sexta-feira, 16/01/2026
Filme O Agente Secreto
Cena do filme O Agente Secreto Foto: Victor Jucá/Divulgação

Wagner Moura — traumas, valores e memória

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Pelo segundo ano consecutivo, o cinema brasileiro foi destaque na premiação do Globo de Ouro. E desta vez, em dose dupla, conquistando as categorias de melhor filme de drama em língua não inglesa e melhor ator de drama. Ano passado, o mundo se rendeu ao talento e aos encantos da carioca Fernanda Torres, com o prêmio de melhor atriz, com o filme “Ainda Estou Aqui” (Oscar de filme estrangeiro). Em 2026, todos os méritos e aplausos para “O Agente Secreto” e para o baiano Wagner Moura.

Em oitenta e três edições do Globo de Ouro, desde 1944, o Brasil já foi indicado 21 vezes. A primeira delas, com o clássico “Orfeu Negro”, em 1960, dirigido por Marcel Camus, numa adaptação da peça de Vinícius de Moraes, “Orfeu da Conceição”. Embora consagrado como o preferido, os louros foram para a França, por conta de uma coprodução. A primeira vitória só veio em 1999, com o filme “Central do Brasil”, de Walter Salles. Ao todo, o cinema brasileiro soma agora quatro premiações. Entre as indicações ao longo da história do evento, destaco ainda filmes como “Dona Flor e seus dois maridos” (1976), “O beijo da mulher aranha” (1985), “Cidade de Deus” (2003), “Diários de Motocicleta” (2005).

A noite do dia 12 de janeiro de 2026 foi um marco para o nosso cinema, com três indicações (incluindo de melhor filme, com “O Agente Secreto”) e dois reconhecimentos inéditos numa mesma edição. Mas, para além dos sonhos dourados, o que mereceu destaque mesmo foram algumas das falas e pronunciamentos do diretor Kleber Mendonça Filho e do ator Wagner Moura, notadamente todas elas em torno da importância de se dar valor ao cinema brasileiro, e principalmente sobre a questão da memória e a História do Brasil.

Aqui, dou especial atenção a um trecho do discurso de agradecimento de Wagner Moura, quando assim se expressou:

É um filme sobre memória, a falta dela é um trauma geracional. Eu acho que se um trauma pode ser passado por gerações, os valores também podem. Esse prêmio vai para quem está seguindo seus valores em momentos difíceis.

Para além de historiador e professor de História por mais de três décadas, venho, pelo menos nos últimos dez, trabalhando sobre o conceito de memória e sua relação com a questão da identidade e do patrimônio cultural. A contundente afirmação de Wagner Moura me remeteu à discussão sobre memória traumática. Mas, antes, penso que se faz necessário evocar dois dos grandes nomes nessa questão envolvendo história e memória.

O primeiro deles é Jacques Le Goff (1924-2014), autor da célebre assertiva que diz:

Tornar-se senhor da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memória” (1984, p. 13).

O segundo é Maurice Halbwachs (1877-1945), sobretudo quando este certa feita assim se expressou:

“Nossas lembranças permanecem coletivas, […] mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos, e com objetos que só nós vimos. É porque, em realidade, nunca estamos sós. Não é necessário que outros homens estejam lá, que se distingam materialmente de nós: porque temos sempre conosco e em nós uma quantidade de pessoas que não se confundem” (2006, p. 26).

Ora, ambos nos ajudam não somente a compreendermos o cerne da fala de Moura, como também o contexto histórico que inspirou o filme “O Agente Secreto”, que, a exemplo de “Ainda estou aqui”, referem-se a um dos momentos mais dolorosos da vida política brasileira que foi o regime militar (1964-1985).

Talvez por isso, os filmes e seus autores tenham recebido do público de nosso tempo e de outros países o reconhecimento que merecem. Ambos mexem em feridas que uma minoria reacionária gostaria que fosse esquecida, que não tivesse memória. Ou pior, que subvertesse a verdade dos fatos, transformando vítimas em algozes e torturadores em heróis nacionais.

Além disso e, de modo especial, “O Agente Secreto” retrata a cidade de Recife do ano de 1977, com um enredo profundamente dramático em torno de um personagem que é professor universitário viúvo, às voltas de lançar luzes sobre seu passado, notadamente de sua mãe, e ter de educar o filho menor de idade sob a sombra da perseguição estatal que lhe custou a própria vida, algo muito comum e corriqueiro naquele final dos anos 70 em todo o país.

Para além do realismo fantástico, com a exploração da lenda da perna cabeluda, típica do povo pernambucano, “O Agente Secreto” é um recado, como tem sido as falas de Wagner Moura e também de Kleber Mendonça para o nosso tempo. É um diálogo entre gerações que viveram contextos diferentes, mas ainda muito vivos e perigosos como a iminência, sobretudo se a democracia não resistir, de um retorno ao passado no que ele teve de pior.

Por isso mesmo, celebremos o cinema nacional e façamos deste momento mais uma oportunidade de revisitarmos o passado histórico do Brasil. Não para “passar pano” naquilo que nos traumatizou, mas para “passar a limpo” o que ainda não foi devidamente revolvido, justiçado e extirpado de nossas vidas e trajetórias, tenham sido as de nossos pais e avós, tenham sido as nossas e as dos que virão, considerando que, no âmbito da memória coletiva, somos um todo, como nos ensinam Le Goff e Halbwachs.

 

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Referências

HALBWACHS, M. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.

LE GOFF, Jacques (org). Memória-História (Enciclopédia Einaudi). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984

 

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Sobre Claudefranklin Monteiro

Claudefranklin Monteiro Santos
Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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