domingo, 08/03/2026
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Para refletir, despertar e, acima de tudo, reumanizar. Porque não existe guerra santa Imagem gerada por IA

Guerra e rock and roll – um tapa na cara da hipocrisia

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Além de ser uma das maiores aberrações produzidas pela raça humana (com o perdão do termo humano), a guerra insiste em fazer seus estragos ao longo dos anos, não sendo diferente em nosso tempo. Os senhores da guerra, muitas vezes em nome de Deus e da paz no mundo, seguem arrastando jovens para a sandice dos conflitos bélicos, que, em sua maioria, vitimizam crianças e inocentes.

Na iminência de uma terceira guerra mundial, sobretudo desde a invasão da Ucrânia pela Rússia (que teria começado mesmo em 2014 e não, necessariamente, em 2022), e agora com essa dupla diabólica (Trump e Netanyahu) tocando o terror no Irã, com consequências para o resto do planeta, estamos à mercê dos humores dessa gente que faz da vida um detalhe, quando o fim último é apenas riqueza e poder.

Com base nisso, para fins de reflexão, recorri a quatro bandas e canções: “War Pigs” (Black Sabbath); “Goodbye Blue Sky” (Pink Floyd); Civil War (Guns N’ Roses) e “A canção do senhor da guerra” (Legião Urbana). A ideia é mostrar como a guerra só interessa a poucos privilegiados e apontar o poder da arte em sua capacidade de pôr o dedo na ferida, a fim de despertar as consciências e reumanizar e sensibilizar as pessoas, a fim também de que possamos enxergar a hipocrisia dos líderes mundiais, sobretudo das nações mais ricas, e fazer com que elas reforcem o desejo de paz e de prosperidade, com justiça social e irmandade.

Banda de heavy metal britânica, fundada em 1968, cujo líder foi o vocalista e multiartista Ozzy Osbourne (1948-2025),  Black Sabbath lançou em 1970 “War Pigs” (porcos de guerra). Com uma batida forte e intensa, entrecortada por riffs de guitarras estridentes, dá bem a tônica da sua letra certeira. Até o final de sua carreira solo, fez parte do repertório de seu líder, levando o público ao delírio. A canção denuncia as maquinações dos generais, que com suas “mentes malignas”, “tramam destruição”. Compara-os a feiticeiros que “edificam a morte”. Enquanto isso, reina o ódio à humanidade. Também faz uma dura crítica aos políticos que, além de promoverem uma lavagem cerebral coletiva, se escondem, “fazendo guerra só por diversão”. Na última parte, a canção profetiza o fim dessa gente, afirmando que a “mão de Deus marcou a hora”, anunciando a sua queda no “Dia do Julgamento”, onde Deus os punirá, enquanto eles, os porcos de guerra, de joelhos, rastejam, “Implorando misericórdia por seus pecados”.

Nove anos depois, em 1979, foi a vez da banda Pink Floyd dar o seu recado, com “Goodbye Blue Sky” (Adeus Céu Azul). Criada em 1964, também é uma banda britânica de grande sucesso internacional, famosa pela canção “Another Brick in the Wall, Pt. 2”, com também famoso refrão “Hey, teacher, leave them kids alone”, assim como pela estética revolucionária das capas de seus álbuns, a exemplo do disco “Wish You Were Here”. Em “Goodbye Blue Sky”, que tem uma melodia mais leve e lenta em relação à “War Pigs”, e também mais curta, apenas dois minutos e quinze segundos, destaque para as guerras aéreas, em seus aviões a soltar bombas do céu. O foco da canção é o trauma que uma guerra provoca, sobretudo nas crianças. Destaque para a passagem que diz: “Did you hear the falling bombs?” (Você já ouviu as bombas caindo?) / “The flames are all long gone, but the pain lingers on” (As chamas já estão todas muito distantes, mas a dor persiste).

Num tempo mais recente, última metade do século XX, a banda norte-americana Guns N’ Roses (fundada em 1985) lança mão de seu talento para também musicar sobre o flagelo da guerra na canção “Civil War” (1991). Com sete minutos e quarenta segundos, ela começa com uma fala introdutória e um fundo musical que faz lembrar os filmes de faroeste. Em seguida, a singular interpretação de Axl Rose (64 anos), vai dando a tônica do assunto, reforçando seu grave à medida que o enredo se desenrola. Fala em falha de comunicação, de jovens lutando e mulheres chorando, do ódio e do medo, enquanto “as guerras continuam com o orgulho dos alienados / Pelo amor de Deus e dos nossos direitos humanos”. Denuncia o genocídio e as mentiras, e vai recorrendo à própria história dos EUA para destacar sua sangrenta trajetória. Ao fim, destaca ainda as consequências da guerra, “que alimenta ricos enquanto pobres são enterrados”,

Por fim, a banda brasileira Legião Urbana (1982-1991). “A canção do senhor da guerra” foi lançada em 1992. De autoria de Renato Manfredini Júnior (Renato Russo), sintetiza e aprofunda, com nosso jeito todo particular de fazer arte no Brasil, todas as canções anteriores. Do começo ao fim, com uma refinada ironia, Russo desmistifica a ideia de que a guerra traz um bem. A canção tem quatro minutos e cinquenta e sete segundos e tem uma batida bem pop, mas com uma bela consistência sonora. Algumas passagens são bem atuais, como “Mais uma guerra sem razão” e, principalmente, a estrofe que diz: “E quando longe de casa/ Ferido e com frio o inimigo você espera / Ele estará com outros velhos / Inventando novos jogos de guerra”. Renato se dirige de modo muito particular ao jovem, à juventude, procurando mostrar que a guerra é uma tolice, um engodo, e no final das contas o “senhor da guerra”, além de não gostar de criança, também mente com promessas de uniformes lindos e de “que Deus está do lado de quem vai vencer”.

Como cristão que sou, sonho com um mundo melhor, mas temo que finde meus dias sem que possa alcançá-lo, como também meus filhos e talvez netos. Tudo isso em razão deste absurdo que é a guerra e sua capacidade de se reinventar e de se tornar cada vez mais letal, injusta e desumana. Que possamos cultivar em nossos corações essa consciência que as canções aqui escolhidas nos apresentam. Ao mesmo tempo, que tenhamos a coragem de denunciar e resistir a todos aqueles que pregam a guerra como recurso para se alcançar a paz e o desenvolvimento ou que venha a representar a vontade de Deus. Ao fim e ao cabo, não existe uma guerra justa ou santa, mas uma paz verdadeira e duradoura.

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Sobre Claudefranklin Monteiro

Claudefranklin Monteiro Santos
Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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