terça-feira, 27/10/2020
Henrique Maciel, presidente da Anoreg: cartórios na vanguarda da tecnologia

“Cartórios sergipanos estarão na vanguarda da tecnologia”, diz presidente da Anoreg

A Associação dos Notários e Registradores (Anoreg\SE), entidade que representa os 127 cartórios que geram cerca de 2 mil empregos em Sergipe, está colocando o segmento na vanguarda em termos tecnológicos. Este ano, segundo o presidente Antônio Henrique Buarque Maciel, a comunidade terá disponível um aplicativo e um site onde poderão resolver todas as demandas. Afinal, o cartório acompanha o cidadão desde o seu nascimento – ao emitir a certidão de nascimento – até a sua morte, com o atestado de óbito. Nesse lapso temporal, todos irão a um cartório em vários momentos  da vida.  Portanto a virtualização  deste mercado é um caminho sem volta, embora as estruturas físicas permaneçam. Na última quarta-feira, numa iniciativa do Movimento É de Sergipe,  o diretor de Tecnologia da Informação e Qualidade da Anoreg, Gabriel Campos de Souza, falou sobre o Blockchain. uma tecnologia de registro distribuído que visa a descentralização como medida de segurança, durante um almoço para empresários. Nesta oportunidade, o presidente da Anoreg Antônio Henrique Maciel também falou das inovações que estão sendo implantadas nos cartórios sergipanos. Logo após o almoço, Henrique Maciel, como é mais conhecido, conversou com o Só Sergipe.

Cartórios: mais agilidade para resolver as contendas financeiras

SÓ SERGIPE – Muitas pessoas consideram caros os serviços prestados pelos cartórios e que eles têm um lucro excessivo. Como ocorre a divisão desses lucros? Quanto o Estado recebe dos cartórios?

HENRIQUE MACIEL – Uma grande parte do valor cobrado pelas taxas cartorárias fica com o próprio governo. Aqui em Sergipe, em torno de R$ 100,00 que se paga, R$ 45, 00 vai para o Estado e R$ 55,00 retorna para os cartórios. E é com esse valor que os cartórios vão pagar os seus custos com aluguel, funcionários, etc. Bem diferente do que acontece no mercado tradicional, onde o empresário dita o valor do seu produto, nos cartórios não taxamos os valores. Eles são taxados por lei. Muitas vezes existem distorções: serviços que deveriam ser cobrados valores maiores, são mais baratos. E vice-versa. Os cartórios bancam a gratuidade com registro de nascimento e óbito de pessoas carentes.  Há mais de 18 anos que no Brasil não se cobra registro de nascimento. E nós somos um dos únicos países do mundo em que acabamos com o sub-registro. Ou seja, menos de 1% da população não tem registro de nascimento.

SS – O senhor falou que determinados serviços são mais caros e outros mais baratos. Poderia dar um exemplo?

HM – Normalmente, as escrituras chegam a ser mais caras. Se você pegar a tabela de custos e emolumentos do Tribunal de Justiça, nas escrituras de imóveis, as mais caras são de imóveis de R$ 500 mil, R$ 800 mil, R$ 1 milhão. Quem tem menos, paga menos. Quem tem mais, paga mais. Então existe essa isonomia em relação ao custo do imóvel. Os demais serviços estão dentro um relativo valor. Existem alguns serviços que podem baixar de preço para ter volume de venda. Tem serviço sem preço atrativo e o cidadão não vai ao cartório, porque não compensa.

SS – Qual seria esse serviço?

HM – Vou citar um exemplo: carteira de trabalho. Se o cidadão perder a carteira de trabalho, para se aposentar vai ter que sair comprovando os lugares onde trabalhou. Mas se ele fosse ao cartório e registrasse aquela carteira, este documento estaria guardado para o resto da vida. Mas o cidadão recebe um salário mínimo, vai gastar R$ 140,00 para registrar uma carteira de trabalho? Faz falta na feira. Se eu baixo para R$ 50, 00 esse serviço, consigo registrar a carteira dele e vou lhe prestar um serviço necessário.

Por segurança, o cidadão pode registrar a carteira de trabalho no cartório Foto: Arquivo Agência Brasil

SS – Não seria interessante, então baixar esses valores? Qual o empecilho para isso? Seria do Tribunal de Justiça?

HM – Vou explicar como funciona. Existe uma regra de trabalho interno no próprio Tribunal de Justiça que você tem de passar informação para a Corregedoria. Ela elabora um projeto, às vezes nos ouvindo ou não. O Pleno do Tribunal vai decidir, e ali (no Pleno) há divergências, porque cada desembargador pensa de uma maneira. Precisaria de uma explicação maior para poder a coisa fluir de forma mais tranquila. Devemos trabalhar mais. O importante é levarmos essa discussão com mais amplitude e que esse conhecimento seja mais disseminado e possamos nos fazer compreender pelos desembargadores do Tribunal de Justiça.

SS- Se reduz o valor dos serviços, o percentual que o Tribunal de Justiça recebe dos cartórios também diminui.  Ao não concordarem com a redução, não estariam os desembargadores do TJ olhando para o próprio umbigo e esquecendo-se do povo?

HM – Não é bem assim. Quando eu cobro mais barato por um serviço, o volume aumenta. Mais pessoas teriam acesso talvez, falta um diálogo maior da Anoreg para explicar melhor para cada desembargador.

SS – Temos cartórios muito grandes em Aracaju e pequenos no interior. Logo, uns têm lucros e outros não.

HM – Nas grandes cidades, com maior massa populacional, as pessoas vão buscar os cartórios. Logo, o serviço é bem maior e eles estão mais bem preparados. Nas cidades é obrigado ter cartório. O de registro civil, por exemplo,  tem que estar em todos os municípios para atender à população. Nós hoje estamos em todos os municípios do país. Não tem outra instituição que esteja tão presente como os cartórios. Existem lugares aonde não chega a Justiça, não chega a polícia, mas você vai encontrar um cartório que serve até como orientador jurídico, porque não tem advogado.  Mas também existem cidades gigantescas como São Paulo, Salvador onde há grandes cartórios.

SS – Aqui em Sergipe são quantos cartórios?

HM – São 127 cartórios, mas 65% deles estão sendo titulares porque o cidadão chega à conclusão que os valores são muito baixos, não compensa ficar, faz concurso público e vai para outro lugar. O titular do cartório é notário ou registrador. Notas vêm  de procuração, reconhecimento de firma, autenticação e escritura. E registro são os atos de registro. Os cartórios podem ter os dois serviços. E tem a parte de tabelionato.

SS – A falta de um titular  traz prejuízo à população?

HM – Não, porque existem os substitutos. Os cartórios seguem funcionando normalmente.

SS – Como os cartórios estão se preparando para a tecnologia blockchain e demais avanços?

HM – A Anoreg tem o papel fundamental de fomentar a qualidade e a busca da melhoria do atendimento e da tecnologia. Hoje, a tecnologia não tem volta. Nós, na área cartorária não devemos ficar na retaguarda. Temos que partir, também, para a vanguarda. Oferecer tecnologia para que o cidadão não precise sair de casa, resolva no seu telefone celular. Estamos buscando integrar o serviço cartorial à tecnologia, dando uma maior qualidade, agilidade, reduzindo o custo para o cidadão. Isso porque, na medida em que sai de casa, paga transporte, estacionamento, etc. Eu fui ao centro da cidade e paguei R$ 12 de estacionamento e fiquei somente uma hora. Se posso resolver algo sem ir ao centro, ganho tempo, não pago transporte ou estacionamento.

SS- Com essa tecnologia, cada vez mais crescente,  os cartórios um dia passarão a ser virtuais, como ocorre com os bancos?

HM – A virtualização é uma tendência, mas os cartórios vão continuar existindo fisicamente. Em meu cartório, em Nossa Senhora da Glória, faremos o atendimento eletrônico. Vai poder agendar um horário, se precisar de mais rapidez já pode começar a digitar informações para uma procuração, um registro de nascimento e quando chegar ao cartório nós fazemos a correção, já vai facilitar. Você está em casa, quer adiantar aquele trabalho e chega com quase tudo pronto, esse serviço vai estar disponível. Estamos fazendo isso em todos os cartórios. Num futuro bem próximo isso será uma realidade em Sergipe.

Os cartórios físicos vão resistir à tecnologia

SS – Será que num futuro próximo teremos, também, um aplicativo?

HM – Isso já vai ter em 2020. A central está pronta. Estará no site  www.cerisergipe.com.br  e vamos colocar isso num telefone celular. Teremos a central imobiliária, a central RTD (Registro de Títulos e Documentos) e a de protestos. Aí, depois, vamos fazer um site só. O Cartório Digital vai ser com todos os cartórios.

SS – Mais algum outro serviço?

HM – A tendência agora, com essa desburocratização da judicialização, são os serviços da Justiça e do Estado começarem a migrar para os cartórios. Em 2020 vamos fazer a parte de comunicação de venda do Detran. Ou seja, você vende um carro para um terceiro e tem 30 dias parar ir ao Detran comunicar a venda. Porque se esse carro atropelar alguém, o dono vai responder; o imposto continua no nome do dono. No cartório, vai ter a possibilidade de, na hora de fazer o reconhecimento de firma na hora da venda, já fazer a comunicação de venda no próprio cartório. Outro serviço que está migrando é conciliação e mediação. Os processos que demoram no Tribunal, começaremos a ter um adiantamento no cartório para evitar que essas lides sigam para o judiciário.  O usucapião demorava dois a três anos no Judiciário, hoje somente dois ou três meses no cartório estará resolvido. Divórcio era feito no Judiciário, e hoje se faz em um dia no cartório.  O apostilamento de quem vai para o estrangeiro é feito em cartório, mas antes tinha que procurar tradutor, ir ao consulado em Salvador ou Recife. Hoje os cartórios fazem isso. Perceberam que fazemos serviços com mais galhardia que o Estado e colocaram para nós. O CPF já é feito nos cartórios. As crianças ao serem registradas já saem com o CPF. E quem faz segunda via da certidão e não tinha o CPF, nós já lançamos imediatamente. Os cartórios, em parceria com a Receita Federal, é que fazem a emissão do CPF gratuitamente para a sociedade. Temos uns oito ou nove serviços gratuitamente.

 

 

 

 

Leia Também

Estácio promove mais uma edição do evento “Mês da Carreira”

Desta terça-feira (27) até o próximo dia 30, a Estácio – uma das maiores e …