Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)
Ao ler esta crônica, caro leitor, amiga leitora, maio já terá chegado. Um mês ameno, suave como a natureza em sua essência. Não é por acaso que maio é o mês escolhido pelos casais para seus enlaces, na esperança de dias felizes. É também o mês das mães, as flores que embelezam e perfumam o mundo.
Sou da geração que cresceu ouvindo “Pra não dizer que não falei das flores” (também conhecida como “Caminhando”), composta e interpretada pelo paraibano Geraldo Vandré em 1968. Um hino de resistência com versos marcantes sobre luta e esperança, que se tornou um símbolo da liberdade de expressão. Apresentada no III Festival Internacional da Canção, no Maracanãzinho, RJ, conquistou o segundo lugar, mas teve um impacto popular superior à vencedora, “Sabiá”, composta por Tom Jobim e Chico Buarque e interpretada por Cynara e Cybele.
Em tempos tão áridos, vamos falar de flores. Falar em plantar, germinar, florescer.
“Enquanto houver vida neste mundo em chamas, haverá histórias a serem narradas, lidas e ouvidas. Não vivemos apenas no real, vivemos também no imaginário, nos sonhos, na literatura, nas artes, no teatro, essa arte viva, na experiência mística. Vivemos também no devaneio.”
Com essas palavras, o escritor amazonense Milton Hatoum selou sua entrada oficial na Academia Brasileira de Letras, na sexta-feira, 24 de abril.
Em meio ao caos, busco incessantemente a tranquilidade. Observo as pessoas ao meu redor, todas apressadas, correndo de um lado para o outro. O mundo está cheio de indivíduos impacientes, que querem tudo no “agora”. Ninguém quer plantar, já quer colher. Esperar? Nem pensar! A vontade é maior que tudo. E quando a vida não acontece daquele jeitinho que elas planejaram, revoltam-se contra tudo e todos. Pode parecer um disparate, mas a vida não é sempre como se quer.
Existem coisas que têm mesmo o seu tempo. “Por vezes, é preciso fazer o que é possível e depois saber esperar, entregar ao Universo e confiar”, me diz Júlia, minha amiga esotérica. Júlia aprendeu a ser zen em um mundo em ebulição. Esses dias, para minha felicidade, nos encontramos para um café, em um final de tarde chuvoso. Com sua pele muito clara, cheirosa e colorida, saia rodada, cabelos encaracolados e flores na cabeça, ela me fala dos livros que está lendo. Menciona que assistiu a “Hamnet”, dirigido pela cineasta chinesa Chloé Zhao. Sensível, ela chorou o filme todo.

“Hamnet” é um drama histórico sensível que aborda temas como luto, maternidade e criação artística. Conta a história de Agnes (Jessie Buckley), esposa de William Shakespeare (Paul Mescal), e a dor do casal após a morte de seu filho de 11 anos, Hamnet, por peste bubônica, evento real que teria inspirado a peça “Hamlet”. O filme dá voz à esposa de Shakespeare, quase nunca lembrada, explorando sua conexão com a natureza e como ela lidou com a perda do filho.
Júlia compartilha a dor da perda de seu irmão Ricardo, que faleceu aos 38 anos devido a um câncer devastador. A saudade e a melancolia de continuar sem sua presença são palpáveis. Após mais um gole de café, ela se refaz no celular, mostrando seu jardim, que lembra o jardim de Caio Fernando Abreu.
O jardim na casa de Caio Fernando Abreu, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, tornou-se um refúgio simbólico e físico nos últimos anos de sua vida. Lá, ele cuidava de girassóis, brincos-de-princesa e rosas, encontrando na jardinagem uma metáfora para paciência, a morte e o ciclo da vida, temas explorados em suas crônicas, como em “A Morte dos Girassóis”. A jardinagem era uma forma de carinho e conexão com a vida enquanto lutava contra a AIDS, um contraste com a “noite” e a boemia presentes em sua obra. Caio Abreu registrou suas experiências com o jardim em crônicas, onde o cultivo de flores ensinava sobre o tempo da natureza, a paciência e a aceitação da finitude.
Ao observar Júlia, com sua alegria contida, percebo que a vida é um convite constante para olharmos e apreciarmos as flores. Vamos florir, florescer, sempre!
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