Cotidiano

Verdade ou sigo, logo existo?

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Por Valtênio Paes de Oliveira (*)

 

Uns dizem: “é verdade”; outros, “não é verdade”. Quero a verdade! Mas qual é a verdade? Nas redes, cada pessoa simula sua narrativa como se a verdade fosse sua.  Outras, mentem. Desde chefes de Estado, amigos e influenciadores. Na imprensa, na escola, na educação, enfim, no cotidiano, deveríamos buscar fortalecer o saber, jamais a mentira digital. Na religião, na política, o conservadorismo capeia. Tenta-se impor o retrocesso científico e religioso reproduzindo informações e costumes passados, contrariando as evidências. Também se falta com a verdade. Afinal, opõe-se ao “penso, logo existo’ com “sigo, logo existo”?

Nos dias atuais, vive-se a moda de influencers na qual a  monetização, profissões exóticas — como estrategistas de narrativas digitais, criadores de conteúdos para outras profissões etc. sem qualquer regulamentação — aparecem sem qualquer fundamento científico e invadem as mentes de pessoas inocentes. Países como Austrália, Reino Unido e outros já proibiram  o acesso de jovens abaixo de 16 anos, tal o dano para a saúde  mental. O Congresso brasileiro, preocupado com as emendas parlamentares, nada faz.

Fato é que a desordem digital é avassaladora e necessitamos da coragem do Congresso Nacional  para a regulamentação; senão,  as gerações deste começo de século tornar-se-ão zumbis.  Aliás, já dissemos em janeiro de 2022, no texto Sem relógio,  sem celular e o  tempo. “Eis uma escolha! Explorar a tecnologia sem ser dominado por ela ou se tornar zumbi na sociedade. Se esquecermos a busca da verdade  legítima, estaremos construindo uma  população de  individualistas, utilitaristas,  tecnotóxicos e  negacionistas. Aguça-se a fronteira ética entre produzir saber e mentir para levar vantagem econômica, política e tantas outras.

Os filósofos e cientistas pensam, criam e escrevem novos saberes. Entre o “penso, logo existo” pobremente se escolhe “viraliza, logo existe” ou “sigo, logo existo”. Esperemos o dia em que a mentira e o plágio serão rejeitados e a valorização da verdade permanecerá. Depende do fortalecimento de uma ética fundada em valores coletivos. Afinal, família, escola, conselhos gestores, instituições, trabalho, esporte etc. podem agir nesta direção.

Verdade que não existe verdade final entre os humanos, salvo a morte, pois assina-se contrato com ela com poderes ilimitados de escolher dia, hora e sem condição prévia, porém se vive hoje mais para a mentira do que para a verdade. Chamar alguém de mentiroso não tem efeitos morais como no passado.

Por outro lado, existem, também, riscos para os criadores de conteúdo como problema de autoimagem e saúde mental ensejando ansiedade, depressão, insatisfação corporal e ausência de regulamentação legal. Possibilitam-se condutas ilegais e prejudiciais como consumo irresponsável, jogos de azar e doenças mentais também nos seguidores. A exposição constante a vidas glamourizadas, corpos perfeitos, rotinas irreais e irretocáveis gera comparação social  negativa ensejando ansiedade, baixa autoestima  e insatisfação . Assim, os seguidores são levados ao “sigo, logo existo” . Coisifica-se a vida, bastando seguir para, supostamente, viver bem.

Estudos científicos revelam que 87% das postagens mencionam riscos à saúde podendo levar a diagnósticos necessários, segundo à pesquisadora  Nickel a despeito do teste AMH comercializado como meio  para medir fertilidade. As consequências são danosas. Ademais, pesquisas mostram que 68% dos influenciadores tinham interesses financeiros na divulgação.  A desinformação está prejudicando os seguidores. Colecionar saberes repaginando peças de arquitetura é praticar crime de estelionato praticado no artigo 171 do Código Penal.

Estimular o consumo, lucro e impulsionar a monetização desprovidos de  valores, saber científico,  moral ou espiritual  é plena irresponsabilidade, porque basta seguir, não precisa refletir, sentir e cumprir a plenitude dos benefícios  sociais para todas as pessoas. Hoje, a estupidez se monetizou, popularizou, empurrando a educação, moral e saber para a prateleira inferior. Exponencialmente, pratica-se: “sigo, logo existo”.

O “penso, logo existo” de Descartes (1596- 1650) questionando a verdade, está sendo negado  rudemente pelo “sigo, logo existo”,   pelas pessoas  que comem, bebem e dormem redes sociais. Milhões de pessoas seguem loucamente em redes sociais sem quaisquer critérios emocionais, científicos ou morais. Basta a fantasia do inusitado, do diferente, das imagens ou dos contrastes, para que pessoas dediquem preciosas horas de seus tempos em “seguir”.

Há mais de 2000 anos,  Epicteto, em Encheiridion 13-A, ensinou:  “se desejas melhorar, contenta-te em parecer desinformado ou estúpido em assuntos que desconheces; não desejes parecer informado. E se alguns te consideram alguém importante desconfia de ti mesmo”. 

Amar a prática da sabedoria plena de virtude é o maior pilar de uma ética social. Somente a verdade científica deve ser sustentada como esteio norteador e orientador da humanidade. Somente assim a história, a moral e os costumes podem ser preservados e o “sigo, logo existo” será freado.

 

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Valtenio Paes de Oliveira

(*) Professor, advogado, especialista em educação, doutor em Ciências Jurídicas, autor de A LDBEN Comentada-Redes Editora, Derecho Educacional en el Mercosur- Editorial Dunken e Diálogos em 1970- J Andrade.

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