terça-feira, 12/05/2026
Fafen Laranjeiras
Unidade da Fafen, em Laranjeiras Foto: Divulgação

Fafen de Sergipe opera 24h e despacha 60 caminhões de ureia diariamente

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Por Antônio Carlos Garcia (*)

As fábricas de fertilizantes nitrogenados da Petrobras em Laranjeiras (SE) e Camaçari (BA) já operam em regime contínuo, ampliando a produção nacional de ureia. Na unidade sergipana, cerca de 60 caminhões carregados de fertilizante saem diariamente da planta, segundo o gerente geral da fábrica, Carlos Renato Sarruf Guimarães. Os pedidos são despachados para Goiás, São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais e Bahia.

“A fábrica funciona 24 horas por dia, sete dias por semana. A produção não para. Trabalhamos com equipes de turno, em sistema de revezamento”, frisou Guimarães. A unidade de Laranjeiras retomou as atividades após quase dois anos de paralisação. As fábricas de Laranjeiras e Camaçari operam com aproximadamente 90% da cidade de produção de ureia. Em Laranjeiras são expedidas, em média, 2.500 toneladas de ureia, enquanto a de Camaçari, 1.500 toneladas por dia.

A retomada das duas unidades do Nordeste ocorre em um momento estratégico para o país. Juntas, as plantas têm capacidade para atender cerca de 12% da demanda nacional de ureia, fertilizante nitrogenado amplamente utilizado em culturas como milho, arroz, café, cana-de-açúcar e trigo.

O Brasil consumiu cerca de 8 milhões de toneladas de ureia no último ano, mas aproximadamente 88% desse volume foi importado, o que expõe o país às oscilações do mercado internacional e a crises geopolíticas. Parte significativa desse fertilizante vem de países do Oriente Médio — região que enfrenta uma guerra nas últimas semanas.

Mesmo assim, a empresa ainda avalia os efeitos desse cenário sobre a demanda doméstica. “Estamos justamente num processo de reconquistar clientes, credenciar novas empresas e ampliar as vendas. Muitas companhias só compravam fertilizante importado porque não tinham oferta nacional. Ainda não é possível afirmar se há impacto direto da guerra ou se é apenas o movimento natural do mercado com a nossa volta”, disse Guimarães.

Mudança de estratégia

A retomada das plantas faz parte da nova estratégia da Petrobras para o setor de fertilizantes. Em 2018, o governo federal e a companhia reduziram investimentos na área e paralisaram unidades consideradas economicamente onerosas, levando o país a depender quase totalmente de fertilizantes importados.

Com a aprovação do plano estratégico mais recente da empresa, a política mudou e a companhia voltou a investir na produção nacional. A retomada das plantas do Nordeste é vista como um passo importante para recuperar a capacidade industrial brasileira nesse segmento.

FAFEN Sergipe
A FAFEN Sergipe foi inaugurada em 1982, no município de Laranjeiras, com o objetivo de produzir insumos estratégicos para o setor agrícola, como ureia, amônia e gás carbônico Foto: Unigel/Reprodução

Segundo William França, diretor de Processos Industriais e Produtos da Petrobras, a produção nacional deve ganhar participação relevante nos próximos anos. “As duas FAFENs, juntamente com a Araucária Nitrogenados S.A. (ANSA), instalada no Paraná, responderão por cerca de 20% da demanda de ureia do Brasil. A expectativa é elevar a produção nacional para 35% nos próximos anos, com uma nova planta em construção em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul”, afirmou.

Para o diretor, a retomada da produção tem impacto direto na segurança do abastecimento agrícola. “Atualmente, praticamente toda a ureia consumida no Brasil é importada. Com a produção nacional, ampliamos a oferta no mercado interno, reduzimos a dependência externa e fortalecemos a cadeia produtiva do agronegócio”, destacou.

Produção e impacto econômico

A Petrobras calcula que cada tonelada produzida no país representa menor exposição às oscilações do mercado internacional e maior segurança para produtores rurais.

A Fafen de Sergipe tem capacidade para produzir até 1.800 toneladas de ureia por dia, enquanto a unidade da Bahia pode chegar a 1.300 toneladas diárias. Além do fertilizante, as plantas também produzem amônia e ARLA 32, produto utilizado na redução de emissões de veículos a diesel.

A reativação das unidades já gera cerca de 1.350 empregos diretos e 4.050 indiretos, movimentando a cadeia industrial e logística do setor de fertilizantes.

Decisão determinante

Para o secretário-executivo da Secretariade de Desenvolvimento e Tecnologia (Sedetec), Marcelo Menezes, “a decisão da Petrobras de assumir diretamente a operação das unidades da Bahia e de Sergipe, após o rompimento contratual com a Unigel, foi determinante para esse novo momento. Para viabilizar a produção, a estatal contratou a empresa terceirizada Geman, responsável pela execução das atividades operacionais, sob supervisão de equipes próprias”.

A produção ocorre em plena capacidade, impulsionada pelo aumento da oferta de gás natural, especialmente após a entrada em operação do gasoduto Rota 3. Parte desse novo volume tem sido direcionada às Fafens, fortalecendo a produção de fertilizantes em um cenário internacional adverso.

Marcelo Menezes
Marcelo Menezes, secretário executivo da Sedetec Foto: Ascom/Sedetec

Marcelo destaca que o contexto global, marcado por tensões envolvendo o Irã, elevou os preços do petróleo, do gás e dos fertilizantes, além de comprometer o fornecimento por parte de grandes produtores internacionais. Nesse ambiente de incerteza, mesmo com participação ainda limitada na demanda nacional de ureia, a produção local ganha relevância estratégica.

Os efeitos positivos, segundo ele, vão além da indústria. A retomada da Fafen impacta diretamente a geração de empregos, a arrecadação de impostos e toda a cadeia produtiva associada ao setor de fertilizantes. Isso inclui atividades como transporte, manutenção, além das operações de misturadoras instaladas na região.

Outro ponto destacado é o efeito sobre empresas e serviços locais. A fábrica figura como um dos principais clientes da Deso, devido ao elevado consumo de água, e também contribui para a Sergas, já que a movimentação do gás gera tarifas para a distribuidora estadual.

A reativação da unidade também fortalece o polo de fertilizantes em Sergipe, que inclui a mina de potássio de Taquari-Vassouras, em processo de reestruturação operacional, e cerca de dez misturadoras instaladas principalmente na região de Laranjeiras, Rosário do Catete e Maruim.

Para Marcelo, o conjunto dessas atividades consolida um ciclo positivo para a economia sergipana, ampliando a relevância do estado no setor de fertilizantes e contribuindo para maior segurança no abastecimento nacional.

Histórico das fábricas

A presença da Petrobras no setor de fertilizantes remonta à década de 1970. A fábrica da Bahia foi inaugurada no polo petroquímico de Camaçari naquele período, enquanto a unidade de Sergipe entrou em operação em 1982, no município de Laranjeiras.

Em 2019, as duas fábricas foram hibernadas e posteriormente arrendadas à empresa Unigel, que passou a produzir e comercializar amônia e ureia nas unidades. Em 2023, as plantas voltaram a ser hibernadas.

A hibernação é um procedimento industrial que mantém os equipamentos preservados para permitir uma retomada mais rápida e segura da produção. Após o retorno das unidades à Petrobras, foram realizadas avaliações técnicas, manutenção, testes de segurança e recomposição das equipes operacionais.

A retomada começou a ganhar ritmo no início deste ano. Em Sergipe, a unidade iniciou a produção de amônia no final de dezembro e passou a produzir ureia em 3 de janeiro. Já a planta da Bahia concluiu a manutenção e entrou em processo de comissionamento, com expectativa de iniciar a produção comercial na sequência.

Expansão prevista

Nos próximos meses, a produção nacional deve ganhar novo reforço com a retomada da Araucária Nitrogenados S.A., no Paraná. Com essa unidade, a participação da produção interna pode chegar a cerca de 20% do mercado brasileiro de ureia.

A Petrobras também planeja concluir a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III, em Três Lagoas (MS). Com essa planta em operação, a expectativa é que o país possa atender até 35% da demanda nacional de ureia nos próximos anos.

Para o agronegócio, o avanço da produção interna representa um passo importante para reduzir a vulnerabilidade do Brasil às crises internacionais e garantir o abastecimento de um insumo essencial para a produção de alimentos.

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