezinha Alves de Oliva, Pascoal Maynard, Dr. José Anderson Nascimento e Dr. Paulo Andrade Prata, presidente da Academia Lagartense de Letras. Todos muito felizes e emocionados, rendendo graças a ela que ficou visível e sensivelmente muito emocionada. Tudo isso, seja no que se refere à escuta pública, seja ao momento sublime de reconhecimento à Aglaé, sob a batuta do arquiteto Ezio Déda, com o distinto esmero, carinho e cuidado que lhes são peculiares na lida com tudo que ele se prontifica a fazer e fazer muito bem feito.

 

Compartilhe:

Sobre Claudefranklin Monteiro

Claudefranklin Monteiro Santos
Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

Leia Também

Capa do livro "Ele, descrito por eles"

Ele, João Alves Filho, descrito por eles

  Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)   Em novembro de 2020, pelo jornal Correio …

WhatsApp chat