sexta-feira, 13/05/2022
Um dos laboratórios de informática da UFRJ Foto: UFRJ

Uma Oficina Digital da História? Sala de aula e experimentação

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Anita Lucchesi (*)

Meus primeiros passos no estudo da história digital foram num trabalho sobre questionamentos e desdobramentos das novas tecnologias e da internet na escrita da história, uma despretensiosa monografia de fim de curso, pesquisa e redação que aconteceu entre 2008 e 2011. Na época, lembro que na biblioteca e no laboratório de informática do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro havia computadores disponíveis para os alunos, mas alguns endereços eletrônicos, como o YouTube, eram bloqueados. Isto nos sugere algo sobre como o acesso aos conteúdos digitais, na época, era classificado: havia endereços “bons” e “ruins” para os alunos. De certo, é plausível a classificação, mas o bloqueio de determinados endereços àquela altura já denunciava uma certa barreira entre a ciência dos espaços formais de saber e a terra sem lei da internet.

A monografia levantava questões importantes que quis pesquisar mais a fundo e, pouco depois, iniciei um estudo comparado sobre os primeiros movimentos e tentativas de sistematização acerca do assunto Digital History e Storiografia Digitale nos Estados Unidos e Itália (2012-2014). No caso dos Estados Unidos, a emergência do interesse por esse campo começou entrelaçado com a sala de aula da Educação Básica e isso é pouco discutido ainda, sendo uma conexão entre a pesquisa e o ensino de história raramente lembrada em fóruns internacionais sobre o tema, que gradativamente foi se preocupando com questões mais técnicas e, em seguida, epistemológicas, mas afastando-se da reflexão disso na base da educação histórica.

Roy Rosenzweig, fundador de um dos centros pioneiros de história das mídias nos Estados Unidos, o Centro de História e Novas Mídias na George Mason, na Virgínia, foi um dos autores e criadores de um CD-ROM chamado Quem construiu a América (Who built America?).  Who built America? consiste em um livro didático acompanhado por CD-ROM, de autoria coletiva escrito com S. Brier and J. Brown em 1993 que, além de textos, contava com fontes primárias digitalizadas para se estudar a história dos Estados Unidos. Levou-se então para a sala de aula um material para que, ao invés de vir com um texto, livro didático, ou um texto digital pronto, por exemplo, fossem trabalhadas as fontes e, a partir delas, abrir uma discussão com os alunos. O sucesso do primeiro CD-ROM fez com que Who built America? continuasse a série, dando origem a outros dois “livros didáticos eletrônicos”, por assim dizer: Who Built America? From the Great War of 1914 to the Dawn of the Atomic Age in 1946, a multimedia CD-ROM (New York: Worth Publishers, 2000), do qual Rosensweig foi autor chefe e produtor executivo; e Who Built America?  Working People & the Nation’s Economy, Politics, Culture & Society (New York: Worth Publishers, 2000), do qual participou como autor convidado no volume II.

No Brasil, foi apenas na última década que acompanhamos o surgimento de centros específicos (espaços institucionais) dedicados para a temática do digital em interseção com as ciências humanas e a história, como o recém-criado criado Laboratório de Humanidades Digitais da PUC-Rio (dhLAB), o da Fundação Getúlio Vargas (LHuD, CPDOC, FGV) da UFBA (LABHD), o Laboratório em Rede de Humanidades Digitais do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (LARHUD, IBICT), e o primeiro Laboratório de História Digital no Brasil, o LAHISD, da Federal de Uberlândia.

Por isso, é correto afirmar que, no Brasil, o lugar de experimentação, de descoberta, de contato e tentativas com as tecnologias têm sido por excelência a sala de aula. Em 2019 o professor Dilton Maynard, da Universidade Federal de Sergipe, esteve em Luxemburgo visitando o Centro de História Contemporânea Digital (C2DH) e fez uma fala para dar um balanço da história digital no Brasil: A sala de aula de Educação Básica é um verdadeiro laboratório da história digital.  Por vezes, existe um preconceito de que para fazer história digital todos têm que ser, como supôs o historiador francês Emmanuel Le Roy Ladurie, um super programador e dominar tudo a respeito da informática  (ele escreveu em 1968: “O historiador do futuro será um programador ou não será”).

Ao pensarmos na sala de aula e nas experimentações que têm acontecido, temos razões para acreditar que não, ninguém precisa ser um programador; é suficiente, para começar, ter abertura para experimentar o novo. Sobre as experiências no chão e nas telas das salas de educação básica e ensino superior,  realizei  com Pedro Telles da Silveira um breve mapeamento que, a despeito de suas limitações de alcance, já mostrou quão férteis são essas oportunidades de ensino e aprendizagem em interação com a tecnologia. Em que pesem, as dificuldades relacionadas à infraestrutura precária de muitas escolas e à flagrante desigualdade de acesso a equipamentos e conexão de qualidade, o componente digital já alterou a cultura escolar de norte a sul do Brasil.

Como pudemos observar Silveira e eu, mesmo onde as condições materiais e técnicas são obstáculo, os professores da educação básica conseguiram, com muita inventividade, lançar mão de “gambiarras digitais” para simular conectividade onde não havia, ou mesmo transpor para o papel (analógico) uma atividade que, normalmente, transcorrer em tela, numa rede social (ex: desenhos com lápis de cor e caneta realizados alunos sobre postagens na rede social Instagram). Assim, nada mais justo, seguindo o pensamento de Maynard, que considerar o espaço da sala de aula como um verdadeiro laboratório da história digital. Laboratório que, por vezes, se assemelhará mais a uma oficina digital da história, em que o adjetivo soma aos modos de trabalho e ferramentas e não necessariamente ao produto final de suas criações.

(*) Anita Lucchesi  é doutora em História pela Universidade de Luxemburgo/Centro para História Contemporânea e Digital.

anita.lucchesi@gmail.com

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