Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)
Às vésperas da 98.ª cerimônia de entrega dos Academy Awards (Oscar), destaco um dos grandes sucessos da indústria cinematográfica internacional. Trata-se do filme Lawrence da Arábia que é de 1962. Foi vencedor de sete desse tipo de premiação, incluindo a de Melhor Filme. Além de belíssimo, cumprindo a sua função precípua de entreter, no que se refere ao tempo presente, no entorno das questões bélicas envolvendo parte do Oriente Médio e os Estados Unidos da América, é uma excelente oportunidade para pensar e repensar alguns conceitos e preconceitos e aprender, com o filme, lições de empatia, diplomacia, cordialidade, intercâmbio cultural e humanidade, e, claro, de História, Geografia, Cultura e Religião.
Uma das primeiras cenas do filme, por si só, já chama a atenção quando Dryden (Claude Rains), um diplomata britânico do Escritório Árabe assim se expressa após um longo debate com relação a procedimentos militares na Arábia Saudita, durante o contexto da Primeira Guerra Mundial (1914-1918): “As coisas grandes têm pequenos inícios”. Disse-o dirigindo-se a Edmund Allenby (Jack Hawkins), sobre enviar ou não o Tenente Lawrence para missão no deserto.
Interpretado por Peter O’Toole (1932-2013), o Tenente T.E. Lawrence é um oficial britânico excêntrico, erudito e culto. Apesar da brilhante interpretação, O’Toole não levou o prêmio Oscar de Melhor Ator no referido filme. Lawrence é designado a se infiltrar nas tribos árabes daquele conflito bélico, ganhando a confiança dos povos ali presentes, inclusive de seus líderes. Inicialmente do sherif Ali ibn el Kharish (Omar Sharif, famoso por seu papel em Dr. Jivago, 1966); seguido por um líder beduíno da tribo Howeitat, Auda abu Tayi (Anthony Quinn, ator mexicano, naturalizado norte-americano, conhecido por ter feito filmes de Faroeste); e o Príncipe Faiçal (interpretado por Alec Guinness), líder da Revolta Árabe contra o Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial.
Sobre este último, destaque para um dos ricos diálogos que ele estabelece no filme com o Tenente Lawrence, notadamente o primeiro em que ele afirma com tom descrente e melancólico: “Meu pai declarou guerra à Turquia. Não os ingleses. Meu pai está velho. E eu anseio pelos jardins desaparecidos de Córdoba. Mas, a guerra vem antes dos jardins”. Aqui, chamo a atenção para os que julgam até hoje alguns povos do Oriente Médio como atrasados, sanguinários e toda uma “sorte” de preconceitos típicos do mundo ocidental e, de modo particular, de boa parte dos norte-americanos.
Vale salientar que o Oriente Médio, hoje — onde podemos localizar países como Arábia Saudita, Irã, Iraque, Turquia, Emirados Árabes Unidos, Catar, Israel, Jordânia, Líbano, Síria, Kuwait, Omã, Bahrein, Iêmen, além do Egito —, é uma região onde surgiu o chamado mundo civilizado, por volta de 3500 a.C, quando existiram povos como sumérios, acádios, babilônios, assírios, caldeus, fenícios, hebreus e persas. Estes últimos, atual território do Irã, atacado sem dó e sem piedade pelo imperialismo norte-americano e seus parceiros, a exemplo do atual Estado de Israel.
Tudo isso para dizer, inicialmente, que há uma certa subestimação em relação à capacidade intelectual, religiosa e cultural de boa parte dos atuais países do chamado Oriente Médio, mais de perto, do Irã, assim chamado a partir do dia 21 de março de 1935, sob o comando de Reza Shah Pahlavi (1878-1944). Você pode até discordar do tipo de regime que é imposto a este país pelos Aiatolás, desde 1979, do tipo teocrático; e até mesmo de um eventual desejo deste país vir a produzir bomba nuclear para atacar o seu principal rival, Israel, e até mesmo o “grande satã”, como se referem aos EUA. Mas, usar tais argumentos para acabar com seu povo (incluindo crianças) e suas estruturas é algo que vai além do limite da tolerância entre os povos.
Para tanto, o filme Lawrence da Arábia se torna, por meio de seu protagonista, Tenente Lawrence, uma grande referência de como é possível vencer a intolerância belicosa: primeiro, com diplomacia, diálogo franco e aberto (de preferência em nível da civilidade que respeite diferenças culturais e religiosas); e, se necessário, com tática militar eficiente, que garanta, se é que isso seja possível, o direito à defesa das nações e ao menor número de baixas fatais humanas.
Em tempos de brucutus à frente de nações importantes, Lawrence da Arábia é um convite a inúmeras reflexões sobre o passado, o presente e o futuro do Oriente Médio. Um futuro incerto e nebuloso para toda a humanidade, se o presente não der conta de responder às suas demandas, com civilidade, desejo de paz e respeito aos direitos humanos e à dignidade humana no que ela tem de mais preciosa: que é o direito à vida.
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