Por Jader Abrão (*)
Sob a invocação do Grande Arquiteto do Universo, e à sombra do Esquadro, do Nível e do Compasso, proponho uma reflexão que toca o âmago da nossa caminhada iniciática: a ideia de perfeição e o modo como o maçom deve compreendê-la para viver em paz consigo mesmo.
Desde os tempos mais remotos, o homem interroga a si próprio sobre o seu grau de completude. Muitas tradições espirituais responderam a essa inquietação afirmando que o ser humano jamais está pronto, jamais está quite, permanecendo sempre em dívida diante da Divindade. Tal concepção, embora respeitável, frequentemente gera culpa, angústia e uma sensação permanente de insuficiência, podendo até mesmo contribuir para, inclusive, deflagrar a tão temida e contemporânea “depressão”.
A Maçonaria, sob a minha humilde análise, trilha um caminho distinto. Ela – a Maçonaria – não se estrutura sobre dogmas imutáveis, mas sobre símbolos vivos com horizontes efêmeros e simpáticos à melhor evolução do ser, sem verdades absolutas e limitadas. Não educa pelo medo, mas pela consciência. Não constrói homens a partir da ideia de falta, mas filosoficamente a partir da ideia de edificação.
A Maçonaria não exige do homem a perfeição absoluta, mas o maior equilíbrio possível de seus pensamentos e comportamentos, dentro das condições concretas da sua vivência.
Desde o primeiro contato com a Pedra Bruta, o maçom é advertido de que jamais atingirá no plano terreno uma perfeição total, acabada e divina. Essa advertência não é uma condenação, é uma constatação que liberta. A Maçonaria não exige do obreiro aquilo que ele não pode oferecer, exige apenas o trabalho honesto, constante e consciente.

O Malhete nos ensina a agir com firmeza, mas não com violência. O Cinzel, a perseverar com paciência tomando sábias resoluções perante as determinações energéticas que o Maço nos impõe. O Esquadro não nos cobra linhas irrepreensíveis, mas retidão de intenções. O Compasso não nos manda abarcar o infinito, mas delimitar nossos desejos, mantendo-os dentro da justa medida. Essa coletânea de ferramentas ilustram as principais habilidades sociais e intelectuais que o homem deve aprimorar e praticar sempre.
Como ensinava Aristóteles:
“A virtude é um hábito; tornamo-nos justos praticando a justiça.”
Se a virtude nasce do exercício cotidiano, então o maçom que trabalha sua Pedra, ainda imperfeita, já vive a perfeição possível daquele estágio. Não se trata de uma perfeição ideal ou utópica, mas de uma perfeição concreta, vivencial e moralmente adequada às ferramentas que detém.
Aqui se faz necessário afirmar um ponto central desta reflexão: a Maçonaria não concebe o homem como um ser eternamente em falta. O maçom não é definido por aquilo que ainda não alcançou, mas pela consciência do trabalho que decidiu assumir e que verdadeiramente pratica. Ele não é acolhido quando termina a obra, ele é acolhido porque decidiu trabalhar.
A noção de que “nunca estamos prontos”, quando internalizada, gera de forma sutil uma sensação de menor valia espiritual, emocional e moral, como se o valor do homem estivesse sempre projetado para um futuro distante e inalcançável. A Maçonaria rompe com essa lógica, na qual o obreiro não é cobrado pelo que ainda falta lapidar, mas reconhecido por tudo aquilo que já transformou em si desde o instante solene da sua Iniciação.
Quando o homem é recebido como Aprendiz, ele não é declarado indigno ou incompleto, mas apto ao trabalho. E estar apto ao trabalho já é possuir dignidade, valor e lugar no Templo. A Ordem não diz ao maçom: “quando fores perfeito, serás aceito”; ela diz: “porque aceitaste trabalhar, já fazes parte da Obra”.
Um fundamento essencial: o aprimoramento maçônico não nasce da cobrança que oprime, mas do acolhimento fraterno que fortalece. Não nasce da culpa que pesa, mas da consciência que ilumina. O maçom precisa encontrar na Ordem não apenas exigência, mas conforto moral e espiritual, pois somente um espírito em paz consegue lapidar-se com constância, alegria e verdade.
O Esquadro não humilha a Pedra por não ser reta, ele a orienta. O Compasso não pune o excesso, ele o limita com sabedoria. Assim também a Maçonaria não diminui o homem por suas imperfeições, mas lhe oferece instrumentos para conviver com elas de forma consciente, virtuosa e reparadora.
As Escrituras já reconheciam essa condição humana quando afirmam em Eclesiastes 7:20:
“Na verdade, não há homem justo sobre a terra que faça o bem e nunca peque.”
Desse modo é possível afirmar que o homem justo é reconhecido não pela ausência de falhas, mas pela retidão das suas intenções e do seu caminhar.
Por isso, o maçom não deve viver triste, angustiado ou abatido, como se estivesse condenado a jamais atingir o ápice de um ser pleno, iluminado e divino. A tristeza permanente nasce da culpa e a culpa não é instrumento maçônico. O que nos move é a consciência desperta, é o olhar firme no Delta tendo os passos retos rumo ao sol.
É nesse contexto que reafirmo, com clareza, que o maçom não deve temer o Grande Arquiteto do Universo. O temor nasce da ignorância, não do conhecimento. A relação do obreiro com o G∴A∴D∴U∴ não se constrói pelo medo de um julgamento que queima, mas pela reverência à Luz que orienta. A Luz maçônica não é o fogo que consome, mas a chama que esclarece; não é o raio que fulmina, mas o lume que revela o caminho.
Sacralizar cada aspecto da existência — o trabalho, a família, os amigos, a dor, a alegria, a vitória, o fracasso — é reconhecer que toda experiência vivida se transforma em instrumento de crescimento oportunizado pelo G.:A.:D.:U.:, o que nos faz espelho da Luz que salva, não da luz que queima.
O Imperador-filósofo Marco Aurélio nos ensina:
“Não percas mais tempo discutindo sobre o que é um homem bom. Sê um.”
A Maçonaria traduz esse ensinamento em prática: não nos pede perfeição futura, mas coerência presente.

Quando praticamos o V∴I∴T∴R∴I∴O∴L∴ — Visita Interiora Terrae, Rectificando Invenies Occultum Lapidem, que em português se traduz “Visita o interior da Terra, retificando, encontrarás a Pedra Oculta” —, somos conduzidos ao interior de nós mesmos e ali não encontramos um ser condenado, mas uma Pedra Oculta em plena lapidação. Retificar não é eliminar toda imperfeição, mas ordenar o nosso interior, dando sentido, equilíbrio e direção à própria existência.
Como afirmou Santo Agostinho:
“Não saias de ti; volta para dentro. No homem interior habita a verdade.”
No Rito Escocês Antigo e Aceito, a Luz é concedida gradualmente, porque o homem só pode sustentar aquilo que compreende. Cada Grau amplia a consciência e aprofunda a responsabilidade. Exigir de si mesmo o que pertence a outro Grau é romper o equilíbrio da Obra.
O maçom é perfeito no Grau que ocupa, desde que viva com fidelidade os símbolos, deveres e ensinamentos desse mesmo Grau. A Pedra do Aprendiz não deve ser julgada pelos critérios da Pedra do Mestre, cada uma cumpre sua função no tempo certo.
O Apóstolo Paulo nos recorda em 1 Coríntios 3:9:
“Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois edifício de Deus.”
Não somos o Grande Arquiteto. Somos obreiros conscientes.
E como nos ensina Immanuel Kant:
“Duas coisas me enchem a alma de admiração: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim.”
É essa lei moral interior que a Maçonaria desperta, orienta e fortalece.
Portanto, o maçom que honra o compromisso firmado no dia de sua Iniciação — que lapida seus vícios, cultiva virtudes e vive segundo os princípios da fraternidade, da justiça e da tolerância — já é perfeito no estágio em que se encontra, porque vive em coerência com a Luz que recebeu, levantando Templos à Virtude e cavando masmorras aos vícios.
Que compreendamos que a perfeição maçônica não está no fim do caminho, mas na fidelidade ao método. Não está na ausência de falhas, mas na disposição constante em corrigi-las. Não está na cobrança que oprime, mas no acolhimento que fortalece.
Não carregues a culpa como virtude. A Obra não se edifica sobre o peso, mas sobre a consciência.
Que trabalhemos nossas Pedras com alegria. Que empunhemos o Malhete com equilíbrio, o Maço com paciência, o Cinzel com isonomia, o Compasso com tolerância, o Nível com justiça e o Esquadro com sabedoria. E que, sempre ao encerrarmos nossos trabalhos, possamos repousar em paz, certos de que estar em obra já é estar em harmonia com o Grande Arquiteto do Universo.
Que assim seja!
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