sábado, 16/10/2021
O casal venezuelano percorreu o Nordeste brasileiro de bicicleta; e isso é só o começo de longas pedaladas

Pelo mundo de bicicleta; o bem viver de um casal venezuelano

Quando era mais jovem, a venezuelana Luz Rivero assistiu, com o pai, ao filme Diários da Motocicleta, dirigido por Walter Salles, que narra a aventura de Che Guevara e seu amigo Alberto Granado, na qual decidem viajar pela América do Sul em uma moto chamada La Poderosa. Passados alguns anos, Luz, licenciada em Desenvolvimento Cultural e especialista em teatro, e o marido Tony Aranguren, formado em Artes Circenses pela Escola Nacional de Circo da Venezuela, resolveram viajar de bicicleta pelo Brasil. O casal está em Aracaju e pretende ficar aqui por cerca de dois anos, fazendo diversos trabalhos artísticos e interagindo com a população.

Na bicicleta acomodaram seus apetrechos
Tony, Gabi e luz durante a viagem

Eles compraram as bicicletas em março deste ano, quando estavam em Porto Seguro. Tony apelidou a bike de La Burrita, enquanto Luz chama a sua de Zummi, mesmo nome da marca. Eles demoraram quatro meses para percorrer os 901 quilômetros que separam Porto Seguro de Aracaju porque passaram 45 dias em Itacaré e foram parando em outros lugares, passando dois ou três dias em cada um deles. Ao todo, pedalaram 1.200 quilômetros.

Essa viagem foi feita com Gabriela  Araguren, irmã de Tony Araguren, mas ela decidiu ficar em Itacaré, porque se apaixonou pelo local. “Ela, Gabi, é uma pessoa importante da nossa viagem, pois nos encorajou bastante neste desafio”, afirmou Luz.

Com Gabi em Itacaré, Luz e Toni seguiram para Aracaju. Enquanto a La Poderosa não era tão poderosa assim, pois ficou pelo meio do caminho toda arrebentada na viagem de Che Guevara e Alberto Granado, Zummi e La Burrita deram poucos problemas ao casal venezuelano. “Tivemos problemas com os freios, somente”, contaram.

Para levar os apetrechos artísticos, mantimentos e roupas, Tony e Luz aprenderam, com um amigo em Porto Seguro,  a fazer um compartimento com um balde de óleo, colocando-os presos na garupa. E assim todas as coisas do casal foram colocadas nestes quatro baldes – dois em cada bicicleta.  “Os baldes têm tampas  bem fixadas que não deixam entrar água”, disse Luz. Essas não são as primeiras bicicletas do casal. Eles já haviam comprado outras duas antes, mas elas eram colocadas no ônibus e só as usavam dentro da cidade que visitavam. Confira os Instagrans  @luzriveroart, @animalsigiloso, @circoruedaplr

 

História

Mas como tudo isso começou? Quando se especializou em teatro na Venezuela,  Luz tomou um curso de estátua viva, inclusive, no último domingo, durante a Feirinha da Gambiarra, mostrou a sua arte, chamando a atenção de várias pessoas. E não estava sozinha. O marido, professor circense, também se apresentou como estátua viva – Mago levitador -, e, para completar, o irmão de Luz, Iginio Rivero, como estátua viva interpretou o ator Charles Chaplin.

As Estátuas Vivas representadas pelos atores Tony, Luz Rivero e Iginio na Feirinha da Gambiarra

“Conheci Tony no colégio em que eu trabalhava na Venezuela, pois ele dava aulas de circo”, contou Luz. Conversa vai, conversa vem, os dois começaram a namorar, e Luz perguntou se ele topava viajar pelo mundo, pois esse era um desejo dela, e ele concordou.  O casal está junto há nove anos, sendo que os primeiros quatro anos eles permaneceram na Venezuela. Depois seguiram para a Argentina, onde conheceram um brasileiro residente no Pará, que falou muito bem do Brasil. “Nós morávamos mais perto da fronteira da Colômbia e não na do Brasil”, disse Luz.

“Conhecemos outros amigos que já tinham vindo ao Brasil e falaram super bem deste lugar. Então decidimos arrumar tudo, compartilhar nossas coisas entre meu cunhado e minha mãe e começamos a viajar pelo Brasil, entrando por Roraima, Manaus. Em Santarém viajamos de barco, conhecemos a Trilha Tapajós e aprendemos com as pessoas a medicina dentro da mata”, lembrou Luz.

Viagem e projeto

Do início do namoro até agora são quatro anos viajando e por três vezes o casal esteve em Aracaju, onde passou temporadas. “Agora estamos de volta, viajando de bicicleta. Estávamos conhecendo a culinária baiana, que é muito gostosa, e o pessoal é muito acolhedor. Fizemos esse projeto de conhecer a cultura do Brasil, e a viagem por todo o Nordeste foi com minha companheira Luz, uma mulher muito forte, que pedala comigo e juntos formamos uma família”, contou orgulhoso, Tony.

Na primeira vez que  passaram em Aracaju, ficaram um mês, depois seguiram para a Chapada Diamantina. Posteriormente retornaram para estimular Iginio Rivero a vir da Venezuela para o Brasil, também . “Nós queríamos que o irmão de Luz viesse para Aracaju”, ressaltou Toni. Solidários, eles prepararam tudo para que Iginio pudesse vir, se instalar e trabalhar. Após atingirem esse objetivo, viajaram novamente.

Desenho de Luz

Tony e Luz estavam no sul da Bahia, em Porto Seguro, onde compraram as bicicletas – Zummi e La Burrita -, e decidiram retornar para Aracaju pedalando.  Agora pretendem ficar em Sergipe trabalhando com o segmento de artes, como tatuagem de rena, trança e o mundo do circo. “Luz faz desenhos de rostos muito lindos”, diz Tony. O aprender a desenhar começou com o sofrimento, pois Luz teve depressão e encontrou nesse tipo de arte uma saída. “Meu companheiro me ajudou muito a sair desse processo depressivo”, recorda-se Luz.

 

Luz aguardando clientes
Tony mostra suas habilidades com o malabares

Além do desenho, Luz dará aulas de mandala, teatro, meditação e tranças. Tony, por sua vez, trabalhará com malabares e outras técnicas circenses num projeto cultural que estão desenvolvendo junto com o irmão de Luz aqui na capital. Como os eventos estão retornando, o casal quer trabalhar bastante.

Paralelamente, eles pretendem, na comunidade Caíque Velho, em São Cristóvão, tocar um projeto de permacultura. “Vamos mostrar a essa comunidade que não precisamos de muitas coisas para sermos felizes. Podemos aproveitar a energia da natureza, a água, plantar nosso próprio alimento e meditar”, disse o casal.

Tony e Luz querem ir até Canindé do São Francisco de bicicleta, junto com outros ciclistas sergipanos, justamente para explorar a natureza. “Aqui tem lugares lindos que podem ser conhecidos de bicicleta e vamos fazer isso com outras pessoas”, disse Tony.

Mas e aquela proposta do início do namoro de viajar pelo mundo, como ficará? Luz afirma que isso vai continuar. “Somos diferentes das outras pessoas que deixam a casa para curtir as férias. Nós viajamos, trabalhamos e passamos as férias em casa”, destacou. E as viagens sempre com as companheiras inseparáveis Zummi e La Burrita.

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