Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)
Em 2021, a convite dos professores Dilton Cândido Santos Maynard e Vivian Cruz Monteiro, escrevi um capítulo para o livro por eles organizado, “Lugares, personagens e outras coisas de Sergipe”. No texto “Forró Caju (festa)”, às páginas 102 e 103, para além de uma explicação semântica do termo, pude me aprofundar em sua trajetória histórica, cujo pontapé se deu no ano de 1993. Iniciado de forma módica, o evento ganhou proporções gigantes e, a partir do ano 2000, se consolidou na região dos mercados da cidade de Aracaju com um grande espetáculo.
Minha primeira vez no “Forró Caju” aconteceu no último dia 26 de junho. Por incrível que pareça, mesmo conhecendo a festa em sua teoria e residindo em Sergipe, nunca havia vivido a experiência de estar nos espaços reservados e cuidadosamente preparados para os amantes da cultura nordestina. Na oportunidade, fomos (eu e minha esposa, a professora Patrícia Monteiro) gentilmente e carinhosamente acolhidos pelo casal Paulo Corrêa e Kaline Elizabete. Foi uma noite agradabilíssima, na qual pudemos viver momentos significativos e marcantes de diversão, identidade, sociabilidades e pertença.
Paulo Corrêa Sobrinho é natural de Lagarto, filho do carismático comerciante e político José Corrêa Sobrinho (falecido em 2015) e que foi casado por 63 anos com a senhora Orlette. Paulo é jornalista, produtor cultural, pesquisador da música popular brasileira e da música nordestina. Dono de um carisma todo singular, construiu ao longo dos anos uma biografia digna de reconhecimento e de aplausos, à frente da idealização de projetos importantes, tais como “Marinete do Forró” e “Fórum de Forró de Aracaju” (até a presente data, com dezenove edições), afora o Programa “Nação Nordestina”, que vai ao ar pela Rádio Aperipê FM, 106.1, nas manhãs de domingo, das 08h às 10h.
Paulo Corrêa é secretário municipal de Cultura de Aracaju há cerca de um ano, na gestão de sua irmã, a prefeita Emília Corrêa, e tem feito um hercúleo trabalho à frente da pasta, criada em maio de 2025. Esta foi a primeira vez que ele esteve presente no processo de montagem e discussão do Forró Caju, segundo ele, iniciado com a realização do “Fórum de Forró de Aracaju”, que teve como tema “Cancioneiro da Resistência”. Na oportunidade, prestou-se homenagem aos cantores e compositores Flávio José e Sergival.
Para Paulo Corrêa, foi um grande desafio realizar mais uma edição do Forró Caju. Embora saibamos que não é só a Secretaria Municipal de Cultura que toma todas as decisões, ele lutou e não abriu mão para que o evento pudesse seguir dando valor à cultura nordestina e aos talentos de nossa terra. Nesse sentido, além das atrações nacionais de grande apelo popular, um enorme diferencial da festa, além de sua descentralização (levando a festa para alguns bairros da capital), certamente, foi o “Barracão Clemilda”. Por ali passaram e se apresentaram no palco “Gerson Filho”, inúmeros artistas locais e também de outras partes do país, ao som do forró pé de serra.

O “Barracão Clemilda” (em homenagem à cantora sergipana de forró), localizado na conhecida “Passarela das Flores”, nos Mercados Centrais de Aracaju, é um lugar para antropólogos, sociólogos e historiadores se deliciarem, graças aos diversos tipos humanos que por ali passam e frequentam o espaço para dançar e se divertir. Realmente, um espaço democrático, onde ricos e pobres, gêneros, etnias e condições sociais diversas se reúnem para celebrar os Santos Juninos.
Como lagartense, amante da cultura e entusiasta da história musical do Nordeste, Paulo Corrêa agregou à festa seu entusiasmo e sua conhecida dedicação pelo assunto. Aliás, isso é típico de nós, os lagartenses: emprestar mais viço e vida a tudo a que nos prontificamos a fazer ou pelo que somos demandados. E quando o assunto é cultura, então. O mesmo não podemos dizer, infelizmente, do nosso tradicional “Festival da Mandioca” deste ano, prejudicado pelas querelas político-partidárias locais e, também por uma certa falta de planejamento e organização, coisas das quais Aracaju dá aula e show.

E por falar em show, não poderia encerrar este texto sem mencionar a apresentação do cantor potiguar, Dorgival Dantas naquela noite. Que encanto! Que exemplo de simplicidade e talento juntos. Tive o privilegiado de fazer um registro fotográfico com ele e, também, de trocar algumas ideias. Uma figura singular, que respira a cultura nordestina e nos presenteia com sua genialidade, seja no canto, seja na performance no palco, como também pelo nível (alto nível) de suas canções, que deram a ele a merecida alcunha de “poeta”.
Que venham outras edições do “Forró Caju”. No Estado que é considerado o país do forró (assim batizado e sacramentado pelo saudoso cantor sergipano Rogério, 1957-2014), sua capital não poderia ser diferente. Para além do “Arraiá do Povo” (orla de Atalaia, promovido pelo Governo de Sergipe), o tradicional evento aracajuano se apresenta como a joia de nossas festas juninas, mantendo vivo, seja pela resistência, seja pela resiliência, o melhor do talento de nosso povo.
Só Sergipe Notícias de Sergipe levadas a sério.


