Projeto social no Santa Maria oferece aulas gratuitas de música, incentiva a formação de uma nova orquestra e abre novas perspectivas para crianças e adolescentes
Por Antônio Carlos Garcia (*)
Um projeto social no bairro Santa Maria, em Aracaju, está transformando o contato de crianças e adolescentes com a música em aprendizado, convivência e perspectiva de futuro. A iniciativa oferece aulas gratuitas de instrumentos e trabalha para formar uma nova orquestra, com alunos que já sonham em tocar em bandas, igrejas e até seguir carreira profissional.

Desenvolvido pela APE – Associação de Pastores e Evangélicos do bairro Santa Maria e Adjacências, o projeto recebeu R$ 80 mil em emenda parlamentar municipal. Os recursos foram utilizados na compra de instrumentos e nas demais despesas necessárias para a execução da iniciativa.
As aulas começaram em 2 de junho de 2026 e são realizadas duas vezes por semana na Igreja Assembleia de Deus Ministério Marivan, que cede o espaço gratuitamente. O responsável pela formação musical é o maestro e multiinstrumentista Ricardo Resende, de 45 anos, integrante da Orquestra Sinfônica de Sergipe (Orsse).
Foram adquiridos 19 instrumentos: três flautas transversais, seis clarinetes, dois saxofones altos, dois saxofones tenores, dois trompetes, dois trombones de vara, um bombardino e uma tuba.
Para o pastor Jônatas Oliveira, presidente da APE, a música pode abrir novas perspectivas para crianças e jovens do Santa Maria.
“A música tem um papel social de importância ímpar. Ela dá uma oportunidade, gera disciplina e pode gerar oportunidade profissional.”
Jônatas também tem trajetória na música. É músico e já atuou na Orquestra Sinfônica de Sergipe. A experiência musical, segundo ele, ajuda a compreender o potencial da atividade como ferramenta de formação.
O encanto de uma flauta

Os efeitos do projeto aparecem nas próprias falas dos alunos. Layla Fernanda Santos, de oito anos, que estuda flauta transversal, conta que sempre imaginou como seria ter um instrumento de verdade. Antes de entrar no projeto, ela tinha uma flauta de brinquedo.“Quando eu consegui a flauta, eu agradeci muito por isso. E eu sou muito agradecida por isso. Eu tenho muita gratidão. E eu agradeço muito a Deus por ter a flauta.”
Layla diz que sempre teve vontade de continuar nas aulas e destaca a forma como o maestro conduz o aprendizado. “O Ricardo, o maestro, é muito legal, muito engraçado. Cada passo a gente vai aprendendo com brincadeiras. E eu gosto muito.”
O primeiro contato com a flauta também ficou marcado na memória. “Eu me lembro muito quando eu vim aqui pela primeira vez e vi minha flauta brilhando. Aí eu fiquei muito feliz.” Layla já tem um objetivo para o futuro: “Meu maior sonho é ser uma profissional que saiba muito de flauta. Eu quero tocar coisas de Jesus, hinos de Jesus. Eu estou muito feliz.”
Sonhos que começam com um instrumento
Aos 17 anos, Pietro Gabriel Paixão dos Santos estuda tuba no projeto. Ele destaca a maneira como Ricardo conduz as aulas. “Eu aprendo bastante. As instruções do professor são bem claras e eu gosto bastante das aulas de instrumento. Estou me adaptando muito bem.” Pietro já pensa em usar o conhecimento adquirido para ajudar outros alunos. “Eu quero, no futuro, ser monitor para ajudar outras pessoas também e talvez conseguir entrar para alguma banda e tocar na igreja.”
Aos 14 anos, Analídia Palmeira vê na música uma possibilidade de desenvolver novos interesses e aproximar jovens e famílias. “O meu objetivo é primeiramente adorar a Deus e, quem sabe, no futuro entrar para uma orquestra ou algo do tipo.” Ela também destaca a convivência proporcionada pelo projeto. “Eu gosto muito do projeto porque nós, jovens e adolescentes, também crianças, ficamos mais criativos. E com esta orquestra, na igreja, nós conseguimos participar com as famílias e todos juntos na área da música, que é uma área que nos interessa muito.”
Mirian da Silva Muris, de 14 anos, escolheu o sax alto. Para ela, o instrumento representa a realização de um desejo antigo. “Tenho o sonho de tocar na banda da igreja e em outras bandas, viajar para tocar. Sempre quis tocar sax alto. Então, estou realizando esse sonho.”

De 2019 à formação da orquestra
A iniciativa atual é resultado de uma experiência que começou antes da compra dos instrumentos. Em outubro de 2019, Ricardo Resende passou a dar aulas. Na época, havia duas turmas. Uma reunia 25 crianças, que estudavam teoria musical e flauta doce. A outra tinha 35 jovens e adultos, com aulas de teoria musical.
O trabalho foi interrompido durante a pandemia de Covid-19 e não chegou a ser retomado naquele momento. O projeto, porém, permaneceu como um objetivo de Ricardo. O retorno ganhou força quando o músico apresentou a proposta ao vereador e pastor Diego (PP), que ajudou a viabilizar a estrutura institucional necessária. A partir daí, a APE passou a responder pelo projeto.

Com os recursos da emenda parlamentar, foi possível adquirir os instrumentos e estruturar a iniciativa, que também envolve despesas necessárias para a realização das atividades. Os alunos estudam teoria musical e, simultaneamente, têm contato com os instrumentos. As aulas são organizadas por naipes. Os estudantes podem levar os instrumentos para casa mediante termo de responsabilidade assinado pelos pais ou responsáveis.
Ricardo une música e formação

Ricardo Resende é formado em Licenciatura em Música pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), com habilitação em Educação Musical. Possui pós-graduação em Gestão de Projetos Musicais e em Regência Orquestral, além de extensão em regência orquestral na América do Sul.
Multiinstrumentista, atua desde 2009 na Orquestra Sinfônica de Sergipe, com oboé, corne-inglês e saxofones. Desde 2020, é professor da Orquestra Jovem de Sergipe, onde trabalha com flauta transversal, oboé, clarinete, sax alto, sax tenor e fagote.
Desde 2024, integra também o quarteto de fagotes 3 + 1. Ao longo da carreira, foi professor de oboé na Sociedade Filarmônica de Itabaiana e trabalhou com saxofone, flauta doce, teoria musical e regência assistente em grupos musicais de Aracaju.
Além da música, Ricardo é faixa-preta de jiu-jitsu. A experiência será aproveitada em uma próxima etapa do projeto, que pretende oferecer também aulas de artes marciais para crianças e jovens.
A ideia da APE é ampliar gradualmente as atividades. Além da música e das artes marciais, estão previstas ações educacionais e de formação, como Libras, bordado, alfabetização de idosos e reforço escolar.
Música e outras oportunidades
A Igreja Assembleia de Deus Ministério Marivan cede gratuitamente o espaço onde são realizadas as aulas. A APE funciona de forma independente da igreja e pretende, futuramente, conquistar uma sede própria.
A proposta é utilizar a música como porta de entrada para outras atividades de formação e convivência. O projeto ainda está em fase de estruturação e ainda não realizou a sua primeira apresentação pública. Algumas vagas continuam abertas, principalmente para trombones e trompetes.
A expectativa é que os alunos avancem gradualmente até formar um conjunto capaz de se apresentar. Para quem participa, porém, a transformação já começou. Layla encontrou na flauta um instrumento que antes conhecia apenas como brinquedo. Pietro já pensa em ser monitor. Analídia vê na música uma forma de aproximar jovens e famílias. Mirian está realizando o sonho de tocar saxofone.
São experiências diferentes, mas que apontam para o mesmo caminho: transformar o aprendizado musical em oportunidade para crianças, adolescentes e jovens do Santa Maria.

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