segunda-feira, 05/01/2026
Entre o esquadro do Ocidente e o lótus do Oriente, um rito que ousou unir tradição maçônica e misticismo teosófico para iluminar a jornada interior Imagem gerada a partir da IA

Dharma Working: A Maçonaria reinventada sob o sol da Teosofia

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Por Tácio Brito (*)

Uma viagem às origens e à vitalidade contemporânea do Dharma Working, o ritual que ousou fundir o esquadro ocidental com o lótus oriental

 

A Maçonaria, ao contrário do que muitos dos meus irmãos pensam, não é um monólito. É uma árvore viva, com dois troncos principais que, embora partindo da mesma raiz, cresceram em direções distintas: a Maçonaria tradicional, que encontra sua força na preservação da tradição, e a Maçonaria liberal, que prioriza a liberdade absoluta de consciência. E é neste segundo ramo, com um solo filosófico mais aberto à experimentação, que novos ritos florescem, e poucos são tão singulares quanto o Dharma Working.

Este ritual representa mais do que uma simples adaptação. É uma verdadeira escola filosófica, uma síntese criativa nascida no ambiente liberal da Maçonaria Mista, que nos convida a repensar os limites de nossa Ordem.

Igualdade, Teosofia e Annie Besant

Para entender o Dharma Working, precisamos voltar ao final do século XIX, um período de intensa fermentação social e espiritual. Em 1893, em Paris, Maria Deraismes e Georges Martin fundaram a Ordem Maçônica Mista Internacional “Le Droit Humain”, desafiando a exclusividade masculina. É neste cenário que entra em cena Annie Besant, uma das figuras mais extraordinárias de sua época: socialista, feminista, defensora da independência indiana e proeminente líder da Sociedade Teosófica.

Le Droit Humain

Iniciada na “Le Droit Humain” em 1902, Besant tornou-se a embaixadora da Maçonaria Mista no mundo anglófono. Contudo, estava insatisfeita com os rituais franceses seculares. Em uma negociação histórica, ela reinstaurou a exigência da crença em um Ser Supremo. A verdadeira alquimia aconteceu em 1904, em Benares, na Índia. Lá, com seu parceiro esotérico, o clarividente Charles Webster Leadbeater, Besant desenvolveu o Ritual Dharma. Partindo de rituais ingleses, eles os infundiram com a profundidade do ocultismo teosófico, introduzindo invocações a elementais, “Cargas Místicas” e uma atmosfera cerimonial rica em simbolismo.

 

Arquitetura e Evolução

É crucial entender que a inovação do Dharma Working não reside em uma longa escada de graus filosóficos, como se vê em outros ritos. Sua força e singularidade, nascidas da visão de Annie Besant e Charles Webster Leadbeater, concentram-se inteiramente nos três graus simbólicos fundamentais da Maçonaria Simbólica (Craft Degrees). A crença de seus criadores era que esses três pilares, quando corretamente interpretados, continham em si toda a essência esotérica necessária para a transformação do iniciado.

A estrutura, portanto, é a da Loja Azul tradicional, mas cada grau é revisitado e enriquecido com uma profundidade teosófica e mística, transformando a jornada moral em uma jornada de evolução da alma.

  1. Entered Apprentice (Aprendiz Admitido ou 1° Grau)
    O foco deste grau primordial é o despertar da luz interior. O ritual é estruturado em torno do silêncio contemplativo e da introdução às virtudes básicas, interpretadas sob a ótica do Dharma — o dever cósmico e a busca pela ordem universal. Elementos místicos, como as Mystic Charges (Cargas Místicas) de Besant e invocações sutis aos elementais, são introduzidos aqui para enfatizar o alinhamento da alma do iniciado com a harmonia divina. Simbolicamente, o grau representa o nascimento da consciência iniciática.
  2. Fellow Craft (Companheiro de Ofício ou 2° Grau)
    A jornada do Companheiro é a do autoconhecimento aprofundado. O ritual explora as artes liberais, com ênfase na geometria sagrada e na harmonia cósmica, como ferramentas para a construção do Templo interior. A cerimônia é deliberadamente elaborada, com o uso de incenso e velas para reforçar uma atmosfera de elevação espiritual, preparando o candidato para a síntese filosófica e moral que está por vir.
  3. Master Mason (Mestre Maçom ou 3° Grau)
    Este grau é a culminação da jornada simbólica. A alegoria hiramítica da morte e ressurreição é o veículo para explorar os temas da imortalidade da alma e da integridade perante a adversidade. O ritual é amplificado por Cargas Místicas que se concentram na evolução da alma e no dever (Dharma) de serviço à humanidade. O grau representa a maturidade espiritual e a “ressurreição” de um ego transcendido, capaz de abraçar a plena irmandade universal.

O sistema também cobria os graus colaterais de Maçom da Marca e o Sagrado Arco Real, trazendo uma roupagem própria e interpretação baseada na filosofia teosófica.

Embora o Dharma Working puro (de 1904) seja hoje uma peça histórica, sua alma e sua metodologia não apenas sobreviveram, mas evoluíram. O ritual metamorfoseou-se em variantes diretas, principalmente o Lauderdale Working, desenvolvido a partir de 1925 com refinamentos até a década de 1960. Esta evolução, longe de ser uma diluição, foi um processo de adaptação que manteve o núcleo teosófico — as invocações, a atmosfera cerimonial, as Cargas Místicas — enquanto se integrava a contextos mais amplos.

Em 2025, esta linhagem ritualística permanece ativa. A Universal Co-Masonry, uma obediência mista independente com sede nos EUA, pratica explicitamente o Lauderdale Working como a base para seus três primeiros graus que integra o que eles chamam de Ancient and Accepted Universal Rite (um sistema que mescla REAA e York Rite que vai do 4 ao 33). Com cerca de 29 lojas ativas espalhadas pelos EUA, Brasil, Chile, Filipinas e outras nações, ela é a principal guardiã desta tradição. Similarmente, diversas federações da ordem internacional “Le Droit Humain”, como a Britânica, a Australiana e a Sul-Africana, utilizam o Lauderdale como um de seus principais rituais, com estimativas indicando que entre 30 a 50 lojas globalmente ainda trabalham ativamente sob esta herança esotérica.

Uma Perspectiva Antropológica: Rito como Ponte Cultural

Do ponto de vista antropológico, o Dharma Working é um artefato fascinante. É um rito de passagem que, como descrito por Arnold van Gennep, guia o iniciado por um processo de separação do mundo “profano”, imersão em um estado liminar de aprendizado místico e, finalmente, reintegração como um ser transformado.

Mas ele é mais do que isso. É um exemplo de hibridismo cultural nascido do encontro colonial. Besant e Leadbeater, imersos no orientalismo da Teosofia, pegaram conceitos orientais como o Dharma e os usaram para revitalizar o que eles viam como uma tradição esotérica ocidental decadente. É um ato de bricolage, como o descreveria Lévi-Strauss, a montagem de elementos díspares para criar uma prática nova e coerente.

Crucialmente, ao insistir na iniciação de mulheres em pé de igualdade, o rito subverte a antropologia tradicional das sociedades secretas masculinas.

Uma Análise Maçônica: A Divergência Esotérica

Para a Maçonaria tradicional, o Dharma Working é “irregular”, haja vista que contraria as Old Charges e os Landmarks (A lista de 3 ou a de 54?). No entanto, ignorá-lo seria perder a oportunidade de entender uma escola filosófica que enriquece a tradição. Enquanto muitos ritos tratam o simbolismo como uma alegoria puramente moral, o Dharma Working insiste na eficácia oculta do ritual.

Para Leadbeater e Besant, o maçom não está apenas simbolizando a construção de um templo; ele está literalmente participando de uma obra cósmica.

O Legado do Dharma Working

O Dharma Working, em suas formas evoluídas como o Lauderdale, permanece como um testemunho da visão de seus criadores. Sua prática contínua em dezenas de lojas ao redor do mundo prova a resiliência de uma abordagem que ousou ser inclusiva, abertamente mística e global em sua perspectiva. Ele nos desafia a olhar para além de nossas próprias definições de regularidade e a reconhecer a beleza e o valor em ramos da árvore maçônica que escolheram crescer em direções diferentes, um lembrete luminoso de que a busca pela luz pode assumir muitas formas.

Referências:

  • BESANT, A. The ancient wisdom. London: Theosophical Publishing Society, 1910.
  • BESANT, A.; LEADBEATER, C. W. Thought-forms. London: Theosophical Publishing House, 1905.
  • LEADBEATER, C. W. The hidden life in Freemasonry. Adyar: Theosophical Publishing House, 1926.
  • LÉVI-STRAUSS, C. La pensée sauvage. Paris: Plon, 1962.
  • OLDMEADOW, H. Journeys East: 20th century Western encounters with Eastern religious traditions. Bloomington: World Wisdom, 2004.
  • PRESCOTT, A. A history of British Freemasonry. London: Freemasons’ Hall, 2008.
  • SNOEK, J. Initiating women in Freemasonry: The adoption rite. Leiden: Brill, 2013.
  • UNIVERSAL CO-MASONRY. Official website. Larkspur: Universal Co-Masonry, 2025. Disponível em: https://www.universalco-masonry.org. Acesso em: 21 dez. 2025.
  • VAN GENNEP, A. The rites of passage. Chicago: University of Chicago Press, 1960.

 

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Sobre Tacio Brito

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Tácio Brito é empresário, consultor de cultura e inteligência artificial, polímata, mestre maçom da ARLS Universitária Sergipe D'El Rey Nº 4703

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