Por Luiz Eduardo Costa (*)
Em memória de Frei Enoque Salvador de Melo. Texto escrito em 02/10/2015.
Permita-me, senhor Juiz, levar-lhe estas considerações, e, se assim as faço públicas, é porque públicas sempre foram, por consequência do ofício, todas as minhas manifestações, sempre completadas pelo nome que nelas imprimo, traduzindo a responsabilidade que, há mais de 50 anos, pelas linhas que escrevo sempre assumi.
Faço-as com o respeito que devoto à Justiça, não apenas por querer ser fiel à memória de um pai e a de um avô, operadores da Justiça que, eles próprios, em tempos diversos e adversos, lhes viram faltar, quando o arbítrio desembestou-se em perseguí-los; mas, também, por ter sentido na própria carne, e em outro tempo, o opressivo e insuportável peso da ausência das leis, que o arbítrio suprimiu.
Por não ter a honra de conhecê-lo pessoalmente, imagino que o senhor seja um jovem magistrado, incendiado por aquele virtuoso sentimento de fazer cumprir a lei, diante da qual todos se devem igualar. Imagino, também, que o senhor, por ser jovem, não viveu um tempo historicamente recente, quando, ao desamparo da lei suprimida, tantos foram jogados em cubículos, porque o autoritarismo dominante assim o queria. Mas o senhor poderá aquilatar o silêncio mudo do desespero daqueles, órfãos da cidadania que lhes foi roubada.
Portador dessa sensibilidade, o senhor mesmo, consciente de que tomou a decisão acertada, poderá fazer uma ideia daquilo que se estará passando na cabeça de um homem ao transpor as portas de uma Penitenciária sentindo o dorido acicate daquele cilício torturante da dúvida sobre a justiça dos homens, e querendo sustentar a esperança de que o Deus em que ele crê, lhe cobrirá de indulgências, porque, se Ele existir, e se Ele estiver pressurosamente a acompanhar o que fazem os homens, saberá, que aquele homem pobremente vestido, se fez, todavia, ricamente ornado daquela virtude que um Seu mensageiro quis, sem muito sucesso, espalhar pela terra, quando ensinou: Amai-vos uns aos outros.
Aquele homem que o senhor condenou, senhor Juiz, errou sim, por acreditar que a solidariedade devida aos que sofrem, seria mais importante do que os rituais exigidos pelas formalidades da lei.
Aquele homem que o senhor condenou, senhor Juiz, se fez portador da santificada ascese de quem quer seguir o mandamento primeiro, o “amai-vos uns aos outros”, que a sociedade da competição, do egoísmo e da sofreguidão consumista há muito tempo relegou ao quase esquecimento.
Aquele homem que o senhor condenou, senhor Juiz, errou, ao imaginar que a pureza moral, a aversão aos bens materiais, seriam suficientes para justificar os seus atos, e errou ainda mais, ao supor, com a ingenuidade dos crédulos, que todos os que o rodeavam, seriam portadores, ou pelo menos seguidores dos sonhos sublimes que ele acalentava.
O homem subjugado, humilhado e destruído por ter naufragado no sonho etéreo de uma Justiça inconsútil, ao entrar na Penitenciária à qual o senhor o condenou em nome de uma Justiça concreta, real, deixa atrás de si o rastro esperançoso de uma caminhada, a “caminhada da cidadania” que, se não pôde modernizar a arcaica e sufocada economia do miseravelmente pobre Poço Redondo, conseguiu, porém, dar vida pulsante a um benfazejo embrião de sentimentos de autoestima, cidadania e solidariedade, traduzidos em atos como as doações feitas pelos pobres, todos os meses, para amenizar carências, tais como a incapacidade do poder público para manter um hospital.
Ficou, também, dessa caminhada, o exemplo de um missionário jovem que chegou ao sertão sergipano calçando as sandálias rústicas dos franciscanos. Para ele, ainda hoje, simbolizando muito mais do que um voto de pobreza feito na já distante juventude, quando deixou um curso de Direito no Recife para tornar-se apóstolo de uma verdade pela qual suportou e suportará todos os sacrifícios. A verdade, fanal, bússola e caminho da sua vida. A verdade que se fortalece na fé, e numa crença firme na capacidade que teria o homem para construir um mundo solidário. E, mais ainda, alcançar o milagre de uma utópica igualdade. Essa, a verdade que o caminhante dos sertões transformou em objetivo pelo qual já desgastou, tantas vezes, o couro rústico das alpercatas, na peregrinação dura pelas asperezas de uma terra, por muitas causas e motivos, secularmente martirizada. Pensando em diminuir esses martírios, telúricos e humanos, o caminhante tornou-se, por três vezes, prefeito, martirizado também, pela sensação da impotência de quem colocou o sonho largo da esperança bem além do espaço estreito das possibilidades e das circunstâncias.
Talvez agora, aos 72 anos, condenado a 16 anos e 6 meses de prisão em regime fechado, numa Penitenciária, ele nem esteja a sentir desespero diante do castigo inconcebível, mas, tenha diante dele a vocação e o desejo de vivê-lo, com aquela resignação que só os mártires possuem.
Senhor Juiz, reiterando a minha impressão de que o senhor agiu convicto de que faria Justiça, digo, todavia, que a sua rigorosa sentença, para os que conhecem a vida desse homem chamado Enoque Salvador de Melo, fará surgir, em torno dele, a auréola justa de um mártir. E aos mártires, senhor Juiz, a História inapelavelmente os absolve.
Com respeito, Luiz Eduardo Costa.
PS. Permita-me sugerir-lhe, senhor Juiz, uma visita sua ao Cânion de Xingó, se ainda não o conhece. Na passagem, detenha-se um pouco em Poço Redondo, e pergunte aonde fica a casa do Frei Enoque. Haverá muitas pessoas solícitas, oferecendo-se para acompanhá-lo até a casa procurada. Lá chegando, o senhor verá como vive humildemente, numa despojada e rústica morada, o homem que o senhor condenou por improbidade. Se assim o desejar, entre, é fácil, a porta estará sempre aberta. Se o frei estiver, logo o atenderá, se o Sport joga, ele estará na sala da frente, sentado num banco de madeira, assistindo ao jogo e torcendo muito. A TV colorida foi um presente que ele recebeu de uma pessoa amiga, há uns 15 anos, para que aposentasse a branco e preto. Mas, com uma condição: que ele não leiloasse a TV, como fizera com um relógio de pulso que ganhou de Leonor Franco. O dinheiro do leilão serviu para comprar comida para os pacientes no hospital. Se ele estiver à mesa, logo o convidará. A casa é modesta, o Frei é sempre frugal, mas a refeição é farta, suprida com os presentes que o homem condenado recebe. São os frutos da terra, a ele oferecidos pelos pobres, como ele mesmo. Galinhas, capões, tatus-peba, cajaranas, rolinhas, nambu, mocós, doces de leite, de umbu, buchada, milho, carne de bode, tucunarés, tilápias e mandins, “cocada” de cabeça de frade, compota de ouricuri. A mesa do Frei Enoque, sempre compartilhada, é a própria metáfora da generosidade sertaneja. O senhor se sentirá bem e feliz se dela participar.
Frei Enoque faleceu no dia 13 de março de 2026. A sentença nunca foi executada, mas o condenou à angústia da descrença na justiça dos homens.
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