Outras palavras

Por que desenterrar defunto velho?

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Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)

 

Uma das melhores e mais precisas definições de alienado é a que diz ser uma pessoa afastada da realidade. A poucos dias da eleição que definirá o atual ou o mais novo presidente do Brasil, além de novos e velhos governadores, deputados estaduais, deputados federais e senadores, há, ainda, uma massa considerável de pessoas que está nessa condição, cujos atos podem colocar em risco a democracia, reconquistada a duras penas em meados dos anos oitenta.

Em que pese termos avançado muito nos últimos quarenta anos, um cheiro de carniça insiste em apodrecer o ambiente político do país. Ideias e ideologias que julgávamos sepultadas, ganham vida novamente, saindo dos piores lugares da história, das criptas ao esgoto. O que me admira e me assusta é que em meio a tantas pessoas que defendem a volta da monarquia e da ditadura, por exemplo, têm nível superior e gozam de prestígio social como pessoas cultas e doutas, além de serem “exemplarmente” cristãs. Tementes a Deus, mas ao mesmo tempo flertam com o demônio.

Há uma semana, estive num programa de rádio da Sergimix FM (93,9), cujas atividades iniciaram em dezembro de 2025, com o nome original de Serigy FM. Sua sede é na cidade de Lagarto. Apresentado por Marcos Silva e produzido por Ubiratan Júnior, o quadro Nortecast convida profissionais de diversas áreas para, didaticamente, discorrer sobre uma determinada temática. Minha missão foi tratar do seguinte assunto: “Política sem complicação – como o Brasil funciona?” Na oportunidade, pude falar sobre a importância da política, como ela pode ajudar uma comunidade e um país, o porquê dos jovens e das pessoas de boa índole se desencantarem com a política partidária, e, também, da alienação política e dos extremismos partidários.

Em linhas gerais, vale destacar que dos 137 anos da existência do regime republicano no Brasil, somente nas seguintes situações gozamos de algum tipo de liberdade ou de experiência democrática: 1946-1964 e 1985-2026. Portanto, cerca de 60 anos, apenas. Isto revela que o país tem uma forte tradição autocrática e autoritária. Por isso mesmo, vira e mexe temos que defender a democracia, graças a essa turma que, geralmente, desconhece as consequências de viver sob o medo, a perseguição, a truculência e as armas. E quando não desconhecem, querem impor todas essas coisas à nação.

Em diversas oportunidades, já escrevi sobre os riscos de o país voltar para as mãos de militares e civis radicais, como foi no período de 1964 a 1985. Sob a desculpa de combater o comunismo e impor a ordem para que haja progresso, essa gente acha que é impondo suas vontades e colocando seus interesses pessoais e classistas acima do bem coletivo que vão se resolver os problemas, como os de falta de segurança, carestia, desemprego. Fosse isso verdade, aquele asqueroso momento da história do Brasil teria deixado legados formidáveis de desenvolvimento, de paz e de justiça social. Pelo contrário, até hoje mães e pais e mesmo filhos não sabem o que é ter o direito de velar o corpo de seu ente querido e sequer sepultá-lo decentemente.

Mas, há ainda um outro defunto velho a assombrar o país nos últimos anos. Refiro-me ao nazifascismo. Ideologia totalitária e sanguinária que colocou o mundo em polvorosa na primeira metade do século XX, com dolorosas e traumáticas consequências para a vida humana e para a civilização. Como disse, julgávamos essa praga morta e enterrada faz tempo. Mas, como afirma Umberto Eco (1932-2016):

“ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis”. Por isso mesmo, segue o historiador italiano: “Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo para cada uma de suas novas formas – a cada dia, em cada lugar do mundo”.

Em especial, chamo a atenção para a máxima “Deus, Pátria e Família”, expressão intimamente e historicamente associada a ideologias de extrema direita. A propósito, disse o papa Leão XIV esta semana que tais ideologias são incompatíveis com os ideais cristãos. Slogan adotado pela Ação Integralista Brasileira (AIB), em 1932, cujo fundador foi Plínio Salgado, “Deus, Pátria e Família” além de se basear no modus operandi nazifascista, sonhava com um Brasil dominado pelo extremismo, pelo totalitarismo, pela ideia de Estado onipotente, militarista e de culto à personalidade.

De “Deus, Pátria e Família”, tão somente a pele a disfarçar o lobo. Trata-se, pois, de uma das maiores ciladas já produzidas pelo ser humano em toda a sua existência. Uma expressão hipócrita, desprovida de Cristianismo no que ele tem de melhor, longe de se preocupar com a nação e tampouco com a família. Um canto de sereia que já arrastou centenas de milhares de pessoas para o inferno. E segue arrastando. De pobres de direita a ricos arrogantes, afora os “tementes” a Deus. Que segue contaminando as instituições e, em particular, a Igreja e a religião Cristã. Já dizia, profeticamente, o papa Paulo VI, em 29 de junho de 1972: “fumaça de satanás entrou por alguma fresta”.

Vejamos um trecho maior que nos dá o contexto dessa afirmação:

“…Diríamos que, por alguma fresta misteriosa – não, não é misteriosa; por alguma fresta, a fumaça de Satanás entrou no templo de Deus. Há dúvida, há incerteza, há problemática, há inquietação, há insatisfação, há confronto”.

“Não se confia mais na Igreja. Confia-se no primeiro profeta profano que vem nos falar em algum jornal, para correr atrás dele e lhe perguntar se tem a fórmula para a vida verdadeira. Entrou, repito, a dúvida em nossa consciência. E entrou por janelas que deviam estar abertas à luz: a ciência!”.

Enfim, os riscos ainda estão postos em nosso tempo. Segue uma parcela da sociedade a propugnar orgulhosamente a expressão “Deus, Pátria e Família”. Uns, creio eu até mesmo por ignorância. Mas outros, ao que parece ser certo por expressar o que tem de pior em sua índole: ruim e carcomida pela desinteligência, hipocrisia e insensatez. Bem dizia, com toda força, verdade e atualidade Nelson Rodrigues (1912-1980):

“Por trás de todo paladino da moral, vive um canalha“.

Por enquanto, as urnas estão aí. A democracia de igual modo. A oportunidade de pôr uma pá de cal em velhos defuntos ainda nos é possível. Quem sabe até incinerá-los para que não sobrem nem as cinzas. Mas, enquanto os vermes não roerem totalmente as carnes podres do sistema, seu fantasma continuará assombrando a nação. Entristece-me a possibilidade real de um dia voltarmos a sermos governados por zumbis da vida política brasileira e mundial. Por gente que, como nos lembra Jesus, são sepulcros caiados: lindos por fora e podres por dentro.

 

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Claudefranklin Monteiro

Professor doutor do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe.

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