Lula agradece os votos no segundo turno Foto: © Paulo Pinto/Agência Brasil
Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos (*)
Na segunda-feira, após o resultado do primeiro turno das eleições gerais no Brasil, sobretudo no que diz respeito à disputa pela presidência, atento aos pronunciamentos do candidato Flávio Bolsonaro, uma máxima bíblica me veio logo à mente e não saiu mais até se confirmar no segundo turno: “A soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda” (Provérbios 16,18). Ciente de que venceria, o primogênito de Jair Messias Bolsonaro revelou o que ele de fato é, seja por palavras, seja por gestos, despertando descontentamentos os mais diversos e a fúria, no melhor sentido da palavra, dos principais polos da vida: juventude e maturidade.
Luiz Inácio Lula da Silva se reelegeu com 64,2 milhões de votos, o equivalente a 51,78%. Uma diferença de 4,4 milhões de votos para seu opositor, que havia vencido no primeiro turno. Lula, que já havia cravado seu nome na história política do Brasil, quebra novos recordes e supera novamente tabus, como o de um candidato nunca ter virado a eleição após perder no primeiro turno. Vale lembrar que ele, com a vitória em 2022, havia, também, derrotado um incumbente na presidência, coisa que não havia acontecido até então. Sem deixar de mencionar que vai para seu quarto mandato, recebeu a maior quantidade de votos de toda a sua carreira política, de vir a ser o presidente mais velho (81 anos) a ser eleito e de participar de sete disputas presidenciais e ganhar quatro (sem nunca ter contestado os resultados das quais ele perdeu).
O que explica este fenômeno e esta virada histórica? Durante esta semana, vários especialistas apontaram inúmeras causas, até mesmo para explicar o questionamento dos derrotados de onde teriam vindo cerca de 11 milhões de votos a mais do primeiro para o segundo turno. De tudo que se disse até então, comungo com a ideia da reação dos estudantes que ocuparam as ruas, sob o comando do deputado federal Janones nas redes sociais e, muito especialmente, da disposição dos idosos de exercerem, novamente, a cidadania do voto, após terem sido suas capacidades subestimadas. Mas nada foi mais decisivo do que a soberba de Flávio Bolsonaro, seu cinismo, sua infantilidade, suas mentiras, sua postura etária e capacitista.
Afora tudo isso, coisa que venho escrevendo há algum tempo, o risco de nosso regime democrático vir a ser substituído por mais uma aventura autoritária. Risco este que estará sempre em questão se a sociedade brasileira não se livrar de vez do extremismo, necessariamente o de direita. Se a direita e a esquerda não se unirem em prol de um ambiente sadio de disputa eleitoral, como sempre foi desde a redemocratização, a tendência é o radicalismo e a cisão do país aumentarem. O Brasil não pode continuar à mercê dos interesses de uma família. O bolsonarismo é um mal político para o país, como foram o integralismo, e, em nível internacional, o nazifascismo. E isto não é um exagero. Alguns dos acontecimentos violentos que vimos nestas eleições e o que estamos vendo agora (perseguição trabalhista aos eleitores de Lula e preconceito a pobres e nordestinos) só demonstram o que estou dizendo.
Não bastasse tudo isso, com ministros do Supremo a favor (tentando bagunçar a disputa), impressa corporativa, big techs, governos de Donald Trump e Milei, bets, mercado financeiro, fundamentalistas religiosos evangélicos e católicos, o candidato derrotado Flávio Bolsonaro foge para os Estados Unidos da América, contesta o resultado do segundo turno e se autoproclama “o verdadeiro presidente eleito dos Estados Unidos do Brazil”. Um mal perdedor jamais poderá ser um bom ganhador. Demonstra que não tem maturidade e força moral para governar uma nação. Com 59.826.041 votos (48,21%), ele deveria ser grato aos seus eleitores, permanecer no Brasil (com S), liderar a oposição e tentar uma outra vez, como o sistema democrático permite.
Quanto a Luiz Inácio Lula da Silva, este se consagra, em definitivo, como a maior liderança política de todos os tempos da História do Brasil. Seja com erros, seja com acertos, com suas qualidades e defeitos. Terá a chance, a exemplo de Pelé, de pendurar as chuteiras em alto nível. Tem problemas a serem resolvidos no país? Claro que sim. Muitos. Mas, melhor que eles sejam discutidos e resolvidos num ambiente democrático do que sob o cutelo de uma insanidade autoritária e delirante. Que o futuro do país nos reserve novas disputas eleitorais, livres e saudáveis, e que novas e comprometidas lideranças surjam, sejam de direita ou de esquerda, ou mesmo de centro, mas jamais de extremos. Toda extremidade é pouco inteligente, tosca, vazia, egoísta e autoritária.
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