Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)
Mal o objeto teve tempo de despertar a curiosidade da geração atual, muito em razão de seu destaque e aparição no filme “O Agente Secreto” (inclusive no principal cartaz de divulgação), que logo foi relegado ao desaparecimento, ao menos físico, das vias públicas do país.
Aliás, a última vez que o vi, com nostalgia, foi no segundo semestre do ano passado, na cidade de Alagoinhas. Não resisti ao encontro e tratei logo de fazer um registro fotográfico. Imagem essa que não tardará a ser ela, também, memória. Razão pela qual (esse jogo de esquecer e lembrar) achei por bem dedicar meu tempo a escrever o presente texto da semana.
Semana esta que entre inúmeras notícias, muitas de guerra, rumores de guerra e corrupção no sistema financeiro brasileiro (leia-se, banco privado), uma me chamou atenção a ponto de ser o mote inspirador destas e das linhas que seguem. A saber:
“Orelhões serão extintos em todo o Brasil até o fim de 2028. Serviço já teve mais de 1,5 milhão de terminais em todo o país” (Guilherme Jeronymo, repórter da Agência Brasil, Publicado em 20/01/2026).
Há exatos 150 anos, Alexander Graham Bell obteve a patente para uma das maiores invenções da comunicação mundial. Não tardou para que o telefone se popularizasse e alcançasse voos ainda maiores em termos de desenvolvimento e aperfeiçoamento tecnológico, chegando aos atuais smartphones. Com a colaboração brasileira na concepção de seu design, em 1971 a arquiteta Chu Ming Silveira, foi criado o Telefone de Uso Público (TUP), popularmente conhecido por orelhão.
Três anos depois, surgiu a saudosa Telecomunicações de Sergipe S/A (Telergipe), responsável pela instalação e disseminação do novo aparelho de comunicação telefônica em todo o Estado. Em 1998, a empresa foi privatizada deixando um legado importante e inúmeras memórias em torno do queridinho dos brasileiros de média e baixa renda, que não tinham condições de ter um telefone fixo em casa.
Por essa época, pelo menos as duas primeiras décadas (70 e 80), eu era uma criança por volta de dez anos de idade. Embora já possuísse um telefone fixo em casa, graças aos esforços de meu irmão mais velho, me vali muitas vezes do orelhão, em Lagarto, presente nas principais vias e, de modo particular, numa central da Telergipe que ficava localizada na Praça Filomeno Hora. O local foi pioneiro no interior do Estado, instalado em 1974, no mesmo ano da criação da Telergipe.
Dali, guardo momentos marcantes e alguns hilários. Lembro que íamos fazer uso dos serviços da empresa, levando nas mãos um pouco de álcool de uma flanela ou papel para limpar os fones (o de ouvir e também o de falar), pois, por conta do uso público frequente com o famoso “fedor de boca”. Às vezes, ia lá apenas por curiosidade, até mesmo para malinar, usando as cabines para brincar.

Outra coisa que me lembro com grande saudosismo ainda hoje, eram as enormes filas que se formavam para fazer uso do aparelho. A depender da conversa, as pessoas se irritavam com a demora e davam início à clássica reclamação, para desespero de quem estava na linha, normalmente resolvendo alguma demanda ou mesmo colocando a fofoca em dia. Era uma diversão à parte.
Como esquecer as famosas fichas que eram usadas para fazer as ligações e, anos mais tarde, os cartões telefônicos, dado o avanço e a modernidade dos aparelhos. Por conta da minha condição financeira, embora amasse colecionar figurinha na infância e na adolescência, não tive este privilégio. Mas, cheguei ainda a guardar alguns em meus pertences. Meus prediletos, embora não os tivesse, mas tinha colegas que possuíam, eram os que diziam respeito à História e à Cultura Sergipana.

Entre as muitas expressões que fazem parte de minhas memórias e certamente das de muitos de minha idade é “a ficha caiu”. Isto acontecia, por exemplo, quando não mais munido de um número suficiente delas, não se conseguia completar o assunto com seu interlocutor. Era assim que eu me explicava (a ficha caiu) quando da primeira oportunidade de rever a pessoa ou de tornar a falar com ela e esta querer saber, inclusive, porque lhe “bati o telefone na cara”. Em outra situação, quando a ligação completava ou mesmo, fortuitamente ganhava uma delas, seja quando ela caia acidentalmente num determinado local do aparelho ou lhe dávamos alguns golpes para alcançar o intento.
Ainda sobre a essa expressão, aguçando a minha curiosidade, ao assistir ao programa “Em pauta”, da Globo News, a jornalista Flávia Oliveira se referia à origem da frase como conotação de “agora ficou tudo claro” ou “enfim, entendi” – “a ficha caiu” ou “a ficha não caiu” que até hoje mesmo os mais jovens usam sem saber. Estando suas origens relacionadas, segundo Flávia, a uma cena do filme “Bye, Bye Brasil” (1979) e à uma das canções de Chico Buarque (1980), a qual, de mesmo nome.
Vejamos os trechos da letra que dizem:
Baby, bye, bye
Abraços na mãe e no pai
Eu acho que vou desligar
As fichas já vão terminar
(…)
Bye, bye Brasil
A última ficha caiu
Eu penso em vocês night’n day
Explica que tá tudo okay
No caso das memórias traumáticas daqueles tempos de ditadura militar no Brasil, parece que a ficha ainda não caiu para alguns, saudosos dos tempos de chumbo, à mercê de apoiar nomes que ainda sonham em implantar no país algo que a democracia e as lutas por ela ajudaram e seguem lutando por sepultar e extirpar da vida política brasileira.
A meu ver, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) erra na medida de retirar da via pública os aparelhos. Se os seus serviços não são mais úteis, pelas razões que todos conhecemos, que ele, o orelhão, pudesse continuar a fazer parte da paisagem urbana de nossas cidades. Considerando todas as proporções possíveis, Londres até hoje mantém suas charmosas cabines telefônicas, símbolos de identidade patrimonial local. Porque o orelhão não?
Só Sergipe Notícias de Sergipe levadas a sério.

