Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)
Lançada no dia 8 de junho de 1962, pela Alpargatas (empresa brasileira de origem escocesa do início do século XX), as sandálias Havaianas foram o mote das principais discussões nas redes sociais das últimas semanas, com reflexos no campo político. Nunca é demais lembrar que, além de ser um dos produtos de calçados mais populares do país, também é um dos prediletos de outras classes sociais mais abastadas, tornando-se, desse modo, uma preferência nacional.
Nesse sentido, antes de refletir sobre a sua última campanha publicitária que vem causando um grande rebuliço, penso que boa parte da população brasileira tem alguma memória envolvendo a marca. Eu, particularmente, tenho ao menos duas que me marcaram muito. Todas elas ocorreram entre o final dos anos 70 e 80, como parte de minha movimentada infância.
Na gestão do Prefeito Municipal de Lagarto, José Vieira Filho (1977-1982), a cidade, sobretudo o centro urbano, foi beneficiada com uma pavimentação asfáltica. Eu morava nas proximidades da Praça da Piedade, na Travessa Municipal, 33. Curioso com a novidade, fui ver de perto a obra, que começava com a aplicação de uma espécie de óleo preto, grudento, que servia para preparar o paralelepípedo para receber a borra asfáltica.
Nessa oportunidade, eu estava na calçada da praça e precisava voltar para o outro lado. Ao atravessar a rua que ficava de frente para a residência do saudoso comerciante, Nozinho, um dos pares de minha Havaiana verde com branco (não me recordo qual, se direito ou esquerdo), colou no grude e ficou preso no passeio. Não pude resgatar e cheguei em casa chorando, com um pé no chão. Um dia, quem sabe, arqueólogos possam encontrá-lo.
O sucessor de José Vieira Filho, Artur de Oliveira Reis (1983-1988), no auge de seu mandato e às voltas com os projetos hídricos implementados pelo governador João Alves Filho (1983-1987), recebeu em Lagarto a visita oficial do presidente da República, o general João Batista Figueiredo. Era janeiro de 1984, quando eu tinha 9 anos de idade. Lembro quando o helicóptero de sua comitiva pousou onde hoje é popularmente conhecido como Praça do Tanque Grande, na verdade um largo enorme, que hoje é usado para eventos e estacionamentos do Mercado Municipal José Corrêa Sobrinho.
Ao pousar, a aeronave levantou uma densa nuvem de poeira, dispersando parte dos milhares de curiosos. Em meio à multidão que corria para cumprimentar as autoridades, acabei tendo um dos meus pés pisados (novamente, não lembro se esquerdo ou direito). Com o pisão, perdi um par de minha Havaiana amarela com branco. Para variar, chorei copiosamente pela perda. Eis que senti uma mão pesada na minha cabeça. Ao me erguer, vi aquele homem com cabelos ralos, quase careca, usando óculos Ray-ban pretos (estilo aviador). Era o presidente, acompanhado do prefeito e do governador. Sorrindo, ele me perguntou: “Ei, rapazinho! Por que está chorando?”. Eu disse a ele que tinha perdido a minha Havaiana. Sem mais nenhuma palavra, ele assanhou meu cabelo e seguiu seu caminho. Nos dias que se sucederam, eu fiquei refletindo: “Bem que o presidente poderia me dar um par de Havaianas novas”. Pura ilusão. Não se pode esperar gestos nobres de um ditador. E assim as Havaianas vão, ao longo de anos, fazendo parte dos pés (esquerdo e direito) da vida de muitos de nós que um dia fomos crianças e as usamos na fase adulta.
Aliás, em razão disso tudo, acabei comprando um par delas, vermelho (não porque eu seja comunista, mas porque é a minha cor predileta – risos). Usávamos até quando era necessário colocar um prego ou grampo no seu solado. Quem nunca já levou uma chinelada de Havaiana da mãe? E por aí segue uma série de histórias além das que partilhei anteriormente tão somente para confirmar a popularidade desta marca de calçado e a sua importância histórica para o país e para a sua economia.
Pois bem, eis que a genial e talentosíssima atriz Fernanda Torres, mais uma vez, chamou a atenção do país inteiro, como fizera no início de 2025, com toda a repercussão e sucesso do filme “Ainda Estou Aqui”. Desta feita, numa das conhecidas e criativas campanhas publicitárias das Havaianas, que só perdem para as que eram feitas pela Bombril, com o ator e comediante Carlos Moreno.
Ao ver o comercial, e o vi outras vezes, confesso, honestamente, que não encontrei nada demais no texto, que segue ipsis litteris:
“Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não, não é nada contra a sorte, mas vamos combinar: sorte não depende de você, né? Depende de sorte. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca, os dois pés onde você quiser. Vai com tudo, de corpo e alma, da cabeça aos pés”.
Eu demorei a acreditar que haviam feito todo um escarcéu em torno disso. Meu nível de bom-senso, para não dizer minimamente de racionalidade, não me permitia crer que uma parcela da sociedade viu nessa campanha comercial uma manipulação política da empresa contra a chamada ala direita, notadamente os seguidores mais radicais do “fenômeno político” bolsonarismo.
A ignorância em torno do episódio alcançou os maiores absurdos que se possa esperar de um ser humano, aos menos dos dotados de racionalidade. A inaptidão para pensar, porque esforço não houve algum, é tanto que beira à falta de memória e, sobretudo, à falta de capacidade de ler, ver, ouvir, entender e interpretar o mundo. Falta de memória, porque as Havaianas já fizeram um comercial com Romário, em plena Copa do Mundo de 2014, no Brasil, em que ele comprava um par das sandálias, ficava como pé direito e enviava o par esquerdo para Maradona.
Veja. Aqui, como quer desconstruir o comercial de Fernanda Torres, estava em questão a demonização histórica do lado esquerdo, que chegou a ser associado ao diabo na Idade Média. Ou a ideia de que “pé esquerdo” dá azar, por isso a necessidade pagã de entrar nos lugares ou o ano novo com o “pé direito”. Não lembro de ter visto, na época do comercial com Romário, a esquerda política ficar com raivinha boicotando a marca famosa da Alpargatas, estimulando as pessoas a cortar e jogar pares e mais pares de Havaianas num país onde ainda há muitos descalços, pobres e que vivem sem dignidade.
Outra coisa que falta a essa gente que desvirtua o sentido prático e reflexivo da propaganda com Fernanda Torres é a graça, o humor mesmo. Raivosa, essa turma não consegue rir das coisas da vida, está sempre à espreita para destilar ódio, combate e raiva, muita raiva. Um recalque profundo que não lhe permite viver sem neuras, com amor e liberdade. Por isso mesmo, a capacidade de conviver em sociedade é zero, ocupada que está em apontar o cisco no olho dos outros ou “guardando” centenas de notas em dinheiro vivo em casa.
Toda essa má vontade com o novo comercial das Havaianas revela muito mais do que um país polarizado entre esquerda e direita. Para a neuropsicóloga e educadora, Adriana Fóz, as novas gerações estão perdendo certas habilidades cognitivas e socioemocionais, muito em razão do “narcisismo virtual”, o que nos leva a pensar sobre que tipo de educação as crianças e os jovens brasileiros estão recebendo para além do que as redes sociais e a internet nos proporcionam ou mesmo alguns segumentos religiosos.
Fato é que estamos num momento claro de emburrecimento da sociedade brasileira, capitaneado por gente vazia em todos os sentidos, não somente de capacidades cognitivas, mas também de uma espiritualidade sadia. Quando não há condições de saber e de aprender, como diz a sabedoria popular, resta o bom-senso e a sensibilidade. No caso dessa gente anti-Havaianas, nem inteligência, nem sabedoria e sequer espiritualidade.
Não sei você, caro leitor. Mas, eu entrei o ano com os pés direito e esquerdo, de corpo e alma. Calçando, inclusive meu novo par de Havaianas — vermelhas. Com o coração ansioso por viver novas experiências, aberto ao amor de Deus, à tolerância e ao aprimoramento da inteligência, me permitindo sempre aprender. Quanto à extrema direita, frente ao exposto, penso que ela segue dando demonstrações de que é extremamente burra, levando a sociedade brasileira para um caos que, para além de preocupante e nocivo, precisa ser combatido e evitado.
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