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Marcelo — Mais uma vez, um ribeirão de histórias

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Por Léo Mittaraquis (*)

 

Há temas sobre os quais, erroneamente, afirma-se, de maneira superficial e aligeirada, respectivo esgotamento. Ou seja, nada mais além dizer. O fenômeno Canudos [leia-se Antônio Conselheiro] é um destes.

Decerto muito sobre o local, a carismática figura, o conflito armado, muito e muito já se falou, se disse, se escreveu.

Contudo, as múltiplas percepções, que redundam em diversas interpretações, longe de deterem o poder de dar o caso por encerrado, quando sob luz de uma mente atenta, dotada de acurado discernimento, com disposição de ir às fontes [sejam as já visitadas, sejam as até então ignoradas], capaz de produzir cuidadosa e rica narrativa, revelam lacunas e incertezas.

Capa do livro

Por isso saúdo, com raro entusiasmo, ao escritor, pesquisador, memorialista Marcelo Ribeiro pela exaustiva, contudo, prazerosa produção literária mais recente: “Calasans e Conselheiro”.

Notório é o fato de que centenas de pesquisadores [sistemáticos ou bissextos], arvoram-se “proprietários” do fenômeno Canudos/Conselheiro. O apelo popular, a mitificação, as interpretações esdrúxulas, que tonificam este ou aquele aspecto, sem levar em consideração a cadeia de eventos anteriores e posteriores, fazem do tema terreno movediço. Passo em falso, e o discurso pode afundar sob a lama de confusos e infundados argumentos.

Marcelo Ribeiro, experiente, preocupado em chegar à verdade ou ao mais próximo dela, investigou, sopesou, comparou, confrontou, discordou, convergiu, sempre a partir da mais profunda e comprometida reflexão quanto ao fenômeno. E assim é que tem de ser.

O único senão, e eu disse diretamente ao autor, na minha humilde opinião [e é só uma opinião], é o exacerbado, por vezes encegueirado, amor por Sergipe, pelo Nordeste. Ardor quase a enquadrar-se nas qualificações duma apologia. Mas, bom frisar, é a cabruquenta regalia do autor. Estou apenas a pôr-me sibite e meter o bedelho. Marcelo demonstra, ao lado do rigor de pesquisa e construção da tese, um carinho pela memória dos acontecimentos.

Paul Ricoeur decerto sairia em defesa do autor. O fenomenólogo e hermeneuta compreende bem o poder documental das reminiscências: “Se a história tem um início distinto em termos de conhecimento, marcado por nomes famosos, Heródoto, Tucídides e fontes ainda mais antigas, seus maiores problemas, e, para ser franco, suas dificuldades, suas dificuldades vêm de muito antes dela, da memória”.

Muito bem escrito, de narrativa apaixonada [C’est l’amour!], cuidado para com as fontes. Eis algumas das melhores características da obra. Marcelo, bem o sabem seus costumeiros leitores, está longe de ser um neófito no campo das Letras, da História e da Memória. É de praxe o autor entregar ao público bons livros.

A data de lançamento ainda não está definida. Na verdade, o livro se encontra em finalização editorial. Ou seja, nem chegou ainda aos prelos.

Tive o privilégio de acessar o original, e disso me orgulho. Sem pejo, incorro em desavergonhada jactância, pois, após proceder com um texto crítico [que não é este], receber a notícia, diretamente do autor, Marcelo Ribeiro, desde que minhas mal traçadas linhas serão incluídas como posfácio.

Portanto, leitores, entendam este artiguete como a um teaser. Uma preparação do espírito dos amantes de boas obras, ante o que virá durante o segundo semestre de 2025.

Marcelo Ribeiro, sabedor de sua responsabilidade sobre o tema, demonstrou segurança, coragem e honestidade.

Além do mais, e não menos importante, é, reitero, muito bem escrito mesmo. Um refrigério para leitores atentos como eu diante de tanta coisa ruim publicada nos últimos tempos.

Ecce viri!

 

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Leo Mittaraquis

Léo Mittaraquis é graduado em Filosofia, crítico literário, mestre em Educação. Bodegário da empresa Adega 7 Instagram: @adega7winebar

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