sexta-feira, 24/04/2026
A caridade não combina com vaidade nem com o egoísmo de querer ser o centro — é, por essência, um gesto que desloca o eu e amplia o mundo Imagem gerada pela IA

Ensaio sobre a caridade: quando o amor vence o egoísmo

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Por Hernan Centurion Sobral (*)

 

Há algo de profundamente inquietante em nosso tempo. Observamos na mídia, a todo momento, disputas comerciais, ameaças veladas e guerras entre diversos países, escândalos de corrupção nos mais altos escalões dos três Poderes da República, traduzidos por um oportunismo mesquinho no qual o mais “forte”, o dominante, tenta sugar até a última gota de sangue do dominado, aniquilando-o sem, contudo, qualquer tentativa de negociação equilibrada e conciliação amistosa, trazendo, à tona, para uma reflexão urgente, um dos vícios que certamente alimenta boa parte das mazelas da humanidade, o egoísmo.

Como de costume, prefiro começar a escrever sobre determinado assunto analisando a raiz etimológica da palavra, a qual se origina do latim ego (eu) e ismo (doutrina, hábito) e cujo significado é: “amor exagerado aos próprios interesses a despeito de outrem” ou “exclusivismo que leva uma pessoa a se tornar referência a tudo; orgulho, presunção”. Entretanto, aqui não me refiro apenas à forma mais explícita do egoísmo, aquela que se reconhece facilmente nas atitudes frias, na dureza deliberada ou na indiferença escancarada. Refiro-me, pois, a um egoísmo mais sutil, sofisticado, quase socialmente aceito, e que se esconde sob a aparência de autonomia, de liberdade, de autocuidado e até de progresso. Vivemos uma época em que o indivíduo vai se tornando, paulatinamente, a medida absoluta de tudo.

Não por acaso, nunca estivemos tão à deriva, cercados de meios de comunicação e redes sociais e, ao mesmo tempo, distantes uns dos outros. Tocamos telas a todo instante, entretanto, cada vez menos vivenciamos a realidade humana que padece bem diante de nós. Vemos inúmeros perfis, fotos, vídeos, opiniões, discursos eloquentes; todavia, já não achamos a pessoa na sua vida real, “nua e crua”, por vezes sofrida, que pede ajuda, cala-se de vergonha, esconde-se na pobreza, curva-se sob o peso de dores do corpo e da mente, humilhada e que ninguém aplaude. A sociedade contemporânea criou uma multidão de “presenças digitais” e, paradoxalmente, aprofundou ausências concretas. Há muito ruído, exibição, conexão aparente e, no entanto, faltam encontro, compaixão e essência.

É precisamente nesse cenário que a fraternidade e a solidariedade entre povos e nações pedem passagem, e a caridade se impõe, não como uma palavra antiquada e destinada a sobreviver apenas em sermões ou livros de espiritualidade, entretanto como exigência de uma reconstrução humana necessária. A própria palavra diz muito, ou seja, a caridade vem do latim caritas e não designa um gesto qualquer de bondade superficial, pois carrega em si a ideia de apreço elevado, amor ágape, afeição nobre e algo que possui inestimável valor, já que nasce de uma disposição interior de reverência diante do nosso semelhante.

Por isso, quando falamos de caridade, não devemos tratar apenas de uma virtude dentre outras tantas, tal qual um adorno ético agradável num repertório moral já pronto. Falamos de algo mais decisivo, de uma força espiritual capaz de corrigir o eixo da alma. O egoísta não é aquele que se recusa a dar, porém o que já não consegue sair verdadeiramente de si mesmo, visto que tudo passa por ele, mede-se nele e retorna a ele. A caridade, em contrapartida, opera um deslocamento energético ao quebrar o centro rígido do eu, abrindo espaço interior e restituindo ao homem a capacidade de reconhecer que a vida não lhe foi dada somente para ser usada em proveito próprio, já que, desde sempre, vivemos em comunidade.

Sob uma perspectiva filosófica, há um enorme significado implícito, visto que uma das grandes tentações do homem é imaginar-se autossuficiente. O ego, quando não vigiado, constrói para si um pequeno trono íntimo e passa a julgar o mundo a partir das próprias conveniências. Ora, a caridade rompe justamente esta ilusão, corrige o delírio da centralidade absoluta do eu e lembra, de modo firme, que ninguém se realiza verdadeiramente enquanto habita na clausura de si mesmo. O indivíduo que só gira em torno dos próprios interesses pode até parecer bem-sucedido aos olhos do mundo, entretanto, interiormente vai se esvaindo e perdendo densidade espiritual. Desse modo, a caridade aparece como força de descentralização do ego, fazendo o ser humano escapar da fortaleza de si e perceber claramente que a vida não lhe foi dada apenas para consumo próprio, arrancando-o, ainda que dolorosamente, da indiferença aparentemente confortável. E, neste sentido, há algo filosófico na caridade, porque ela restitui ao homem a consciência de que viver é também responder à injustiça social e à fragilidade de outrem. Ou seja, ser caridoso é devolver ao homem a sua humanidade.

Sob a lente esotérica da Maçonaria, esta temática revela-se ainda mais evidente, visto que toda via iniciática exige labor interior, esforço contínuo, vigilância constante e humildade. O ser humano não nasce pronto, ou seja, traz em si excessos, asperezas, impulsos confusos, vaidades e paixões desordenadas que cegam a alma. Somos todos, de algum modo, matéria bruta e ainda inacabada, necessitando de esforços, desbaste, correção e refinamento. Contudo, este aperfeiçoamento seria ilusório se permanecesse restrito ao intelecto ou à estética do simbolismo. São necessários o aprendizado contínuo e a prática coerente, cavando masmorras ao vício e construindo templos às virtudes, fazendo da igualdade e fraternidade temas bem límpidos, pois de pouco vale desbastar a pedra do pensamento, se aquela do coração continua dura e áspera; ou falar em luz, se ela não ilumina a miséria de quem está ao nosso lado; ou buscar elevação espiritual, se essa ascensão não nos torna mais fraternos, sensíveis e disponíveis ao serviço. A caridade é, nesse contexto, uma espécie de prova silenciosa da autenticidade interior, pois revela se a construção do nosso templo pessoal avança de fato ou se estamos apenas decorando ruínas.

Todavia, é na fé católica, sobretudo no tempo da Quaresma, que essa reflexão alcança seu ápice, visto que este período não é uma temporada de meras formalidades religiosas, nem uma pausa litúrgica para pequenos sacrifícios sem consequências edificantes. É convocação ao retorno, o momento em que Deus chama a humanidade de volta ao essencial e este regresso não se consuma apenas no recolhimento, mas, principalmente, na conversão, quando a oração, o jejum e a esmola formam o caminho que leva à “Verdadeira Luz que alumia todo o homem que vem a este mundo”, Jesus Cristo, o qual, aliás, foi de uma clareza brilhante quando, no Evangelho de Mateus, ao dizer “tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber”, não estava apenas recomendando bondade, mas também revelando onde deseja ser encontrado.

Isso muda radicalmente a lógica da vida espiritual, pois os pobres ou menos favorecidos deixam de ser apenas objeto de nossa generosidade eventual e tornam-se, milagrosamente, lugar de encontro com o próprio Deus. Já não importa ajudar alguém por mera empatia, pena ou sensibilidade humana, embora isso já fosse louvável, não obstante é o reconhecimento de que o amor ao próximo não é um apêndice da fé, mas sim uma de suas expressões mais sublimes. O profeta Isaías já advertia contra esse tipo de religiosidade sem carne, justiça e compaixão, ao recordar que o jejum agradável a Deus é repartir o pão com o faminto, acolher os pobres, vestir o nu e romper com a opressão das minorias. Já São Paulo talvez tenha dado à caridade sua formulação mais completa, ao revelar que, sem ela, nada somos, ainda que tenhamos fé, eloquência e até obras extraordinárias. Ele destrói qualquer tentativa de reduzir a vida espiritual a aparência de grandeza, mostrando-nos que a caridade não está na periferia da fé, todavia em seu núcleo mais vivo e que o valor de um homem não se mede por aquilo que ele crê, sabe ou conquista, porém por tudo o que ele ama sinceramente e pela forma como esse amor se converte em presença, serviço e compaixão.

Talvez por isso a caridade seja tão intrigante, posto que não cabe numa lógica de aparência, não se harmoniza com a vaidade e não convive pacificamente com o desejo constante de ser o centro do mundo. Ela exige, pois, um esvaziamento de si para que o outro caiba em nós, sem ser tratado como intruso. E isto dói porque fere camadas profundas do orgulho, interrompe a comodidade da indiferença e nos obriga a reconhecer que muitas vezes preferimos a teoria do amor à sua prática concreta. Assim sendo, é justamente neste sofrimento que começa a transformação do homem quando, ao combater o bom combate, percebe que sua alma só amadurecerá caso deixe de girar em torno de si. Destarte, a caridade não salva apenas quem a recebe, mormente quem a pratica.

Ao final, penso eu que a Quaresma nos coloca novamente diante de algumas questões simples. Não é sobre quantas orações fizemos, renúncias suportamos ou discursos pronunciamos. As perguntas verdadeiras talvez sejam outras: nosso coração ainda é capaz de se mover diante da dor alheia? Ainda sabemos ver Cristo no mendigo, o irmão no próximo e a nós mesmos, sem soberba? Ainda somos capazes de nos comover com as mazelas ou já nos tornamos hábeis demais em apenas observar, lavando as mãos? Cuidado, pois no instante em que a caridade desaparece, algo essencialmente divino se rompe, e quando ela renasce, ainda que discretamente, o mundo volta a respirar um pouco de Deus. Talvez seja esse o grande desafio e, ao mesmo tempo, a esperança da sociedade vindoura.

 

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Sobre Hernan Centurion

Hernan
(*) Médico cirurgião e coloproctologista. Mestre maçom da Loja Maçônica Clodomir Silva 1477

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