sábado, 07/11/2026
Conversa
Entre cafés e confidências, uma mulher revela o preço de escolher a própria paz

Sobreviver também é um ato de reconstrução

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Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Marcamos de nos encontrar quando eu chegasse em Lisboa. Ela me enviou mensagem de Braga, onde mora, se desculpando. Teve um imprevisto.

Pediu para nos encontrarmos no Porto. “Ok”, respondi.

Assim que cheguei ao Porto — ainda acomodando a bagagem no quarto do hotel —, ela enviou mensagem, perguntando se, no final da tarde, poderíamos tomar um café.

Nos encontramos no Café Passaporte, perto de onde estou hospedado.

Cheguei primeiro; não demorou, e ela chegou.

Cabelos alinhados, onde sobressaíam alguns fios brancos. Calça caqui, blusa de seda azul-royal, scarpin marrom. Lenço Hermes no pescoço. Elegante; chic casual, levemente perfumada.

Levantei-me para cumprimentá-la. Ela se acomodou na cadeira em frente à minha.

Ângela saiu do Brasil, após divórcio tumultuado. Fora casada por vinte e oito anos. Não teve filhos.

Enfermeira, optou por vir morar em Portugal. Chegou com a cara e a coragem, mas logo se ambientou e conseguiu emprego.

Morou em Lisboa, Coimbra e agora reside em Braga. Hoje trabalha em UTI. Refez a vida. Namorou um português. Está só.

Me conta ter aprendido a cuidar de si. Não por vaidade, disciplina ou uma versão bonita da vida, mas por sobrevivência. Não quer ficar à deriva outra vez. Não tem mais idade para se abandonar.

Peço dois cafés com pastéis de nata e uma francesinha.

Me conta que gosta das pequenas escolhas que ninguém vê: alimentar melhor o corpo, movimentá-lo, descansar quando ele pede socorro, respeitar o seu tempo. Silenciar quando o mundo exige respostas e, principalmente, se permitir viver sem pedir licença a ninguém.

Pergunto se não tem saudades do Brasil, de Curitiba, onde a conheci, ainda casada com Armando.

“Não sou saudosista, gosto do agora. A vida aqui é bem mais leve. O Brasil me deixava depressiva.”

Sorri de soslaio quando fala do preço que pagou por mudar abruptamente.

“Porque eu sei o preço de ignorar o que sinto. Sei o que acontece quando permaneço onde a alma vai se apagando aos poucos. Quando aceito o que me fere para não perder pessoas. Quando engulo desconfortos, atravesso meus próprios limites e finjo que está tudo bem, enquanto alguma coisa dentro de mim implora para ir embora”, diz.

E continua: “Hoje, não. Hoje eu presto atenção no que me atravessa. No que me acalma. No que me pesa. No que me devolve a mim. Não quero mais confundir amor com sacrifício, presença com obrigação, permanência com coragem. Há lugares dos quais a gente precisa sair antes que eles nos roubem por inteiro”.

Observo-a atentamente. Seus olhos graúdos e castanhos falam por ela.

“Por isso, escolho a paz — mesmo que ela venha acompanhada de ausências, silêncios e despedidas. Escolho  meu corpo. Meu tempo. Minha inteireza. Minha vida. E, se para continuar inteira eu precisar me afastar de tudo aquilo que me desorganiza por dentro, me afasto. Se precisar seguir, eu vou. Sem culpa”. Faz uma pausa para o café.

“Porque, depois de tanto tempo tentando sobreviver ao que me tirava a paz, finalmente entendi: eu não quero apenas existir. Eu quero estar viva dentro da minha própria vida”.

Diz suspirando: “O tempo não dá marcha a ré”.

aroma
O perfume ficou. Ela partiu

Que mulher forte é esta à minha frente, tomando um café calmamente! Admiro-a ainda mais.

Olha para o relógio e sabe que é hora de partir.

“Tenho que ir, o comboio para Braga sai em meia hora.”

Despedimo-nos. Fico com o doce aroma do seu perfume. Desapareceu entre os transeuntes da rua. Pedi mais um café.

 

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Sobre Luiz Thadeu Nunes

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Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br

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