sábado, 30/05/2026
O círculo da vida
O círculo da vida Imagem: IA

Sou caminhante; ando no traçado do tempo

Compartilhe:

 

Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Os dias seguem no varal do tempo, sem dar satisfação. Maio se foi, junho está à porta.  Sigo observando meu entorno, sem compreender muito. O tempo não precisa que eu entenda nada.

Sou apenas um caminhante, que anda no traçado do tempo, em busca de mim mesmo. Sem saber nada e com muito a aprender. Mesmo curioso com a vida, “todas as vezes que penso que sei as respostas, ela embaralha tudo”, cito Luiz Fernando Veríssimo.

A vida não acontece em linha reta; ela dá voltas. E, nas voltas que dá, todo mundo tem sua vez de ficar de cabeça para baixo.

Me nutro de Clarice Lispector: “Depois do medo, vem o mundo”. Sigo com medo, empurrado pelo tempo. Às vezes tenho medo de seguir em frente, de ir sozinho, em busca do melhor. Depois, com calma, percebo que seguir em frente é a opção certa.

“Se a vida não for fácil pra você, trate de ficar forte”, ecoa o conselho de minha saudosa mãe, Maria da Conceição, para quem a vida nunca foi mamão com açúcar.

Diante de inúmeras situações que não posso mudar, tento acionar o botão do silêncio. Em um mundo cada vez mais barulhento, o silêncio é um luxo reservado a poucos.

Silêncio, essa presença tão mal compreendida pela modernidade tagarela, não é ausência, é potência em repouso. Nele habita uma forma de linguagem mais sutil do que qualquer gramática, mais honesta do que qualquer retórica. Ao saber distinguir entre o silêncio autêntico e o simples mutismo, há algo decisivo: que o ser genuíno da fala se preserva frequentemente na contenção, e que o discurso mais pleno é aquele que sabe o que não deve dizer. O silêncio, quando verdadeiro, é um templo, e sua arquitetura se ergue sobre o não dito, sobre o intervalo entre o impulso de falar e a escolha de calar, intervalo em que o pensamento, não domesticado pelo signo, permanece vivo em toda a sua ambiguidade fecunda. Se falar é prata, o silêncio é ouro. Observo no meu entorno todos corridos, apressados; não entendo aonde querem chegar.

Bestialmente aceleramos o tempo; parece que estamos constantemente em busca de um senso de propósito e realização. É comum ouvir amigos dizerem que precisam estar sempre ocupados com alguma atividade importante, seja ela no trabalho ou em seus hobbies e/ou projetos pessoais. Isso me leva a pensar que, a todo momento, estamos fazendo algo importante e que, na busca por ressignificar nossa existência. Ledo engano. Além de assoberbados, estamos exaustos.  Ando enfadado de mim.

Na terça-feira, 26/05, a convite do escritor carioca, Paulo Panesi, participei de uma live, com Vera Costa, colega da faculdade de Agronomia e amiga de jornada. Ela é moradora de Barreirinhas, santuário ecológico. Falamos do tempo como um ativo a nosso favor. E como aproveitar os dias, sem pressa, pois a vida acontece durante nossas tempestades diárias.

Bem-abençoado todo aquele que tem tempo para realizar pequenos desejos.

É tempo de sair do trilho e entrar na trilha. O trilho é seguro, mas alguém já trilhou por ali. O trilho são padrões, crenças herdadas. Comportamentos repetidos. Tudo previsível. Tudo conhecido. A trilha exige presença, coragem e decisão. Na trilha não há garantia. Nela você precisa ouvir a si mesmo. Talvez seja por isso que na trilha a vida ganha profundidade.

Existem momentos em que o trilho é necessário, mas a vida perde sentido quando não temos coragem de sair dele. É neste momento que a trilha chama.

Porque chega uma hora em que a trilha chama, é quando a vida acontece.

“Não tenho pressa. Pressa de quê? Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.

Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas, ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra. Não; não sei ter pressa.

Se estendo o braço, chego exatamente aonde o meu braço chega. Nem um centímetro mais longe. Toco só onde toco, não aonde penso.

Só me posso sentar onde estou. E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras, mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa, e vivemos vadios da nossa realidade.

E estamos sempre fora dela porque estamos aqui”,  Alberto Caeiro.

“O caminho se faz caminhando”, cito Antônio Machado, poeta espanhol.

 

Compartilhe:

Sobre Luiz Thadeu Nunes

Avatar photo
Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br

Leia Também

O amor não tem idade

Encontro em um domingo chuvoso

  Por Luiz Thadeu Nunes (*)   Há um equívoco persistente — e profundamente limitador …

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WhatsApp chat