sexta-feira, 09/10/2026
Cena do filme Ran
Partilha dos domínios, no início do filme, quando o velho senhor Hidetora reúne todos os seus vassalos e filhos no alto de uma colina branca, para anunciar que abdica do poder e divide seus três castelos entre os três filhos Fotos: FILMGRAB Divulgação

Ran Revisitado — Poema e paletas em movimento no cinema de Akira Kurosawa (Parte 2)

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Por  Léo Mittaraquis (*)

 

“Kurosawa é o cineasta das forças sensíveis: a cor é força que atrai ou repele, une ou separa, antes de qualquer enredo”

Gilles Deleuze

 

Na continuação e conclusão deste artiguete, proponho-me a abordar música e cor em “Ran”, de Akira Kurosawa. E por que me disponho a isso? Bem, estes dois elementos, ou, se quiser o leitor, dois fatores, estão intimamente relacionados com a concepção e a composição desta maravilhosa obra-prima cinematográfica.

Quanto à música, ou, melhor dizendo, à trilha, esta foi confiada (e a afirmação não é excessiva), à Tōru Takemitsu, considerado, entre os críticos especializados, como um dos mais importantes compositores japoneses do século 20.

Motivo? Bem, sua obra musical está entre as poucas que alcançaram êxito na proposta de dialogar, de igual para igual, com as ditas vanguardas ocidentais, e ainda manter uma estética solidamente apoiada nas tradições musicais do Japão.

Ran foi a segunda colaboração com Kurosawa. Já haviam trabalhado  juntos em Dodes’ka-den, em 1970, longa-metragem que se destacou por ter sido a primeira produção colorida da carreira do cineasta. E, pelo que sei, alguns anos antes das filmagens de “Ran” serem iniciadas, Takemitsu já estava conversando com Kurosawa sobre o projeto.

Kurosawa tinha plena ciência do talento e da competência do músico japonês. Por isso, pediu que Takemitsu compusesse uma partitura para grande orquestra. E ainda bem que o fez. Takemitsu, de inspiração mahleriana (Gustav Mahler), dotado de formação autodidata, nutrida por Debussy, Messiaen e Cage, respondeu com o que muitos consideram sua obra mais romântica e, ao mesmo tempo, mais profundamente enraizada no espírito japonês.

Quanto às cores, a opinião corrente, em meio aos cultuadores da Sétima Arte, é a de que Akira Kurosawa, mundialmente reconhecido por sua perícia visual, produziu um recorte rigoroso das Imagens em harmonia com o habilidoso manejo dramático das tintas.

Como, também, exímio pintor, Kurosawa enxergava a tela cinematográfica qual tela para pintura. Em “Ran”, acompanhar as cores e respectivas tonalidades utilizadas pelo diretor é essencial para compreender melhor a narrativa.

 

Taro, o filho primogênito, investido formalmente como senhor do Primeiro Castelo. Sentada: Lady Kaede, esposa de Taro, uma das personagens mais complexas e vingativas da narrativa

 

Kurosawa estabelece, já desde o início do filme, isto é, da abertura, o que considero uma ordem cromática rigorosa, heráldica — atribuindo, assim, a cada filho de Hidetora (o senhor feudal perturbado mentalmente), uma cor primária: Taro (o mais velho) Amarelo-Ouro;  Jiro (o do meio) Vermelho; Saburo (o mais novo) Azul.

As composições diretamente relacionadas às batalhas evocam tanto as pinturas de guerra japonesas quanto às telas e os estilos de, por exemplo, de acordo com minha percepção, Tiziano, Veronês e Delacroix. São os volumes de cor, os movimentos monumentais e trágicos. Nada em pequena escala, contudo, sempre leve, dinâmico, de uma crueldade sem hiperbolismo, tingida inteligentemente, em pontos certos, por tons fortes e suaves.

Enfim, para não exaurir a já pouquíssima paciência dos meus improváveis leitores, digo que, em “Ran”, as cores não são apenas beleza visual — são linguagem, são narrativas, são um discurso estruturado sobre o espiritual, o moral e o ético. A narrativa é sustentada por um cuidadoso roteiro cromático. E Kurosawa o elaborou, sem dúvidas, com rara mestria. Vale sempre a pena assistir e assistir e assistir…

 

 

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Sobre Leo Mittaraquis

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Léo Mittaraquis é graduado em Filosofia, crítico literário, mestre em Educação.

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