domingo, 01/02/2026
o som do silêncio
Somos feitos de silêncio e sons

 O paradoxo do Som do Silêncio no retorno laboral

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Por Heuller Roosewelt Silva Melo (*)

 

O Som do Silêncio é um paradoxo poético e filosófico presente na própria contradição da expressão: Como algo pode ter som e, ao mesmo tempo, estar em silêncio? Dependendo da lente, esse paradoxo pode ser definido de várias formas, seja pela perspectiva científica, filosófica e/ou transcendental de se comunicar com ou sem sons. O silêncio adquire contornos que vão da ausência à plenitude:

Na física, o silêncio é a ausência de vibração sonora perceptível. Mas, mesmo em um ambiente aparentemente silencioso, ainda se persistem sons sutis — a respiração, os batimentos cardíacos, o leve zumbido do mundo ao seu redor. O verdadeiro silêncio absoluto é raro e, quando experimentado, pode ser desconcertante.

Claude Debussy
Claude Debussy  Foto: Wikipedia

Na filosofia e na psicologia, o silêncio pode ser visto como um estado de introspecção, um espaço onde o ruído externo cessa e a mente se volta para dentro. Muitas vezes, é no silêncio que encontramos nossas verdades mais profundas, e isso pode ser ao mesmo tempo fascinante e assustador.

Na música e na arte, o silêncio é um elemento esteticamente essencial. Assim como dizia o compositor francês Claude Debussy: “A música é o silêncio entre as notas”. Ou seja, esse vazio sonoro tem um papel tão importante quanto as próprias notas, criando contraste, expectativa e emoção.

Na espiritualidade, o silêncio é frequentemente associado à paz, meditação e conexão com o divino. Muitas tradições espiritualistas enfatizam o poder do silêncio para alcançar sabedoria e clareza.

Durante esses dias de folga (nem tanta folga assim, né — a gente “parado” corre mais do que quando “tá aí na atividade”), experimentei um tipo diferente de sossego. Não aquele silêncio ruidoso provocado pelas notificações desligadas ou das manhãs sem pressa, mas o silêncio saudoso que ao mesmo tempo se fez ausente e presente — aquele que ecoa quando se percebe o quanto certos sons nos habitam sem a gente perceber.

A falta do som da máquina de café finalizando a bebida, do gole d’água da colega ao lado, do riso solto dos colegas no corredor, dos passos apressados daquele que não “perde a hora”, ou mesmo dos “Bom dia!” que se multiplicam como pequenos abraços verbais. Foi durante essa pausa que me dei conta de que essas sonoridades cotidianas não são simples ruídos — são identificações de trilhas sonoras de coletividade e pertencimento.

E na montagem desse material foi inevitável lembrar da canção The Sound of Silence, de Simon & Garfunkel, na qual poeticamente eles nos mostram que há silêncios que gritam e sons que se calam. “Hello darkness, my old friend… ” — diz a canção, revelando que é na ausência que ouvimos a nós mesmos. Percebemos nela que o som do outro nos habita — descobrimos que o “barulho” dos outros é parte da nossa própria identidade em movimento.

A voz do silêncioNa obra A Voz do Silêncio, de Helena Blavatsky, aprendemos que o verdadeiro som que importa é aquele que só se ouve no silêncio profundo. Ela descreve um “som que mata o som ” — uma vibração silenciosa que emana do coração espiritual quando silenciamos o ego e as distrações. Para ouvir essa voz, é preciso calar a mente inferior ligada ao ego e aos desejos materiais, é preciso apertar o botão do mute do falatório interno. Não é um silêncio vazio, mas uma escuta ativa da vida, do outro e de si mesmo.

Já em O Livro Vermelho, de Carl Gustav Jung, nos é apresentado seu testamento espiritual e criativo, deliberadamente um mergulho no inconsciente, escutando o silêncio da alma e os arquétipos que ecoam no vazio. Aqui, o silêncio não é ausência de som, mas o espaço fértil onde a alma fala. Esse livro é ideal para quem busca integrar as antíteses — razão e emoção, luz e sombra, ruído e silêncio, num confronto entre o caos, a sombra e o self.

O silêncio pode ser reconfortante ou perturbador, pode significar solidão ou plenitude, pode ser ausência ou presença. É um conceito que desafia os sentidos e nos obriga a olhar para dentro — e talvez seja exatamente por isso que ele instiga tantas pessoas.

Voltar ao trabalho é, portanto, muito mais do que retomar atividades. É desvendar o valor humano do ambiente compartilhado, onde cada som tem nome, rosto, história. É redescobrir os sons da coletividade — as vozes, as risadas, o tilintar da rotina, os silêncios compartilhados. É compreender que existe um tipo de som que não pode ser replicado lá fora ou em reclusão: o som da equipe em movimento, da ideia em ebulição, do olhar que escuta mesmo sem dizer. Onde o eco de uma ideia compartilhada pode ser tão poderoso quanto o silêncio respeitado de quem está ao lado.

Retornar ao time com gratidão — seja pelo descanso, seja pela pausa, seja sobretudo pela certeza de que nada substitui a harmonia de se estar entre pessoas que vibram na mesma egrégora — é também reconhecer que o som que mais me fez falta… foi o de vocês.

Porque o silêncio pode até ser necessário para o reencontro consigo…

Mas é o som da convivência que nos devolve à vida coletiva.

   O silêncio não é vazio.

   Ele é a argila que molda a escuta,

   o ventre do verbo,

   o eco do sagrado.

   Quando tudo grita,

   quem cala, carrega o mundo nas costas.

 

No próximo domingo: A Voz do Vazio, no contraponto do Paradoxo do Silêncio

 

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Sobre Heuller Roosewelt Silva Melo

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Um historiador, fazedor de contas; e um engenheiro, contador de histórias; progressista; bancário; esposo; pai ativo e presente. Sou do tipo que constrói templos à virtude e cava masmorras ao vício.

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