quarta-feira, 09/06/2021
Jornalista e escritor Luiz Eduardo Costa conta a história do crime de Carlos Firpo

Luiz Eduardo Costa lançará o livro “A Casa Lilás” contando a história do assassinato de Carlos Firpo

O assassinato a facadas do médico e ex-prefeito de Aracaju, Carlos Firpo, ocorrido em fins de abril de 1958, dentro da própria residência, na rua de Campos, abalou a sociedade aracajuana daquela época e teve repercussão nacional. Passados 63 anos, o crime segue envolto em mistérios, com depoimentos conseguidos à base de tortura, assassinato de testemunha e trapalhadas jurídicas. A história, digna de “thriller policial”, é contada pelo jornalista Luiz Eduardo Costa, no livro “A Casa Lilás  – Memórias de um Crime”, que já foi para o prelo da Edise e nas próximas semanas estará nas livrarias.

Esse é o primeiro livro de Luiz Eduardo Costa, 80 anos, que, com o olhar aguçado e faro jornalístico incomparável, fez centenas de entrevistas. Muitas delas várias vezes com um mesmo personagem esmiuçou documentos, leu e releu todo o processo, providenciou exames grafotécnicos para verificar se algumas assinaturas eram verdadeiras ou não, dentre outras investigações.

Baependy, da Lloyd brasileira, um dos navios afundados em 1942
Foto: Wikipédia

Com uma linguagem simples e instigante, Luiz Eduardo conduz o leitor a uma viagem no tempo, relatando os torpedeamentos de navios brasileiros na costa sergipana, em agosto de 1942 – portanto 16 anos antes do assassinato de Carlos Firpo – chegando às implicações políticas, que se desencadearam após o crime. É um mergulho numa parte da história sergipana que, diante do crime, ficou dividida e com uma enorme dúvida: o crime foi passional ou político?

O livro mostra que detalhes importantes para investigação de crime de homicídio foram deixados para trás pelas autoridades da época. “O Governo de Sergipe, por exemplo, nunca autorizou a vinda de um agente da Polícia Federal para investigar o crime”, observa Luiz Eduardo, que conta esse fato em detalhes, inclusive com o nome do agente destacado para o trabalho.

O  título do livro –  “A Casa Lilás – Memórias de um Crime” – por si só chama atenção por dois motivos:  primeiro foge do lugar comum, pois o assassinato de Carlos Firpo é conhecido como “O Crime da Rua de Campos”; segundo porque  a casa onde ocorreu o assassinato não era lilás, mas cinza. Você só saberá o porquê desse título e de outros detalhes, lendo o livro.

Mas antes de o livro chegar às suas mãos, vale a leitura da entrevista que Luiz Eduardo Costa concedeu ao Só Sergipe.

SÓ SERGIPE – Em 2008, o senhor escreveu uma série, com 36 textos, contando a história do crime da rua de Campos, que teve como vítima o médico Carlos Firpo.  Agora, tudo isso estará reunido num livro que, inclusive, está no prelo. O que o motivou?

Médico Carlos Firpo discursa no Hospital dos Pobres, em 1958

LUIZ EDUARDO COSTA – Esse é um caso que acompanhei desde quando eu tinha 17 anos. O crime aconteceu em abril de 1958, tanto que os supostos assassinos chegaram presos em Aracaju, vindos de Paulo Afonso, na Bahia, no dia 1º de maio. Meu pai, Paulo Costa, era jornalista e promotor, amigo pessoal  do principal envolvido, que era o então tenente da Aeronáutica, Afonso Pereira Lima, meio-irmão de um promotor colega do meu pai, que também se chamava Afonso Ferreira. O coronel quando vinha a Aracaju frequentava minha casa e meu pai tinha uma gratidão muito grande por ele. Isso porque, meu pai foi preso na ditadura Getúlio Vargas, do Estado Novo, em agosto em 1945, e a censura do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) de Lourival Fontes era ainda implacável. Meu pai escreveu uns  artigos que desagradaram muito  o interventor e o prenderam sob alegação de que estava com uma arma no bolso. Embora ele tivesse direito de andar armado, levaram-no para a penitenciária. A repressão achava que as pessoas que meu pai, como promotor, havia pedido a condenação, iam matá-lo dentro da penitenciária. Numa dessas ocasiões, quando meu pai havia sido transferido para o quartel dos Bombeiros, o tenente Afonso foi fardado visitá-lo. Naquela época, Afonso correu um risco tremendo  por visitar um preso político. E meu pai ficou com essa gratidão. Ele permaneceu três meses preso e foi libertado por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).  Meu pai também era amigo de Carlos Firpo, participavam juntos do Lions Club.

SÓ SERGIPE – Mas voltando ao livro e ao crime…

MIlena Mandarino ficou presa dois anos, não foi a julgamento e o STF a libertou

LUIZ EDUARDO COSTA – Quando ocorreu o crime, a sociedade  sergipana se dividiu. Uns aceitando a tese da polícia, de crime passional, e outros não. Eu vivi muito aquilo, os traumas, as ameaças. Quando dona Edna,  esposa do tenente Afonso, chegava aqui para defender o marido e  Milena Mandarino, acusada de ser amante de Afonso, era um problema.  Eu, ainda menino, tive que levá-la várias vezes de carro aos locais que ela desejava com pistoleiros acompanhando a gente e ela ia armada. De modo que o crime teve repercussão nacional, pois jornalistas de fora vieram fazer cobertura.  O tenente estava preso  na Base Aérea do Recife e era enviado de avião para os depoimentos e  se dizia que com a chegada dele haveria trucidamento. Eu me interessei por aquilo. Fiz várias solicitações a amigos meus que foram presidentes do Tribunal de Justiça de Sergipe que procurassem esse processo. Eu tinha alguns papéis, algumas coisas deixadas por meu pai, que faleceu em 1961, pouco tempo depois do crime, e ele escreveu vários artigos sobre o assunto. Aliás, meu pai foi vítima de um erro médico cirúrgico gravíssimo e morreu.

SÓ SERGIPE – E o senhor seguiu interessado no caso da rua de Campos…

LUIZ EDUARDO COSTA – Eu fiquei com essas coisas do crime na cabeça. Fui demitido dos empregos que tinha em Aracaju e segui para o Rio de Janeiro. Uma vez visitei o já coronel Afonso, no bairro do Rio Cumprido, onde ele morava. Ali, conversamos sobre várias coisas, inclusive sobre o crime que ele estava absolvido pelo Supremo  Tribunal Federal e foi promovido de tenente-coronel a coronel. Na época do regime militar de 64, ele estava esperando a promoção para brigadeiro que só saiu pós-morte. Com esses elementos sobre o crime em mãos, resolvi fazer umas memórias em 2008, quando o crime completava 50 anos, e fiz uma série de artigos  no Jornal do Dia. Como a coisa alcançou uma repercussão muito grande, acirrou a polêmica e Marcos Vieira, filho do falecido senador Heribaldo Dantas Vieira, que naquela época era o secretário do Interior e da Justiça, resolveu me processar e publicou alguns artigos virulentos contra mim. Tive que responder e tudo. Criou-se uma expectativa muito grande e decidi aumentar isso. Pesquisei, busquei novos depoimentos para publicar o livro. E fiquei esperando a decisão da Justiça para que não houvesse perigo de que o atendimento do filho do Heribaldo, o Marcos Vieira, que era proibir o livro, fosse acatado. Foi quando o juiz Aldo Albuquerque, que eu nem conhecia, deu a decisão favorável para a publicação.  Resolvi publicar o livro, mas queria ouvir a dona Milena Mandarino. Depois ela desistiu de falar comigo. Olha, antes de publicar os artigos no jornal, eu pedia aos sucessivos presidentes do TJ acesso ao processo, todos procuravam, mas não achavam. Um dia, Cezário Siqueira, que era presidente na época,  me telefonou e disse que  eu fosse ao TJ naquele momento, pois encontraram o processo. Eu fui,  levei o processo para casa, mandei digitalizar, devolvi o original e um digital. E esse acesso foi importante.

Multidão acompanha a chegada de Milena Mandarino ao Fórum Fotos: Acervo de Luiz Eduardo Costa

SÓ SERGIPE – O senhor fez novas descobertas ao estudar o processo?

LUIZ EUARDO COSTA – Sim, fiz uma que é surpreendente. Entre as diversas assinaturas da dona Milena, nos interrogatórios que ela respondeu, havia uma inquirição que era a principal, feita na casa dela antes de prendê-la, no quarto dela, sem testemunhas, só com o Heribaldo Vieira e ela assinou. No outro dia, ela disse que não havia falado aquilo e negou, mas ninguém foi conferir a assinatura. Eu, por uma questão de sorte, conferi a assinatura dela em outros documentos e era totalmente diferente. Pedi a Newton Porto que fizesse uma perícia e, sem me cobrar nada, atestou que era falsa. Quando o Marcos Vieira entrou com o processo contra mim, acusou-me de súcia, que eu e Newton formávamos uma ‘súcia repugnante’. Tempos depois, na Loja Maçônica Cotinguiba, eu conversava com o advogado Genaldo Moura do Amaral, e ele pediu para analisar o documento. O laudo confirmava que a assinatura era falsa. Ou seja, era um processo que começou com essas coisas estranhas, porque mataram a principal testemunha, que era o magarefe José Euclides Timóteo de Lima, e tudo correu dessa forma. Com uma assinatura falsa e a principal testemunha morta, o processo teria sido anulado. Então, achei que era um caso que merecia um debate maior, enfim, que é um mistério.  Nunca chegaram a uma conclusão.

SÓ SERGIPE – É isso que eu pergunto ao senhor. Quem matou Carlos Firpo e por quê?

LUIZ EDUARDO COSTA – As perguntas permanecem em aberto. Quem ler o livro vai encontrar uma carta emocionante de Bento Ferreira Lima, filho do coronel Afonso, na qual ele fala de mistério. Bento era um frade e já faleceu. Ele tinha a convicção de que o pai não participou desse crime.

SÓ SERGIPE – E houve romance entre dona Milena Madarino e o Afonso?

LUIZ EDUARDO COSTA – É outro aspecto. Como eu disse, ele era baiano e, ainda menino, veio para Aracaju terminar o curso ginasial e ficou na casa do meio-irmão que também se chamava Afonso. E a mulher deste meio-irmão Afonso era irmã da esposa de Nicola Mandarino que vem a ser o pai de Milena. Eles foram criados juntos. Ela disse que o tinha como irmão. Depois ele fez Escola Militar, no Realengo, no Rio de Janeiro, e vinha sempre nas férias. Inclusive, quando ele era tenente, veio para o casamento de Milena com Carlos Firpo. Ou seja, vivia dentro da casa. Quando o tenente vinha para Aracaju se hospedava na casa do meio-irmão ou na casa de Carlos Firpo, que morava com o sogro, Nicola, a esposa e mais um bocado de gente.  Agora,  uma coisa estranha é que durante aquele período não se falava absolutamente nada do romance entre eles. Aracaju tinha 80 mil habitantes, tudo se comentava, principalmente envolvendo figuras exponenciais da sociedade.  Milena era muito discreta, só viva em igreja, não se vestia com decote, etc. Ela era uma mulher linda e ela me disse uma vez que eu a achava linda, porque não conhecia a irmã dela, Vanda.

SÓ SERGIPE – Mas aí, quando aconteceu o crime surgiu a história de um suposto romance entre Milena e Afonso.

LUIZ EDUARDO COSTA – Quando houve o crime, as emissoras de rádio diziam que ela era prostituta de luxo, uma coisa terrível. Nunca vi um clima com mais açodamento verbal como aquele, algo terrível mesmo.  E não se podia fazer o inquérito, um julgamento com tranquilidade naquele clima.

Casa que foi de Nicola Mandarino, pai de Milena, hoje é a sede da Ases, na rua Campos

SÓ SERGIPE – No dia do crime estavam todos em casa e uma das filhas de Milena estava gripada.

LUIZ EDUARDO COSTA – Os quartos eram juntos, com as portas abertas e continuam sendo. Hoje, nessa casa, funciona a  sede da Associação dos Supermercados de Sergipe (Ases). Eu a visitei lá várias vezes. Milena saiu com Firpo e o pai, Nicola, e foram para o Hospital dos Pobres, chamado de Matadouro de Pobres (hoje Hospital Santa Isabel), pois o Firpo era diretor. Por volta das 23 horas, voltaram e uma das filhas disse que estava gripada e Milena foi dormir com ela. Mas no enredo da coisa,  o matador que foi José Pereira dos Santos, o Pereirinha, descreve a cena dizendo que ela, Milena,  já havia deixado a porta aberta, ou seja, a cena do crime preparada por ela, para que ele, o Pereirinha, matasse o Carlos Firpo.

SÓ SERGIPE – O Pereirinha foi réu confesso?

LUIZ EDUARDO COSTA – Sim, depois de muita pancada. E depois não consegui a carta que ele fez para esposa, Aurélia, que residia em Paulo Afonso, onde ele dizia que sofreu e que a polícia o forçou a dizer que matou Carlos Firpo.

SÓ SERGIPE – Pereirinha e o Timóteo foram presos em Paulo Afonso?

LUIZ EDUARDO COSTA – Pereirinha e Timóteo foram presos no dia  30 de abril. Eles estavam em Aracaju e o motorista que os levou para Paulo Afonso era muito amigo de Carlos Firpo. Antes, eles passaram perto do cemitério e estava acontecendo o enterro. Eles comentaram sobre o  crime. No caminho, o motorista suspeitou e ficou com medo de que o matassem. Ele, então, parou num posto da polícia no caminho para  Jeremoabo e um guarda conhecia os dois. Esse guarda falou ao motorista que lhe desse os documentos para pegar na volta. Ou seja, deu algum sinal de que ele precisa voltar e os caras perceberam. Ele levou os passageiros até o entroncamento de Jeremoabo,  e eles não pagaram o que combinaram, mas o motorista deu graças a Deus por sair vivo. Ao chegar no posto, o guarda disse que os caras eram perigosos, que mataram gente por lá, e aí ele  suspeitou que foram esses passageiros que mataram Carlos Firpo. Em Aracaju,  o motorista cochilou na casa da irmã em Frei Paulo, e vinha uma caravana de três ou quatro jipes vindo de São Paulo, com  Antônio Mendonça, filho de Euclides Paes Mendonça. Quando Antônio viu o carro do motorista, parou,  chamou-o e este contou sobre a morte de Carlos Firpo e suspeitava dos bandidos. Em Itabaiana, conversou com Euclides Paes Mendonça e mandou procurar o governador Leandro Maciel. O motorista foi para a delegacia e já encontrou por lá o Leandro Maciel e Afonso, que haviam chegado na véspera com as irmãs de Milena.  O Afonso não teve nenhuma reação ao saber dos pistoleiros. E o coronel  Afonso ofereceu a Heribaldo um agente da Polícia Federal para vir apurar o crime. Dali, ele foi embora. Leandro providenciou um carro e foram prender os caras.

SÓ SERGIPE – Carlos Firpo foi morto a facadas. Acharam a arma do crime?

LUIZ EDUARDO COSTA – Sim, foi achada e coloco a foto no livro. O mais estranho é que não fizeram nenhuma perícia para descobrir as impressões digitais, não isolaram a cena do crime, não fizeram nada. O pai do ex-vice governador Benedito Figueiredo, que era policial no Rio de Janeiro e que veio para cá, levantou um bocado de pistas, dizendo por onde tinha entrada o bandido e ninguém levou em conta isso. A vinda do policial federal, que era  Hans Peter, foi confirmada pela chefatura de polícia no Rio, e ninguém nunca respondeu ao telegrama enviado para o Governo de Sergipe. O policial não veio e ficou por isso mesmo.

Pereirinha, na reconstituição do crime

SÓ SERGIPE – Quem foi condenado nessa história?

LUIZ EDUARDO COSTA – O Pereirinha foi condenado a 16 anos;  Milena passou dois anos e oito meses; Afonso ficou preso na Base Aérea e numa decisão de 3×2 foram libertados pelo STF.

SÓ SERGIPE – E todos alegaram inocência?

LUIZ EDUARDO COSTA – Todos alegaram inocência. O Pereirinha  confessou, mas quando foi desfazer, já estava preso. Ele pegou 20 anos de prisão.

SÓ SERGIPE – Quanto tempo o senhor passou escrevendo esse livro?

LUIZ EDUARDO COSTA –  Quando escrevi os artigos para o Jornal do Dia, eu os fazia na véspera da publicação. Mas depois, para o livro, arrumei, desarrumei os capítulos e tudo só ficou pronto em 2018. Uma coisa dizia para mim que Milena iria fazer alguma revelação, mas ela morreu em dezembro do ano passado  sem dizer nada, pelo menos que eu saiba.

SÓ SERGIPE – E Julieta e Maria da Graça, as duas filhas do casal Carlos Firpo e Milena?

LUIZ EDUARDO COSTA – Hoje moram no Rio de Janeiro. Mas, uma delas chegou a morar em Salvador e a mãe residia com ela. Milena era uma grande pianista. O coronel Afonso morreu com 58 anos, ainda jovem.

SÓ SERGIPE – E  o lado político desta morte de Carlos Firpo?

LUIZ EDUARDO COSTA – Carlos Firpo queria ser vice-governador de Sergipe.  Minha interpretação é que Heribaldo Vieira encontrou no crime  o momento de fazer o marketing político dele. Ele tinha certeza que o então governador Leandro Maciel  ia indicá-lo para ser seu sucessor no governo do Estado. O crime em abril, a eleição seria em outubro de 1958, e ele fez o marketing. Só que fez dividindo a sociedade: uma parte com raiva dele e outra apoiando. Ele se elegeu senador, ficou com muita mágoa do Leandro e em 1962 se vingou votando em Seixas Dória.

SÓ SERGIPE  – Todos os personagens desta história já morreram?

LUIZ EDUARDO COSTA – Sim, todos já morreram. Eu conversei com todos eles. De Seixas Dórea tive vários depoimentos, nós saíamos sempre para jantar. Todos estes personagens eu conversei. Lembro do desembargador Nolasco (José Nolasco de Carvalho), que na época era delegado de polícia  e que  fez as prisões.  Com todos eles eu conversei.

 

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