Por Heuller Roosewelt Silva Melo (*)
Agora, já durante esses dias de trabalho e de recolhimento reflexivo (porque, às vezes, a gente pensa que está falando muito, mas na verdade, bem lá no fundo, está é “engolindo” as palavras), fui atravessado por uma inquietação antiga: o que é, de fato, ter voz? O que realmente acontece quando a gente escolhe (ou é obrigado a) se calar?
Não estou falando de vírgulas e pausas naturais de respiração, nem do silêncio cúmplice das, outrora, retratadas manhãs sem barulho. Estou falando daquele silêncio amargo, onde a voz tem que se recolher não por escolha, mas por ressalva, por prudência, ou que seja, por medo. O silêncio que se instala quando se sabe que falar pode custar mais do que se imagina — o olhar atravessado, o julgamento velado, a represália que vem em forma de isolamento. É aí que percebemos: nem todo silêncio é pacificador. E nem toda fala é libertária.
Comecei então a lembrar da infância inocente, dos dias em que nos escutamos com menos filtros. Das vezes em que a conversa fluía sem medo de desagradar, de como ser interpretado, de “soar mal”. Da confiança de poder dizer algo sincero sem medo de virar alvo. Do direito de escrever o que se pensa sem precisar cortar palavras com a tesoura da autocensura. De quando nossas palavras ainda não eram reféns do algoritmo do celular que não para de “escutar” o que a gente fala, nem da conveniência de falar o que mais lhe seja aprazível.

Foto: Wikipedia
Nesse raciocínio obtuso, me veio à mente a citação de Martin Luther King, que me influencia ou me persegue há anos: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.” E percebi que, muitas vezes, temos trocado o incômodo necessário por uma paz ilusória. Que há um tipo de silêncio que não salva — só adia o conflito até ele estourar onde não deveria.
E talvez seja por isso que os regimes totalitários não temem armas – temem ideias. Porque a palavra é semente: uma vez lançada ao solo fértil da escuta, ela germina. Um poema pode incendiar corações. Uma canção pode derrubar muros. Um “não” bem-dito pode transformar uma estrutura inteira e mudar o sentimento de uma nação, enquanto um “sim” maldito pode transparecer subordinação e fraqueza. A palavra tem corpo. Tem densidade. Tem consequência. E é por isso que ela assusta tanto.
Recordei também da sabedoria antiga de Helena Blavatsky, que assim como no que retratamos sobre o Silêncio, ela ensina que existe um som que mata o som. Um tipo de vibração interior que só se ouve quando se silencia o ego. Assim, entendi que comunicação verdadeira começa com a escuta profunda. Não a escuta que espera a vez de falar, mas a que realmente se abre ao outro — mesmo que o outro seja um espelho do que ainda não entendemos em nós mesmos.
Nessa sequência filosófica, também me veio à memória O Livro Vermelho de Carl Jung, com sua corajosa imersão no inconsciente. Aquela travessia entre a palavra e o símbolo, entre o som e o silêncio, principalmente do que ainda não sabemos nomear. A voz que emerge dali não é barulhenta — é abissal. É a voz do Self, a totalidade da nossa psique que busca a individuação, e não a voz do Ego, que representa apenas o centro da nossa consciência. E essa fala, quando ouvida, pode redesenhar toda uma existência.
Nessas voltas e vozes, lembrei que comunicar é também um gesto espiritual. Uma vez entre colunas, “erguer templos às virtudes e cavar masmorras aos vícios” não é apenas uma máxima moral — é um chamado diário à reforma íntima. Um convite para usar a palavra como ponte e não como punhal. Um lembrete de que há formas de falar que adoecem e que curam. E há formas de calar que tanto machucam quanto restauram.
E, no meio de tudo isso, compreendi: falar é existir. E não se permitir falar é se negar. Cada vez que engolimos nossas convicções para agradar, ou nos omitimos diante da injustiça, estamos nos afastando de nós mesmos — e do outro. A comunicação é o solo onde floresce a empatia, e a falta dela é um deserto para a humanidade.
Voltar a falar com autenticidade — nos grupos, nas reuniões, nos corredores, nos cafés — é um ato revolucionário. E reconhecer o outro como alguém digno de escuta é mais do que respeito: é fraternidade. A convivência saudável não é a que evita o conflito, mas a que cria espaços seguros para o diálogo.
Porque o silêncio pode até ser necessário para reorganizar a alma…
Mas é a palavra — dita com coragem e afeto — que nos reconstrói por dentro e por fora.
A voz é verbo.
O verbo é semente.
E a semente só frutifica quando encontra terra boa — …ouvidos que escutam, olhos que leem, almas que compreendem.
#ParaTodosVerem: Imagem escura com a frase “Voz e Vazio” em letras claras. Ao lado direito, um detalhe da boca de uma pessoa com os lábios entreabertos e uma sombra profunda no lugar da boca, simbolizando o vazio ou o silêncio.
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