A Associação Brasileira de Criadores de Camarão está fazendo um censo inédito da carcinicultura em Sergipe, estado que ocupa atualmente a quarta posição entre os maiores produtores de camarão do país, com cerca de 150 milhões de reais movimentados por ano e um número estimado entre 500 e 800 produtores. O levantamento, que também abrange Alagoas, Ceará, Piauí e Paraíba — este último já concluído — tem como objetivo mapear detalhadamente a cadeia produtiva local, identificar gargalos e orientar um plano de desenvolvimento para o setor.

Segundo o presidente da ABCC, Itamar Rocha, Sergipe nunca contou com um censo específico da atividade, sendo incluído anteriormente apenas em levantamentos mais amplos. “Agora nós estamos com um censo específico para levantar a cadeia produtiva, como é que ela se encontra, quais são as dificuldades que ela está encontrando, as demandas de curto e médio prazo para que o estado possa realmente deslanchar mais e utilizar toda a sua potencialidade, que é muito grande”, afirmou.
O estado, de acordo com Rocha, possui condições naturais favoráveis à carcinicultura, com ampla disponibilidade hídrica, incluindo áreas ao longo do Rio São Francisco e regiões próximas à divisa com a Bahia. Ele lembra que os primeiros projetos no estado foram elaborados ainda em 1988, na época em que João Alves Filho era ministro do Interior, inicialmente voltados para água doce. Hoje, predomina o cultivo do camarão marinho da espécie Litopenaeus vannamei, conhecido como vannamei, responsável por cerca de 80% da produção mundial de camarão cultivado.
Apesar do potencial, o censo busca revelar fragilidades estruturais da cadeia produtiva em Sergipe. Entre os principais gargalos estão a ausência de fábricas de ração, a inexistência de larvicultura e a limitação da indústria de beneficiamento. Atualmente, há apenas uma unidade industrial de pequeno porte em Propriá, que atende também Alagoas, considerada insuficiente para a demanda. “Você tem uma força do setor, um potencial grande, e não tem os pontos principais. Ninguém começa a criar sem a larva, e tem a ração para alimentar o camarão. E você está na dependência”, pontuou.
O levantamento vai identificar “quem são e onde estão” os produtores, com georreferenciamento das fazendas, evitando duplicidade de dados e permitindo acompanhamento futuro. Também serão coletadas informações sobre capacidade financeira, nível de instrução, uso de tecnologia, assistência técnica, comercialização e dificuldades enfrentadas, como o acesso ao crédito. “Financiamento é praticamente zero. Como você pode imaginar produzir um camarão que custa dois dólares o quilo e não ter financiamento de custeio?”, questionou Rocha.
Plano de desenvolvimento
Os dados serão sistematizados, organizados e publicados, com previsão de apresentação durante a Fenacam, em novembro. Antes disso, uma radiografia preliminar deve estar disponível até agosto. A partir dessas informações, será elaborado um plano de desenvolvimento financiado pelo Ministério da Agricultura, que deverá ser apresentado a candidatos nas eleições, como proposta de política de Estado. “Não é um negócio de partido, é um negócio do estado”, reforçou.

Além de Sergipe, o censo está sendo realizado em Alagoas, Ceará e Piauí, enquanto a Paraíba já teve seu levantamento concluído. Pernambuco e Bahia devem ser incluídos em etapas futuras, devido a limitações de recursos e à complexidade do território baiano.
A execução do censo está a cargo de uma empresa do Rio Grande do Norte, com experiência em levantamentos semelhantes na região. As equipes atuam com coleta de dados em campo e georreferenciamento, garantindo confidencialidade das informações e precisão no mapeamento.
No cenário regional, o Ceará lidera a produção nacional de camarão, seguido por Rio Grande do Norte e Paraíba. Sergipe aparece em quarto lugar, disputando posição com Bahia e Pernambuco. Mesmo com esse desempenho, o estado ainda enfrenta limitações estruturais e falta de apoio institucional.
Rocha também comparou o desempenho brasileiro com o de outros países, destacando o avanço do Equador, que em 2025 exportou 7,5 bilhões de dólares em camarão, com produção de 1,45 milhão de toneladas. O Brasil produziu cerca de 225 mil toneladas no mesmo período e não exportou. “Já fomos líderes das importações dos Estados Unidos e da Europa no início dos anos 2000. Por que saímos desse destaque?”, indagou.
Apesar das dificuldades externas, o mercado interno brasileiro apresenta crescimento. O consumo passou de cerca de 20 mil toneladas em 2002 para 225 mil toneladas em 2025, indicando maior aceitação do produto. Segundo Rocha, o camarão cultivado apresenta vantagem por chegar fresco ao consumidor, diferentemente do produto importado.
O dirigente defende ainda a adoção de políticas públicas de incentivo, como simplificação do licenciamento ambiental e criação de legislações específicas para pequenos produtores, a exemplo do que já ocorre no Rio Grande do Norte. Também cita iniciativas como a inclusão do camarão na merenda escolar, já adotada em alguns municípios nordestinos, como estratégia para ampliar o consumo e fortalecer a cadeia produtiva.
Para Rocha, o objetivo é mobilizar governo, instituições e investidores em torno do potencial da atividade. “O que a gente quer é levantar a bola, mostrar que existe uma atividade primária extremamente importante, que não depende de chuva, usa água salgada e tem um produto que é estrela da gastronomia mundial”, afirmou.
Com o censo e o plano de desenvolvimento, a expectativa é atrair investimentos e reposicionar Sergipe e o Nordeste no mercado global da carcinicultura, aproveitando a demanda crescente de grandes importadores como China, Estados Unidos, Europa e Japão.
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