Por Valtênio Paes de Oliveira (*)
Numa partida de futebol, em 30 de agosto, entre Santos e Corinthians, uma criança de oito anos, que assistia ao jogo, conduzia uma faixa que dizia: “Neymar, amo o Corinthians, mas sou seu fã…”, ao mesmo tempo que pedia que ele lhe presenteasse com sua camisa do jogo. Ao final da partida, o atleta atendeu ao pedido e ofertou a camisa. A estúpida surpresa veio logo depois. Lunáticos e estúpidos torcedores do Corinthians agrediram, com palavras e gestos, o menor e seus genitores, que precisaram de escolta policial para irem para casa.
Xingamentos, hostilizações, ameaças e agressões verbais deixaram familiares e menor em situação pavorosa, de modo que se valeram da proteção policial para sair do estádio. Fala-se que o Corinthians impediu os agressores de assistirem aos seus jogos através do Fiel Torcedor, e a polícia identificou os agressores, que vão responder criminalmente. Que a imprensa acompanhe este julgamento e divulgue a aplicação da lei.
Há 300 mil anos, os humanos passaram a viver em grupos para depois se organizarem em sociedade, há mais de doze mil anos. Com a Revolução Cognitiva, linguagem e cooperação se intensificaram em busca do bem-estar coletivo. A reunião em grandes estádios de futebol, no século XX, retrata a celebração da boa disputa como forma de congraçamento. O esporte não guarda lugar para agressores.
Os humanos, desde sua ancestralidade, sempre viveram em grupo por serem seres literalmente sociáveis. A convivência coletiva impõe a necessidade da tolerância, da civilidade, da amizade, do respeito ao oposto e do diálogo. Num estádio de futebol, onde todas as pessoas, crianças e adultos, comparecem para apreciar o talento esportivo, jamais cabe a agressão, pior ainda, a agressão contra crianças.
Setores da população estão fazendo da agressividade um cardápio diário terrível. Movidos pelo individualismo exacerbado e escondidos nas redes digitais, usam gestos, palavras e imagens para a prática da agressão como rotina diária. Respeito, solidariedade e amizade para uma boa convivência, inerentes à prática do esporte, estão sendo eliminados em detrimento da prática do ódio.
Segundo o Observatório Social do Futebol, em 2023 foram registrados, no mínimo, 158 casos de violência no futebol, sendo 38 ocorrências no Rio de Janeiro. Em 2024, os registros dobraram, chegando a 303. Dados desde 1988 confirmam 260 mortes. Números assustadores, contraditórios e crescentes, porque uma atividade recreativa e popular deveria, incondicionalmente, ser pacífica.
Na esteira da violência nos estádios estão embutidos inúmeros outros atos de violência resultantes da prática de ódio visceral em setores da população. A convivência social requer submissão do individualismo e respeito às regras e ao coletivo. No esporte, a opção de escolha é inquestionável porque nasce do âmago da sensibilidade de cada pessoa. Somente pessoas loucas, alimentadas pelo canteiro do ódio, são atores desta conduta.
Urge que sejam excluídas do convívio esportivo por longo tempo, para que reflitam, amadureçam e evoluam para o bom estágio de convivência em sociedade, com boa civilidade. O rigor da punição rápida e eficiente, como resposta educativa para o bem da sociedade e do esporte, precisa ser um remédio eficaz. O ódio precisa ser sepultado até a exterminação social.
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