sexta-feira, 13/02/2026
'É a massa', Disco de Armadinho, Dodô e Osmar
Disco É a Massa, de Armadinho, Dodô e Osmar, de 1976

É a massa é massa

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Há cinquenta anos, a banda Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar lançava o seu segundo LP. Também naquele ano de1976, Armandinho apresentava ao público a guitarra com dois braços, em show memorável na Concha Acústica, em Salvador-BA. Mais do que nunca, o Carnaval em Salvador passava a fazer parte das grandes festas momescas do Brasil, atraindo a atenção da mídia nacional. Além dos meninos de seu Osmar e de Dodô, agitavam a praça trios como os dos Novos Baianos, Tapajós, o bloco Papa Léguas, fazendo sua estreia, o bloco Filhos de Gandhy — sob as bênçãos e apoio de Gilberto Gil —, além do bloco Os Internacionais.

Popularmente, “massa” é uma expressão típica do baiano para designar concordância efusiva. Por exemplo: “O Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar é massa!”. Ou seja, é muito bom! Massa, além de ser um conceito do campo da Física,  designa também multidão. Essa expressão, desta forma compreendida, já mereceu a atenção do psicanalista Sigmund Freud (1856-1939), notadamente na sua obra Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), onde ele assim se refere:

“A massa é extraordinariamente influenciável e crédula, é acrítica, o improvável não existe para ela. (…) Os sentimentos da massa são sempre muito simples e muito exaltados. Ela não conhece dúvida nem incerteza. Ela vai prontamente a extremos (…)”

Muito apropriadamente para aquela segunda metade dos anos 70, deu-se ao segundo LP do Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar o nome de “É a massa!”. Fundando seu próprio trio elétrico em 1974, na esteira da invenção do trio elétrico, em 1950, os filhos mais velhos de Osmar Macêdo (Betinho, Armandinho, Aroldo e André), o grupo vinha, ano a ano, imprimindo seu jeito todo particular de brincar Carnaval, misturando chorinho, frevo pernambucano e rock in roll. Predominantemente instrumental, o som do trio elétrico, com a banda, foi dando espaço para a voz, para o aperfeiçoamento dos instrumentos sonoros e também para a inserção de novas experiências rítmicas.

Nesse sentido, o LP “É a massa” está dividido em dois lados (A e B), com cinco músicas cada, a saber: Lado A – Saudação (Armandinho), Frevo Doido (Osmar), Frevor (Moraes e Armandinho) / Mais cedo ou mais tarde (Aroldo e Armandinho), Viva Nelson Ferreira (Moraes) e Esquenta muié (Nelson Ferreira); Lado B – Satisfação (Gilberto Gil), Swingue no sangue (Moraes), Frevo Dobrado (Aroldo), Bené do Boqueirão (Aroldo) e É a massa (Armandinho). O disco foi gravado pela Continental, com gravação e mixagem de Donald Lewis, Luis Cláudio e Luígi.

Das dez canções, apenas três são letradas: “Frevo Doido”, “Swingue no sangue” e “Satisfação”; esta última, como vimos, de autoria de Gilberto Gil. Gil que assina um belo texto que ilustra a contracapa do disco, ao lado de outro escrito por Osmar. No texto, Gil expressa toda a sua gratidão aos inventores do trio elétrico, mais de perto a Osmar Macêdo, particularmente quando diz “(…) Osmar, você me ensinou o que o trio elétrico é, e, a partir daí, a gente tem o direito de sonhar que o elétrico será”.

Nas letras das músicas “Frevo Doido” e “Swingue no sangue” é possível entender o porquê do título dado ao LP, sobretudo na passagem da primeira que diz “Paro prá pensar não dá / Pulo prá verificar / É nessa que quero entrar, / Vou cotovelar!”. Ainda não contaminado pela violência e pelo “não me toque” do nosso tempo, o LP traz a essência daquele Carnaval, no qual a multidão se comprimia para pular, levada pela onda de alegria que saía das bocas de autofalante do trio. Cotovelar-se não era um ato agressivo, mas o choque natural e pacífico de corpos na folia e no meio da rua. “Me leve que eu sou leve como a pena”, ressalta Moraes em “Swingue no sangue”.

E nessa toada, os meninos de Osmar iam tocando bem, conforme destaca Gil em “Satisfação”: “Agora olhe pro céu / Agora olhe pro chão / Agora repare a luz / Que vem lá do caminhão”. E essa luz me encantou como a mariposa à luz, ainda na minha infância, quando eu corria atrás do trio elétrico da Prefeitura Municipal de Lagarto, na gestão de José Vieira Filho (1977-1982). Não era o trio do Trio Elétrico Armandinho, Dodô e Osmar, mas aquele caminhão elétrico já reproduzia as canções do grupo que encantava a massa lagartense e a mim, que do meio da massa me tornei mais um tiete dessa turma que em muito contribuiu e contribui para o Carnaval baiano, abrindo alas e fornecendo os germes do que ele se tornou em nosso tempo.

No Carnaval de 2026, infelizmente não poderemos contar com a presença de Aroldo Macêdo, que vem se tratando de uma Paralisia Supranuclear Progressiva (PSP), doença neurodegenerativa. A propósito, desde o início deste ano, a família e amigos estão promovendo uma campanha (Vamos Sem Medo, Aroldo Macedo) para arrecadar fundos para bancar os cuidados que o músico precisará. Nesse sentido, na última segunda-feira, 9, os Irmãos Macêdo promoveram um ensaio aberto, nas dependências da Casa Rosa Rio Vermelho, que contou com a participação de  Gilberto Gil, Margareth Menezes e Gerônimo.

 

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Sobre Claudefranklin Monteiro

Claudefranklin Monteiro Santos
Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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