quinta-feira, 11/08/2022
Missa do Cangaço
A missa reuniu dezenas de pessoas ontem, na Grota do Angico, onde houve o massacre aos cangaceiros Fotos: Só Sergipe

A 25ª Missa do Cangaço, em Poço Redondo, é marcada por desabafo contra a distorção da história de Lampião e seu bando

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A 25ª Missa do Cangaço celebrada ontem, pelo padre José Valdinan, na Grota do Angico, em Poço Redondo, foi marcada por muita emoção, tristeza e um desabafo diante da “forma leviana como a história do cangaço está sendo propagada e escrita por pessoas que não conversaram com ninguém que viveu a história”, disse a jornalista Vera Ferreira, 67 anos, neta de Lampião e Maria Bonita, promotora da missa. A mãe de Vera, Expedita Ferreira, 89, estava com ela, mas não foi à grota.

Expedita Ferreira Nunes, filha de Lampião, com a Vera Ferreira e uma amiga, no Cangaço Ecopark

O desabafo, que contagiou a todos, é pelo fato de a mídia chamar de “novo cangaço” o grupo de assaltantes que explode agências bancárias em cidades pequenas pelo Brasil. “O novo cangaço está no xaxado, nos bornais, nos bordados, nos grupos de bacamarteiros”, corrigiu o dramaturgo João Dantas, que participou do evento vestido a caráter. Ou seja, com a indumentária semelhante a dos cangaceiros.

Vera organiza a Missa do Cangaço há 25 anos

Vera Ferreira fez uma crítica às redes sociais que “só trazem porcarias com esses alpinistas do cangaço”, e pessoas que querem “julgar a história, sem nunca ter lido”, referindo-se a uma série de informações distorcidas que são propagadas sobre Lampião e o cangaço. Ela lamentou que a educação no país seja “zero”, afirmou que a missa e o ato são atividades culturais e não político-partidária.  E fez questão de corrigir algumas inverdades que contam sobre Lampião. “Diziam que meu avô bebia uísque White Horse, usava perfume francês e que o chapéu de cangaceiro foi inspirado no chapéu usado por Napoleão Bonaparte”, lamentou.

Outra informação distorcida e que foi duramente criticada por todos, foi a propagada pelo Programa Fantástico, da Rede Globo, no quadro “Avisa lá que eu vou”, apresentado por Paulo Vieira. Ele disse que Lampião e Maria Bonita foram mortos em Piranhas, cidade alagoana que faz divisa com Canindé do São Francisco, Sergipe. O professor de Geografia, Orlando Carvalho, protestou e disse que “querem mudar a geografia”.

“Dizer que o massacre de Angico foi em Alagoas é uma piada. Estão querendo roubar Angico de Sergipe.  A Rede Globo está colocando Angico como Alagoas. Estão até querendo inverter o Rio São Francisco, que sempre desceu, mas agora dizem que está subindo”, criticou o professor Orlando.  Esse Fantástico foi ao ar no dia 3 de julho e até hoje a legenda da foto continua dizendo o seguinte: “Avisa Lá”: Paulo Vieira vai a Piranhas (AL), onde morreram Lampião e Maria Bonita”.  O secretário estadual de Turismo, Sales Neto,  no dia seguinte ao programa, enviou uma carta à Rede Globo protestando contra a informação equivocada e pedindo reparos. A emissora manteve a legenda equivocada e colocou uma nota da redação dizendo que a Grota do Angico fica em Poço Redondo.

Sob o pipocar dos tiros dos bacamartes, dança do xaxado, declamações de poesia de cordel e os protestos, Vera Ferreira lembrou que há 25 anos promove a Missa do Cangaço, mas que às vezes sente desgosto diante das inverdades que surgem sobre seus avós e demais cangaceiros. “Mas quando encontramos pessoas sérias como Ivanildo Silveira e João Dantas isso dá um alento à nossa alma”. Neste momento, todos os presentes disseram que Vera tem que continuar na luta e ela confirmou que seguirá. “Espero que um dia alguém faça o filme que mereça a história do cangaço”, completou.

Após a missa, no Cangaço EcoPark, houve uma apresentação da quadriha Paixão Junina, de Santana do São Francisco.

Lara Ciarabellini conheceu a caatinga ontem

Hoje Vera Ferreira foi ao Casarão da Baronesa de Água Branca, em Alagoas, um marco importante do cangaço, pois foi no dia 26 de junho de 1922 que a cidade foi invadida pelo cangaço. Ela também visitou  Deomiro Gouveira, e amanhã, 3o, segue para a Fazenda Maranduba, onde Lampião, no início de janeiro de 1932, repetiu o feito militar da Serra Grande, em 1926, ao derrotar uma numerosa força militar, integrada por famosos combatentes contra o cangaço.

Documentário

Pela segunda vez na Missa do Cangaço, o cantor Sérgio Bianco, de Peruíbe, São Paulo, lamentou a distorção da história. Já a fotógrafa italiana Lara Ciarabellini estava conhecendo pela primeira vez a caatinga e assistindo à Missa do Cangaço. “É muito bonito”, disse a fotógrafa que reside há 10 anos Lara Ciarabellini conheceu a caatinga ontemno Rio de Janeiro.

Ela acompanhava uma equipe que está fazendo um documentário “Os últimos cangaceiros”, que deverá estar pronto em dezembro. De acordo com a produtora Margarita Hernandez, o trabalho, que tem o apoio da Universidade Federal do Ceará, começou a ser feito em 2019, mas que tinha dado uma pausa devido à pandemia da Covid-19. “Será um longa para cinema”, frisou.

 

Trilha

A trilha até a Grota do Angico, partindo do Cangaço Eco Park, tem cerca de dois quilômetros

Para chegar à Grota do Angico, em Poço Redondo, embarcamos em  Piranhas (AL), navegamos plelo rio São Francisco a bordo do catamarã da MF Tur até  o Cangaço Eco Park, o maior parque ecológico do sertão sergipano,  e seguimos uma trilha por dentro da caatinga de aproximadamente um quilômetro. Mas é preciso ter atenção e as pessoas só devem fazer esse percurso acompanhadas por um guia do Eco Park.

No trajeto, que é todo sinalizado e indica quantos quilômetros/metros faltam para chegar até a grota, o turista conhecerá as plantas nativas da caatinga, como cactos, mandacaru, todas devidamente identificadas. Há também, durante o percurso, cestas de lixo, justamente, para ninguém deixar, por exemplo, garrafas de água vazias, papéis, no meio da caatinga.

É bom ter atenção, porque em alguns trechos existem pedras que são escorregadias, pois estão dentro de pequenos veios de água. Portanto, todo cuidado é pouco para não levar um escorregão.  Aproveite o trajeto para curtir o som da caatinga. De repente você ouve um pássaro ou até mesmo o chocalho colocado no pescoço de um boi que pasta na região.

Ao chegar à Grota do Angico você verá  um monumento erguido, pela Prefeitura de Poço Redondo,  pelo centenário de nascimento e 70 anos da morte de Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros:  Luís Pedro, Quinta-feira, Elétrico, Mergulhão, Enedina, Moeda, Alecrim, Colchete e Macela. O combate aconteceu, em 28 de julho de 1938.

Depois da caminhada – lembrando, obviamente, que é ida e volta – , uma opção de passeio à noite é em Piranhas, cidade que faz divisa com Canindé do São Francisco, onde a sugestão de hospedagem é a Pousada Vitória.  Mas, voltando em Piranhas, você encontra vários bares e restaurantes com diversas opções de alimentação, mais uma sugestão: vá  ao Restaurante Cachaçaria Altemar Dutra, no centro histórico, com capacidade de 360 pessoas.

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