Estudo estima impacto de R$ 53 bilhões em arrecadação até 2035 e reforça desafio de qualificar mão de obra para atender à nova fronteira de petróleo e gás
Por Antônio Carlos Garcia (*)
O maior investimento da história de Sergipe poderá mudar o perfil econômico do Estado nas próximas décadas. Estudo elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) aponta que o Projeto Sergipe Águas Profundas (SEAP), da Petrobras, tem potencial para gerar até 200 mil empregos diretos, indiretos e induzidos e acrescentar cerca de R$ 53 bilhões em arrecadação tributária até 2035.
Os números revelam a dimensão de um novo ciclo econômico para Sergipe, mas também evidenciam um dos principais desafios: preparar trabalhadores para ocupar as oportunidades que serão abertas pela expansão da indústria de petróleo e gás.
Com investimentos estimados em R$ 72,5 bilhões, o projeto deverá provocar impactos que vão muito além da produção de petróleo e gás, alcançando setores como construção civil, metalmecânica, logística, transporte, comércio, hotelaria, alimentação, tecnologia e serviços especializados.
A expectativa do Dieese é que o empreendimento possa acrescentar até R$ 37 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) de Sergipe, fortalecendo a posição do Estado como uma das novas fronteiras energéticas do país.
Além do petróleo
Segundo o estudo do Dieese, o pacote de investimentos relacionado à Petrobras até 2035 está concentrado em três grandes frentes:
- R$ 60 bilhõesdestinados ao Projeto Sergipe Águas Profundas;
- R$ 12,5 bilhõespara o descomissionamento de plataformas em águas rasas;
- R$ 60 milhões para a retomada da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados de Sergipe (Fafen).
Para a supervisora técnica do Dieese em Sergipe, Flávia Santana, o impacto do projeto ultrapassa a cadeia tradicional de óleo e gás e poderá provocar uma transformação estrutural na economia estadual.
“Estamos falando de um investimento com capacidade de transformar a estrutura produtiva do Estado, atraindo novas empresas, fortalecendo cadeias produtivas e ampliando significativamente a geração de emprego e renda”, afirma.
Segundo ela, o efeito multiplicador dos investimentos deverá alcançar empresas fornecedoras e prestadoras de serviços, criando oportunidades em diferentes áreas da economia.
Ampliar oportunidades
Embora o Projeto Sergipe Águas Profundas esteja diretamente ligado à exploração de petróleo e gás em águas ultraprofundas, o impacto econômico esperado envolve uma extensa cadeia produtiva.

A demanda deverá crescer para empresas de engenharia, montagem industrial, fabricação de equipamentos, soldagem, manutenção, transporte, armazenagem, alimentação industrial, hospedagem, tecnologia e serviços especializados.
O estudo do Dieese destaca que uma parcela significativa dos empregos não estará diretamente ligada à extração de petróleo, mas será resultado do chamado efeito multiplicador dos investimentos sobre outros segmentos da economia.
Esse movimento poderá estimular a abertura de novos negócios e ampliar a demanda por profissionais especializados em diferentes áreas.
Economia movimentada
Embora o maior impacto esteja associado à implantação do Sergipe Águas Profundas, os efeitos da retomada dos investimentos já começaram a aparecer no mercado de trabalho estadual.
O descomissionamento de plataformas em águas rasas, iniciado em 2025, já representa uma nova frente de atividade econômica e envolve cerca de 950 empregos diretos, segundo levantamento do Dieese.
Outro projeto que amplia a movimentação da cadeia industrial é a retomada da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados de Sergipe (Fafen), em Laranjeiras, que deverá gerar aproximadamente 530 empregos diretos e 1.500 indiretos.
Essas iniciativas representam as primeiras etapas de um ciclo de investimentos que deverá ganhar escala com a implantação das plataformas do SEAP.
O crescimento dos investimentos traz também uma preocupação apontada pelas centrais sindicais: garantir que as novas oportunidades sejam ocupadas por trabalhadores sergipanos e resultem em empregos de qualidade, com melhores salários.
Para Flávia Santana, do Dieese, o debate não deve se limitar ao número de vagas criadas, mas envolver a preparação da mão de obra local para disputar os postos mais qualificados.
A economista destaca que grandes projetos costumam atrair profissionais de outras regiões quando o mercado local não consegue oferecer trabalhadores preparados para atender às demandas das empresas.
Por isso, a qualificação profissional passa a ser um dos fatores decisivos para que a riqueza gerada pelos investimentos permaneça no Estado na forma de emprego, renda e desenvolvimento econômico.
Qualificação será decisiva
Durante o evento “O Futuro do Emprego”, realizado pela Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Empreendedorismo (Seteem) e pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc) durante o Sergipe Oil & Gas 2026, o senador Laércio Oliveira, autor da Nova Lei do Gás, destacou que o novo ciclo econômico exigirá trabalhadores preparados.
“Quem tem hoje 17 anos, em poucos anos encontrará um mercado extraordinário. Mas serão empregos para quem estiver preparado. O mercado vai buscar profissionais qualificados”, afirmou.
Segundo o senador, os investimentos precisam gerar oportunidades para a população local.
“A única exigência que fiz às empresas foi que elas olhassem para Sergipe. Quero que o nosso povo tenha oportunidade de disputar essas vagas. Não quero privilégios. Quero competição baseada na competência. As oportunidades existem para quem se prepara”, disse.
Laércio também ressaltou que os efeitos do novo ciclo deverão alcançar diversos setores.
“Até o fim da década, Sergipe receberá investimentos capazes de transformar diversos setores, gerando demanda por moradias, infraestrutura, comércio, serviços e profissionais especializados.”
Ampliar formação profissional
A avaliação do senador converge com o diagnóstico apresentado pelo Dieese: Sergipe precisará acelerar a formação de profissionais para atender às novas demandas da indústria.
A expansão do setor de petróleo e gás deverá aumentar a procura por trabalhadores como soldadores, caldeireiros, eletricistas industriais, técnicos em mecânica, instrumentação, automação, logística, segurança do trabalho, engenharia, tecnologia da informação, operação industrial e gestão de projetos.
Para especialistas, o desafio agora é transformar o potencial econômico do Sergipe Águas Profundas em desenvolvimento sustentável, garantindo que a população sergipana esteja preparada para ocupar as oportunidades criadas pelo novo ciclo de investimentos.
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