segunda-feira, 16/03/2026
Wilson Miguel, agente de microcrédito
Wilson Miguel, agente de microcrédito, mudando vidas Foto: Acervo pessoal

Agentes percorrem 1,3 mil km por mês para levar crédito que transforma vidas no campo

Compartilhe:

Por Antônio Carlos Garcia (*)

Todos os meses, os agentes de microcrédito que atuam no programa Agroamigo, do Banco do Nordeste,  percorrem, em média, 1.341 quilômetros pelas estradas do interior de Sergipe — distância equivalente ao trajeto entre Aracaju e Brasília. De motocicleta, visitando povoados e pequenas propriedades rurais, eles realizam cerca de 70 visitas mensais a agricultores familiares. O trabalho vai além da concessão de crédito: ao facilitar o acesso ao financiamento, esses profissionais ajudam a impulsionar o empreendedorismo no campo e a transformar a vida de famílias que dependem da agricultura para sobreviver.

Em muitos casos, o crédito representa o ponto de partida para mudanças profundas na realidade dos produtores. Com recursos para investir em equipamentos, animais ou ampliação da produção, agricultores familiares conseguem aumentar a renda, estruturar pequenos negócios e garantir melhores condições de vida para suas famílias.

Ao todo, 54 agentes de microcrédito — sendo 49 homens e cinco mulheres — atuam em Sergipe, distribuídos em 14 unidades do Agroamigo. Eles estão lotados nas cidades de Boquim, Carira, Estância, Gararu, Itabaiana, Lagarto, Laranjeiras, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora das Dores, Neópolis, Poço Redondo, Propriá, Simão Dias e Tobias Barreto, atendendo produtores rurais em diversas regiões do estado.

Esse trabalho de campo ajuda a explicar o crescimento do crédito rural destinado à agricultura familiar. O Banco do Nordeste (BNB) registra ampliação dos financiamentos voltados ao setor por meio do programa de microcrédito rural. Em 2025, foram contratados R$ 383,5 milhões, com destaque para as linhas Agroamigo Crescer e Agroamigo Mais, destinadas a agricultores familiares com renda bruta anual de até R$ 360 mil.

Somente na linha Agroamigo Crescer, voltada para produtores com renda de até R$ 50 mil por ano, foram contratados mais de R$ 312 milhões em cerca de 25 mil operações, crescimento de 2,5% no valor aplicado e 4,2% no número de contratos. Já o Agroamigo Mais, direcionado a agricultores com renda anual de até R$ 360 mil, registrou R$ 52 milhões em mais de 1,2 mil contratos, com expansão de 1,5% no volume financeiro e 0,5% nas operações.

Dados do Banco do Nordeste
Dados do Banco do Nordeste

Crédito acompanhado e orientado

Coordenadora do Agroamigo na unidade de Lagarto, Massilene da Silva Santos explica que o trabalho das equipes envolve muito mais do que a liberação dos recursos. O programa acompanha os produtores desde o primeiro contato até a aplicação do crédito.

Massilene e equipe
Massilene Santos coordena agentes de microcrédito Foto: Acervo pessoal

Funcionária do Instituto Nordeste Cidadania (Inec) — parceiro do Banco do Nordeste na execução do programa — Massilene coordena uma equipe responsável pelo atendimento em Lagarto, Salgado e Riachão do Dantas. “Hoje nós temos uma procura muito grande pelo crédito, tanto de clientes novos quanto daqueles que já renovam os financiamentos. Isso é resultado de um trabalho forte de divulgação e das parcerias com órgãos como a Secretaria de Agricultura, a Indagro e o sindicato dos trabalhadores rurais”, afirma.

A unidade possui atualmente mais de 7 mil clientes ativos, todos agricultores familiares cadastrados no Cadastro da Agricultura Familiar (CAF), documento que permite o acesso às políticas públicas voltadas ao setor. Segundo Massilene, os valores financiados variam de acordo com a necessidade de cada produtor. Existem operações voltadas para melhorias sanitárias, pequenos investimentos ou ampliação da produção. “A média maior hoje fica entre R$ 15 mil e R$ 18 mil, valores usados principalmente para investir na atividade produtiva”, explica.

As demandas variam conforme o perfil econômico de cada município. Em Lagarto, por exemplo, predominam financiamentos voltados à bovinocultura de corte. Já em Riachão do Dantas, muitos produtores buscam crédito para o cultivo de abacaxi, enquanto em Salgado há maior procura por financiamentos ligados à fruticultura e criação de pequenos animais.

Outro indicador importante do programa é o nível de pagamento das operações. Segundo a coordenadora, a carteira apresenta índices elevados de adimplência. “Nós temos uma taxa de reembolso entre 97% e 98%, porque trabalhamos com crédito acompanhado e orientado. Visitamos os clientes antes de conceder o financiamento e voltamos depois para verificar a aplicação do recurso”, afirma.

Histórias de transformação

Grande parte desse trabalho acontece nas estradas do interior. O agente de microcrédito Wilson Miguel dos Santos, que atua há quase 16 anos no programa, atende produtores principalmente no município de Riachão do Dantas. “Depende muito dos povoados que a gente visita. Tem lugares mais distantes, como Forras e Cruz de Palmares. Em média, eu percorro entre 250 e 300 quilômetros por semana”, conta.

Para ele, a maior recompensa do trabalho é acompanhar de perto a evolução dos produtores ao longo dos anos. “Esse trabalho é um sonho para a gente. A gente vê pessoas que começaram praticamente do zero e hoje têm um negócio estruturado, gerando renda e emprego”, afirma.

Uma dessas histórias é a da artesã Josefa Selvina Santos, conhecida como Dona Josélia, moradora do povoado Forras, em Riachão do Dantas. Hoje com 52 anos, Josefa começou a trabalhar com costura utilizando uma antiga máquina de pedal. “Naquele tempo eu tinha só uma máquina velha. Depois consegui colocar um motor e fui melhorando”, lembra.

Dona Josefa começou com uma máquina antiga e depois adquiriu máquinas industriais; colchas produzidas pela artesã Fotos: Arquivo pessoal

Com o acesso ao crédito, conseguiu comprar uma máquina industrial, que na época custava cerca de R$ 3 mil, investimento alto para a realidade da família. Hoje ela produz colchas, conjuntos de cozinha, camisas e peças artesanais, incluindo o tradicional bordado conhecido como “casa de abelha”. A produção chega a cerca de 100 colchas por mês.

Parte da produção é vendida para uma fábrica em Tobias Barreto, que atualmente busca as mercadorias diretamente em sua casa. “Antes eu colocava as peças no transporte coletivo e ia de loja em loja oferecendo. Hoje eles vêm buscar aqui”, conta.

O crescimento do negócio permitiu ampliar a casa e criar um espaço maior de trabalho. Atualmente ela possui quatro máquinas industriais e conta com a ajuda do marido e dos filhos. “Um filho trabalha em Aracaju e minha filha estuda odontologia na Universidade Federal de Sergipe, em Lagarto”, afirma. Os recursos ajudam na manutenção da filha em Lagarto.

Ela também faz questão de reconhecer o papel do agente de microcrédito.“O Wilson é muito bom. Ajudou muito a gente. Agradeço a Deus e a ele também.”

Da roça dos outros ao próprio sítio

Outra história acompanhada pelo agente é a do agricultor Elenildo dos Santos, 44 anos, morador do povoado Cruz de Palmares, também em Riachão do Dantas. Criado no campo, ele lembra que durante muito tempo trabalhou como diarista.“Eu trabalhava na roça dos outros, vendendo o dia quando aparecia serviço”, conta.

Agricultor Elenildo dos Santos
Agricultor Elenildo dos Santos: “O que eu tenho hoje, depois de Deus, foi através do banco”

O primeiro financiamento com o Agroamigo foi de R$ 5 mil, usado para comprar gado e uma máquina para moer ração. Hoje ele mantém roça de maracujá, plantação de banana e algumas cabeças de gado, além de galinhas criadas na propriedade. Parte da produção é vendida em feiras da região.“Hoje eu trabalho para mim e para minha família. O que eu tenho hoje, depois de Deus, foi através do banco”, afirma.

Histórias como as de Josefa e Elenildo fazem parte da rotina dos agentes de microcrédito que cruzam o interior de Sergipe. São mais de 1.300 quilômetros percorridos por mês, visitas a povoados distantes e conversas com produtores que buscam uma oportunidade de crescer.

No fim das contas, cada quilômetro rodado pode representar muito mais que um financiamento aprovado — pode ser o início de uma nova história para quem vive e trabalha no campo.

Compartilhe:

Sobre Antônio Carlos Garcia

Avatar photo
CEO do Só Sergipe

Leia Também

pães

Padarias: workshop em Aracaju apresenta novas tendências da panificação

Aracaju recebe, no dia 12 de março, às 14h, o Workshop Tendências de Mercado de …

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WhatsApp chat