sexta-feira, 02/04/2021
Alex Garcez, diretor da Fecomércio: "Queremos produção, PIB subindo, economia subindo. Mas nós temos que entender a situação"

“Graças a Deus ele não decretou um lockdown, pois aí é que ia acabar de matar o comércio”, disse o diretor da Fecomércio, Alex Garcez

“Graças a Deus ele não decretou um lockdown, pois aí é que ia acabar de matar o comércio”. As palavras são do diretor e conselheiro da Federação do Comércio de Sergipe (Fecomércio), Alex Garcez, ao analisar as medidas restritivas anunciadas pelo governador Belivaldo Chagas, na última quinta-feira. A medida para estes dois finais de semana é, no entendimento de Alex, para frear o contágio, principalmente, das novas variantes da Covid-19.

Presidente do Sindicato das Farmácias de Sergipe e profissional da área de saúde – ele é farmacêutico – Alex Garcez sugere melhorias na resolução governamental. A principal delas é que o governador, o prefeito de Aracaju Edvaldo Nogueira, e representantes do setor de transporte coletivo, discutam a ampliação da frota. Para ele, não adianta fechar bares e restaurantes, e com os ônibus lotados de pessoas sendo contaminadas e passando o vírus para outras.

“O cidadão está na empresa fazendo todo o protocolo de higienização, acompanhando todas as orientações que o Ministério da Saúde pede que as empresas façam, aí o funcionário precisa pegar o ônibus para ir trabalhar,  é contaminado ali dentro do coletivo e leva o vírus para dentro da empresa”, ponderou Alex Garcez.

Para Garcez, os empresários sergipanos estão fazendo a sua parte, seguindo as determinações das autoridades de saúde, mas ressalta que as outras pessoas, também, têm que colaborar, usando máscara e álcool em gel. Como representante da Fecomércio, ele diz que a entidade quer todo o comércio aberto, “mas como eu posso aceitar tudo aberto com o alto índice de infecção que está tendo? É justo? Nós temos bom senso”, frisou.

“Queremos produção, PIB subindo, economia subindo. É um desejo da Fecomércio. É o desejo dos sindicatos filiados, dos empresários que fazem parte do sistema. Mas nós temos que entender a situação. Temos diretores que estão na UTI há 20 dias. Temos que ter equilíbrio. Vamos atender o decreto, as pessoas precisam entender o que é protocolo e ter álcool em gel e se cuidar”, frisou.

Na quinta-feira, logo depois que o governador anunciou as medidas restritivas, Alex Garcez conversou com o Só Sergipe. Confira.

SÓ SERGIPE – Como o senhor avalia a decisão do governador Belivaldo Chagas que, na quinta-feira, adotou medidas restritivas para este final de semana e o próximo?

AG – Pelo que eu entendi das palavras do governador, ele quer avaliar estes dois finais de semana para não dar um lockdown. Ele mantém o funcionamento normal durante a semana e no final de semana fecha shoppings, bares e restaurantes para tentar coibir um pouco o aumento da Covid-19, que se propaga de forma muito grande, não só na capital, como em nosso Estado. Nossas UTIs estão superlotadas em todo o Estado, tanto pública como privadas. Acho que os casos desta vez estão muito maiores do que em março do ano passado, quando começou a pandemia, quando houve o fechamento de tudo.  Acho que, tanto o governador como o prefeito Edvaldo Nogueira, precisam tomar algumas outras medidas.

Ônibus circulam superlotados

SS – Quais por exemplo?

AG – Com o transporte público. Nós notamos que os ônibus, às vezes, estão superlotados, não há um controle de pessoas para entrar. Essas autoridades poderiam ver com as empresas que detêm o controle do transporte público para aumentar um pouco a frota. Se o cidadão passar, às 22 horas, num ponto de ônibus, quando estão saindo os funcionários dos shoppings, pode ver a loucura das pessoas para quererem chegar em casa e os ônibus superlotados. Aí não adianta fechar somente bares e restaurantes e o transporte público estar desse jeito. Não estou falando mal do transporte público, mas dizendo que poderia ter uma medida em parceria com as empresas para aumentar a frota, principalmente nas linhas que aglomeram mais passageiros, nas saídas dos trabalhos. Porque se não fizer isso, não adianta.

SS – Por quê?

AG – Porque fecha bares e restaurantes e o transporte público está cheio de gente contaminando as pessoas. O cidadão está na empresa fazendo todo o protocolo de higienização, acompanhando todas as orientações que o Ministério da Saúde pede que as empresas mantenham, aí o funcionário precisa pegar o ônibus para ir trabalhar e é contaminado ali dentro do transporte e leva o vírus para dentro da empresa. Antes, não víamos a contaminação dentro das empresas, principalmente no setor de farmácia. Mas hoje está afetando demais o pessoal das farmácias. Muitos vírus podem ser levados pelo uso do transporte urbano. Isso é só uma ênfase para que as autoridades enxerguem também essa medida de melhorar o fluxo, aumentar a frota de ônibus, principalmente nos horários de pico e naquelas linhas com maior número de pessoas. Eu vejo como uma das medidas que pode diminuir o risco de contaminação.

SS – Hoje há uma preocupação maior com as variantes da Covid-19 que estão espalhadas em todos os lugares, não é?

AG – Sim, nós sabemos das variantes da Covid-19. Eu, por exemplo, tive uma virose muito grande, fiz dois exames. O primeiro, quatro dias depois dos sintomas, que é o PC-R, deu negativo. E com 12 dias fiz a sorologia florense que é o IGGM e deu negativo. São as variantes que estão fortes. Estou com amigos internados há 30 dias na UTI, conhecidos que morreram. Só sabe do sofrimento quem perde alguém querido. Sou farmacêutico e vi uma paciente chorado porque a irmã se contaminou, e ela passou para o pai e a mãe de 90 anos.  Essa moça estava desesperada. Então, só sabe quem perdeu um ente querido.

SS – Voltando à medida do governador, fechar nos finais de semana foi a solução?

AG – Foi para tentar controlar as aglomerações. No sábado eu vi o shopping lotado de carro e se tinha carro, tinha gente. Os shoppings têm os protocolos, mas acho que poderiam ser melhores. Shopping lotado pode parecer que todos estão comprando, mas não estão.  Há gente passeando, tomando sorvete, indo para praça de alimentação. Você chega na praça de alimentação, todos estão sem máscara  porque estão comendo. É bacana ir a shopping, mas também aglomera. Nos bares e restaurantes  pela cidade que não há controle de espaço. Passei em vários e não entrei, preferi ir para minha casa e fazer o pedido. Às vezes você quer sair de casa e ir para um ambiente diferente e chega lá está superlotado, é melhor ir para casa. A medida do governador foi cautelar, não vai ficar fixa e dependerá dos quadros que estão sendo monitorados. O surto aumentou, está se tentando controlar isso. Poderia haver medidas como colocar hospital de campanha, mas tem que controlar as pessoas.

SS – A população, principalmente a mais jovem, tem que se conscientizar mais?

AG – O vírus está pegando jovens de 25 a 40 anos, os que mais estão na rua, convivendo em ambiente público, aberto, com aglomerações. O governo tem que tomar uma medida. É ruim para alguns lojistas, porque ficará fechado no sábado e domingo, como é caso dos shoppings, mas ao mesmo tempo Belivaldo teria que tomar uma medida para controlar. A meu ver, ele teve que tomar essa medida com a assessoria  para estudar a evolução dos casos, se vai diminuir ou aumentar. As pessoas têm que ter bom senso, pois estamos na pandemia.  As variantes da Covid-19 estão pegando as pessoas, e foram detectadas seis variantes aqui no Estado.  É preocupante, pois negócios são fechados. Os funcionários públicos vão trabalhar das 7 às 13 horas para reduzir a carga horária. Ou seja, o governador está tentando fazer algo que seja para o bem comum. Eu sei que é difícil ser um líder, um governador, prefeito. Se ele toma a medida certa, está errado; se toma a medida errada, está mais errado ainda. Graças a Deus ele não decretou um lockdown, como ocorreu em várias cidades, para fechar tudo. Aí é que ia acabar de matar o comércio, mas ele está tentando minimizar a transmissão. Sei que tem uma turma jovem alugando casas e fazendo festas às escondidas, isso é um problema e é difícil descobrir isso. São vários casos de Covid-19 que vêm acontecendo e nós temos que ter cautela.  Eu trabalho na área de saúde, sei que todo mundo está estressado e vejo as pessoas comprando ansiolíticos prescritos pelo médico, e muita gente procurando remédio natural para controlar ansiedade, stress. Tenho minha vó de 95 anos que só saiu o ano passado para se vacinar contra a gripe. Há um ano que não sai do apartamento.

SS – Em linhas gerais, o senhor acha que a população tem que colaborar mais?

AG – Olha, na minha farmácia chegam pessoas sem máscara.  Eu peço para aguardar, vou até a porta mantendo distância para não perder venda. Se na minha farmácia acontece isso, imagine nas outras empresas por aí? As pessoas não estão levando a sério o que é a Covid-19 e suas variantes. Esse é meu modo de enxergar.

SS – Embora não esteja entre os 12 segmentos da Fecomércio, o setor de eventos, que envolve uma gama de pessoas, está preocupado. Eu conversei com um cerimonialista e ele estava apavorado porque um casamento que seria neste final de semana foi cancelado. E eles investiram R$ 69 mil. Não é um prejuízo muito grande?

AG – Como pessoa, como empresário eu acho que não era momento de acontecer essa festa. Houve o tempo de planejar. Se verificou que ainda existe pandemia, que pessoas estão sendo infectadas, estão morrendo, e fazer festa para colocar 100 a 150 pessoas, será justo isso? Festa tem bebida, comida e não tem máscara. Ali vão estar famílias e amigos. Se a pessoa fizesse a festa e pedisse 72 horas antes o exame, e só entrar quem não tivesse infectado, tudo bem. Hoje só se pega avião se tiver o teste negativo para Covid-19. Sei que o pessoal de eventos coloca o termômetro para medir a febre. Mas às vezes o cidadão está assintomático e não tem febre. Vai tirar a máscara, vai beber, falar, dançar. Tem que ter bom senso. Daqui até junho ou julho, acho que boa parte das pessoas estará vacinada. Marquem suas festas para agosto. Fico triste por causa das despesas, porque geralmente as festas já estão pagas. O momento é de bom senso. Neste momento pode ter uma infecção coletiva.

SS –  O senhor tem opiniões que divergem um pouco do empresariado, quando comenta sobre a decisão do governador. Essa opinião não vai um pouco de encontro ao que pensa a Fecomércio, que defende o funcionamento do comércio?

PIB quando estava em alta

AG – Olha, nós queremos tudo aberto. Mas como eu posso aceitar tudo aberto, com o alto índice de infecção que está tendo? É justo? Será que a Fecomércio é a favor do que está acontecendo?  Nós temos bom senso. Queremos produção, PIB subindo, economia subindo. É um desejo da Fecomércio. É o desejo dos sindicatos filiados, dos empresários que fazem parte do sistema. Mas nós temos que entender a situação. Temos diretores que estão na UTI há 20 dias. Temos que ter equilíbrio. Vamos atender à resolução. As pessoas precisam entender o que é protocolo, e ter álcool em gel, manter o distanciamento social e se cuidar. Os lojistas estão fazendo o máximo com a segurança, pedindo às pessoas que só entrem na loja com máscara. Não queremos perder faturamento. Mas chega a um nível de infecção que as unidades de saúde não estão suportando. Eu disse no início que precisa ter outras medidas. É uma cadeia, um ciclo de processo. Os governantes precisam melhorar o transporte público. Precisa melhorar a resolução.

SS – Então, as lojas estão cumprindo todos os procedimentos sanitários?

AG – Sim, sim.  Os empresários têm feito a sua parte e a população tem que ajudar, porque senão nunca sairemos desse problema. Vai estar sempre assim: fecha, abre, fecha abre, sem falar na loucura no sistema de saúde. As pessoas têm que entender, fazer um esforço, que não é fácil, para que os números de infectados não aumentem. E com isso não aumentem os problemas de saúde pública no Estado e no município. A Fecomércio se preocupa muito. Nosso presidente, Laércio Oliveira, tem se preocupado demais. Tem feito o que pode para que não feche o comércio e nossa economia. Já não está tendo faturamento suficiente, imagine se fechar. A Fecomércio enxerga isso: reduzir as infecções na população e quer que melhore a economia. Temos que aceitar essa resolução e ir trabalhando junto com o Estado e a Prefeitura para que façam o papel deles, fiscalizando os ambientes que fazem festas clandestinas, ver o transporte público, dentre outros. Não só Aracaju, mas em  todos os municípios sergipanos. Tem gente que acha que a doença nunca chegará até ele, só vai se arrepender quando tem um óbito na família. Aí, é tarde.

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