Por Antônio Carlos Garcia (*)
A crise que atinge o mercado mundial de suco de laranja já reduziu em cerca de 40% as exportações da Tropfruit para a Europa, segundo o gerente-geral da empresa, Diorane Morais Araújo. A queda está relacionada principalmente à redução do consumo, mas não provocou a paralisação da indústria instalada em Estância, no sul de Sergipe. A fábrica continua produzindo suco de laranja congelado 24 horas por dia e ampliou os estoques para atravessar o período de baixa demanda.
A empresa aumentou em 50% sua capacidade de armazenamento em Sergipe e também aluga frigoríficos na Holanda e em São Paulo. A Tropfruit produz aproximadamente 35 mil toneladas de suco de laranja congelado por safra e compra cerca de 400 mil toneladas de laranja dos produtores.
O cenário ocorre enquanto a citricultura sergipana mantém produção elevada. Sergipe produziu 401,8 mil toneladas de laranja em 2025, segundo o IBGE, alta de 6,2% em relação a 2024. O Estado é o quinto maior produtor brasileiro e o segundo maior do Nordeste. A produção tem dois principais destinos: a indústria de processamento e o mercado de fruta fresca.
Em 2025, a região citrícola sergipana foi a segunda maior fornecedora de laranja para as Ceasas brasileiras, segundo dados divulgados pela Secretaria de Estado da Agricultura, Desenvolvimento Rural e da Pesca (Seagri).
Excesso de suco e queda do consumo
Para Diorane, o principal problema está no desequilíbrio entre oferta e demanda. A Tropfruit exporta para 32 países e, segundo ele, o consumo vem diminuindo nos mercados internacionais e também no Brasil. “A citricultura sergipana, baiana, brasileira e mundial está passando por um momento difícil por conta de excesso de suco no mercado e uma diminuição muito drástica no consumo.”

Na Europa, a redução das vendas da empresa chegou a aproximadamente 40%. “Todos os 32 países estão sofrendo. O consumo está em diminuição e esse consumo não retoma.” A retração aumentou os estoques e pressionou o preço da fruta. Mesmo com a redução das exportações, porém, a Tropfruit mantém a produção em ritmo máximo.
A estratégia é possível graças à estrutura de armazenamento. Além da ampliação dos frigoríficos em Estância, a empresa utiliza unidades alugadas no exterior e em São Paulo. A manutenção das compras de laranja também garante mercado para os produtores, apesar da retração do consumo internacional.
Novos produtos e expectativa para 2027
A Tropfruit também busca novos mercados e produtos para ampliar as possibilidades de consumo. Entre as alternativas estão o suco clarificado e os sucos ultrafiltrados:
“Estamos criando uma série de produtos para tornar o nosso produto mais consumível e isso retomar. Esperamos que próximo ano, que é a próxima safra, esses números mudem. Em 2026 não vai ter a virada, a retomada. Espero que em 2027 a gente traga as boas notícias. Mas para isso precisamos do mercado.”
A pressão também chega ao preço pago pela fruta. Diorane explica que a laranja é uma commodity e que sua cotação é determinada pelo mercado internacional. “A laranja é uma commodity. E por ser commodity, o preço não tem a ver com minha vontade, nem sua vontade, nem do citricultor. É uma bolsa de valores em Nova York que estabelece o preço e essa bolsa oscila por oferta e demanda de consumo.”
Com a oferta elevada em relação ao consumo, a cotação recuou para a faixa de US$ 1,80 a US$ 2, segundo o executivo. O resultado é uma remuneração que, em muitos casos, não cobre os custos de produção. “Eu tenho cliente, por exemplo, que me levava 20 contêineres por mês. Ele está levando cinco, seis, oito.”
Além da queda da demanda, a empresa enfrenta dificuldades logísticas. Segundo Diorane, houve casos em que navios previstos para embarcar a produção não chegaram ao Porto de Salvador. “O navio não veio. Obviamente eu não vou exportar, embora tenha negócio.”
Frete aumenta custo da exportação
Os custos logísticos passaram a pesar ainda mais sobre a cadeia. Segundo Diorane, um contêiner custa atualmente cerca de US$ 3,3 mil para a Europa, quase US$ 5 mil para os Estados Unidos e chega a US$ 15 mil para a China.
Em um ano, o frete de uma carreta para São Paulo aumentou quase 30%. O custo do contêiner subiu 33%, enquanto as despesas alfandegárias e portuárias cresceram 50%.
“Esses custos têm crescido muito. E essa conta às vezes não fecha. Quem paga a conta é a indústria, é o citricultor.”
Fruta fresca amplia mercado
A laranja produzida em Sergipe não depende exclusivamente da indústria de suco. Parte da produção abastece distribuidores, feiras, supermercados e Ceasas. Outra parcela é destinada ao processamento industrial.
A qualidade exigida também varia conforme o destino. Uma fruta com boa aparência para o consumidor não necessariamente apresenta as melhores características para a fabricação de suco.
“Nem sempre uma fruta muito bonita é uma fruta boa de suco. Nem sempre uma fruta feia também é ruim de suco”, afirma Diorane.
Na Tropfruit, a matéria-prima passa por análises físico-químicas, sensoriais e microbiológicas. São avaliados parâmetros como acidez, açúcares, rendimento, cor, tamanho e peso. “A gente precisa fazer a extração do suco para poder conhecer o suco.”
Produtor recebe menos que o custo de produção
A diferença entre o preço pago ao produtor e o valor do produto no varejo é outro ponto destacado por Diorane. Segundo ele, enquanto a laranja pode ser comercializada na propriedade por cerca de R$ 0,30 o quilo, chega a R$ 3 no mercado.
“Você vê às vezes numa feira, você chega lá e vê 1 kg de laranja por R$ 3, mas na fazenda está custando 30 centavos. Por que dez vezes mais caro?”
O executivo afirma que dois quilos de laranja produzem aproximadamente um litro de suco, mas o preço final aumenta significativamente após o processamento e a comercialização. “As coisas ficaram caras para o consumidor, mas está barato para o produtor.”
Suco na merenda escolar
Como alternativa para ampliar o mercado interno, Diorane defende a inclusão do suco de laranja produzido no Estado na merenda escolar. Segundo ele, a proposta já foi discutida com secretários, governadores e representantes de diferentes áreas do governo, mas ainda não avançou. “Por que não temos suco de laranja na merenda escolar? Para você ter uma ideia, em 2026 ainda não temos.”
Sergipe possui 16 municípios citrícolas e milhares de propriedades ligadas à atividade. Diorane estima que uma rede com mais de 300 mil alunos poderia representar uma demanda de aproximadamente 60 mil a 70 mil litros de suco por dia.
“Não é somente o número em si, mas a importância de se colocar com uma dieta, com um hábito na criança, o suco de laranja.” Ele também defende a participação de instituições como Sebrae, Senar, Senac, Senai, Sesi, institutos federais e universidades em iniciativas voltadas para a cadeia produtiva.
Crise chega ao produtor
O impacto da queda dos preços aparece diretamente nas propriedades. Hunaldo Simões Costa, produtor de laranja-pera em Jaguaribe, na Bahia, produz entre 2 mil e 2,5 mil toneladas por ano e considera o atual momento um dos mais difíceis enfrentados pela atividade. “Em 2024 tivemos um ano espetacular. 2025 até o meio do ano também foi bom. E nós temos um ano de crise.”

Para Hunaldo, as tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos não foram responsáveis pelo problema, já que a citricultura ficou isenta. Na avaliação dele, a crise está relacionada principalmente à alta dos preços em 2024, que teria estimulado o envio de suco de baixa qualidade ao exterior e afetado o consumo, principalmente na Europa.
Com a retomada da produção, o mercado externo já estava retraído. “Então é uma fase que todos nós esperamos que passe e muito breve.” Na região onde produz, a laranja está sendo comercializada atualmente por cerca de R$ 400 a tonelada. Depois de descontar aproximadamente R$ 130 a R$ 140 de colheita, restam entre R$ 250 e R$ 260 ao produtor.
O valor está abaixo do custo de produção, estimado por Hunaldo entre R$ 500 e R$ 600 por tonelada. Para ele, a atividade só seria economicamente viável com a tonelada da fruta a partir de R$ 800. “Acho que pensar numa laranja hoje a menos de R$ 800 é pensar numa citricultura inviável.”
A produção de Hunaldo é destinada principalmente a Salvador e à distribuição pelas Ceasas. Parte da fruta fora do padrão para o mercado de mesa pode ser encaminhada à indústria. Para o produtor, a crise atinge especialmente os pequenos e médios citricultores.
Vantagem sanitária

Para José Hugo Campos de Lima, engenheiro agrônomo, mestre e especialista em citricultura, o atual momento é provavelmente o mais difícil enfrentado pelo setor na região nos últimos nove anos. Ele ressalta, porém, que a crise não é exclusiva do Nordeste. “O problema é global. A gente vê que o Sudeste está passando a mesma dificuldade que o Nordeste com relação a escoar suco de laranja.”
Na avaliação de Hugo, aumentar o número de indústrias não resolveria o problema enquanto o consumo permanecer retraído. “Se tivesse mais indústrias, ia estar estocando suco, porque não está vendendo.”
O Nordeste, entretanto, possui uma vantagem sanitária em relação ao principal polo citrícola brasileiro: a ausência do greening, doença que provocou fortes impactos sobre a citricultura paulista e da Flórida.
Greening aumenta custos
O HLB, conhecido como greening, é uma das doenças mais graves da citricultura mundial. Segundo Hugo, cerca de 50% das plantas paulistas estariam infectadas.
Sergipe e Bahia, por outro lado, não enfrentam atualmente a doença. O psilídeo, inseto transmissor do greening, também está presente nos pomares nordestinos, mas, segundo o especialista, a bactéria responsável pela doença não está presente na região.
“Somos um grande polo produtor de tangerinas, que são muito sensíveis a essa doença. E se tivesse que expressar sintomas, já teria aparecido nesses pomares de tangerina.”
O greening também elevou os custos de produção em São Paulo. Segundo Hugo, há produtores que realizam pulverizações semanais para controlar o vetor. Ele estima que o custo para tratar um hectare em São Paulo esteja entre R$ 30 mil e R$ 40 mil. No Nordeste, a operação poderia ser realizada com R$ 15 mil a R$ 20 mil, podendo chegar a cerca de R$ 25 mil em condições de maior investimento.
“Esses cortes que o Nordeste pode fazer, São Paulo não está podendo fazer.” Para Hugo, a diferença abre espaço para o avanço da citricultura nordestina.
“Minha aposta é tão grande no setor citrícola nordestino que eu vejo novas indústrias surgindo, mercado de suco fresco se abrindo, as próprias empresas que já estão aí progredindo e ampliando o mercado delas.”
Organização será decisiva
Na avaliação de Hugo, a capacidade de atravessar o período de preços baixos não dependerá necessariamente do tamanho da propriedade.
“Quem vai sair da atividade não é pequeno, grande ou médio produtor. É o que está organizado.”
Controle sanitário, tecnologia e gestão serão fundamentais para manter a atividade. Durante o evento, a consultoria também apresentou alternativas ao controle exclusivamente químico, como extratos botânicos e controle biológico com fungos e bactérias, com o objetivo de reduzir a dependência de defensivos e preparar os produtores para novos desafios.
Recuperação pode começar em 2027
A recuperação do mercado depende, principalmente, da retomada das vendas internacionais e da redução dos estoques de suco. “Enquanto não começar a melhorar as vendas internacionais, o mercado não vai melhorar.”
Hugo acredita que 2027 pode representar um ponto de equilíbrio para o setor. Segundo ele, parte da produção paulista deve deixar a atividade nos próximos anos, o que poderá aumentar a demanda pela fruta produzida no Nordeste.
Ao mesmo tempo, a conquista de novos mercados pela laranja nordestina, inclusive no próprio mercado paulista, amplia as possibilidades para produtores de Sergipe e da Bahia.
A crise, portanto, impõe um período de preços baixos e consumo retraído, mas também evidencia uma vantagem estratégica do Nordeste: uma cadeia produtiva que mantém produção, possui mercado de fruta fresca e, até o momento, permanece livre do greening.
Só Sergipe Notícias de Sergipe levadas a sério.



