segunda-feira, 16/02/2026
Luiz Thadeu Nunes
Luiz Thadeu proferiu discurso de agradecimento durante o evento Fotos: Ascom/Alema

Um dia especial que já entrou para a história

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Por Luiz Thadeu Nunes e Silva (*)

 

Na segunda-feira, 09/02, tive a honra e o prazer de receber a medalha Manoel Beckman, da Assembleia Legislativa do Maranhão, a mais alta condecoração do legislativo do Maranhão. Ocasião em que reuni familiares, amigos, confrades e companheiros do Rotary.

Abaixo, meu discurso:

“Senhora deputada Andréia Rezende, autora desta honraria.

Senhoras e senhores parlamentares, demais autoridades, familiares, amigos, companheiros de caminhada, colegas da Setur, amigos do Colégio Batista, professores, confrades e confreiras, companheiros rotarianos, irmãos PcDs.

Agradeço ao Deus Vivo, Senhor de todas as coisas, pela dádiva da vida, por me guardar e me trazer de tão longe, permitindo chegar até aqui, neste momento tão significativo. Chego com o coração pleno de gratidão, honra e emoção.

A gratidão é, para mim, a maior das virtudes. Bem-aventurados os que a carregam no coração.

Agradeço aos meus pais, Luiz Magno e Maria da Conceição, in memoriam, pelo dom da vida, pelos exemplos e pelo amor que me ensinaram. A eles devo minhas raízes. Agradeço aos meus filhos, Rodrigo e Frederico, meus maiores bens nesta terra, companheiros fiéis de caminhada. Agradeço à minha nora, Ana Paula, por enriquecer nossa família com afeto e presença. Ao meu primeiro neto, Heitor, que vejo nele o prolongamento dos meus dias sobre a terra.

Alema
Luiz Thadeu na Alema

Recebo a Medalha Manuel Beckman com um sentimento grandioso e luminoso ao mesmo tempo — desses que se assentam fundo, como raiz que encontra água antiga. Esta honraria, a maior do Maranhão, não é apenas um reconhecimento pessoal: é um chamado à memória, à responsabilidade e à permanência.

Minha trajetória nasce do chão do Maranhão, desse solo que ensina resistência antes mesmo de ensinar direção. Como engenheiro agrônomo, aprendi que trabalhar a terra é trabalhar destinos humanos, e que nenhuma política floresce sem respeito à dignidade.

A vida, mestra exigente, decidiu interromper meus passos. Um acidente automobilístico suspendeu meu corpo no tempo e me lançou numa longa estação de imobilidade. Houve silêncio. Houve medo. Noites densas. O futuro, por algum tempo, pareceu distante, chegou a desaparecer no horizonte.

Aprendi que o tempo não espera por nós. Passa descalço sobre os dias, sem ruído, sem promessa de regresso. Não se comove com as nossas dúvidas, nem abranda diante dos medos que nos prendem. Enquanto pensamos, ele atravessa. Enquanto hesitamos, ele leva consigo um pedaço do que poderíamos ter sido. O tempo não se deixa segurar.

Não aceita mãos fechadas, nem pedidos tardios. Não devolve instantes, não remenda escolhas, não repete o brilho exato de um momento vivido.

É rio em fuga, é vento sem morada, é luz que toca e parte.

O que nos resta é o agora, esse lugar frágil e precioso onde a vida ainda respira.

Após o acidente que sofri em julho de 2003, foi então que a esperança, essa forma madura da fé, se impôs. Descobri que caminhar não é apenas mover as pernas: é sustentar a vontade. É acreditar em novos dias. Quando o corpo cessa, a alma precisa assumir o passo. E ela assumiu.

Hoje, com mobilidade reduzida, sigo caminhando apoiado em muletas. Elas deixaram de ser limite para se tornarem companheiras de jornada.

Thadeu na Alema
Familiares e amigos de Luiz Thadeu o prestigiaram na Alema

Com coragem e determinação, domei o medo, cruzei a soleira de casa e sai pelo mundo. Pisei em 162 países, em todos os continentes da Terra. Com muletas fiz travessia. Delas fiz asas. E, por um paradoxo generoso da vida, tornei-me viajante do mundo, levando comigo o Maranhão como identidade inegociável.

Em cada cidade, em cada fronteira, carrego São Luís do Maranhão — sua luz, sua memória, sua vocação para a palavra. Mesmo distante, continuo sendo filho desta aguerrida terra.

Aos 67 anos, tornei-me jornalista. A escrita foi meu segundo corpo. Desde menino, foi nos livros da Biblioteca Benedito Leite, e nas páginas dos livros e das revistas que chegavam ao Sítio do Físico, onde passava férias, e que pertenceu ao meu avô, Joaquim Felício Silva, que aprendi a viajar pela imaginação. Primeiro conheci o mundo através dos livros. Filho de educadora, formado no amor aos livros, encontrei na palavra meu modo de permanecer em movimento.

O livro “Das Muletas Fiz Asas” nasceu dessa travessia. Não é relato de dor, mas testemunho de superação. Como disse Jorge Luís Borges, quem realiza um sonho constrói uma parcela de sua própria eternidade. E sonhar sempre foi minha matéria-prima. Sonhar é destino dos vivos.

Nada disso teria sido possível sem o Deus Vivo — presença constante na minha vida, especialmente diante das tribulações, que me sustenta em todos os momentos. Um Deus que não promete atalhos, mas garante sentido.

Agradeço ao querido poeta Rinaldo, que conheci através do amigo José Henrique Brandão, que apresentou-me à deputada Andréia Rezende, e graças à sua sensibilidade e generosidade, estou hoje aqui a receber essa importante medalha.

Aos amigos, leitores e familiares, minha gratidão mais funda. São vocês que dão sentido à caminhada. Saio hoje desta Casa melhor do que entrei.

Às novas gerações, deixo uma palavra simples: não é a queda que define o destino, mas a coragem em continuar. Em ser resiliente diante das adversidades. O futuro pertence aos persistentes, aos teimosos, aos que não se abatem. “A vida é combate, que aos fracos abate, que aos fortes, aos bravos, só pode exaltar”, cito Antônio Gonçalves Dias, nosso poeta maior.

Todos os dias a vida manda eu desistir, mas, teimoso, desobedeço.

Recebo esta medalha não como ponto final, mas como marco de continuidade. Continuo caminhando — com consciência, esperança e fé no Deus Vivo.

A vida é movimento, a caminhada se faz andando, vamos em frente.

Um brinde à essa coisa mágica e maravilhosa chamada VIDA

Muito obrigado!”

 

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Sobre Luiz Thadeu Nunes

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Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”. E-mail: luiz.thadeu@uol.com.br

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