Compartilhe:

 

 

Por Léo Mittaraquis (*)

 

“Minha tarefa prometia ser árdua: inumeráveis conflitos adormecidos num sono enganador animavam-se, espreguiçavam-se e não tardariam a despertar”

Diretor-Adjunto de Relações Humanas

 

 

Salvo engano, a primeira publicação em português, no Brasil, do livro “O Imprecador” (L’Imprécateur), do autor francês René-Victor Pilhes, pela Editora Abril, se deu no início da década de 80. Porém, já ouvi, num passado, algo um pouco distante, que, em meados da década de 70, já havia esta obra circulado por aqui.

Quanto ao conceito “Imprecação”: nas minhas limitações sociohistoriográficas, e por causa da obra ora abordada, a qual levou-me, ao longo de parte desta minha pouco interessante existência, ao estudo do termo, o ato de rogar pragas, maldições ou invocar o castigo divino sobre algo ou alguém é um fio condutor pitoresco a percorrer a história ocidental.

O ato de imprecar demonstra, portanto, Linguagem, Religião e Direito num entrelace, manifestando a pulsão, a razão e o transcendente atuando em nome da justiça ou da vingança. Notadamente quando os meios mundanos falham.

Ok, sinhô, mas, e o livro? Bem, às minhas mãos, “O Imprecador” chegou por duas vezes: a primeira, quando o amigo meu, Sebastião, ao final de 1981, comprou um exemplar numa banca de revista [que também vendia livros] localizada no calçadão da rua João Pessoa, centro de Aracaju, próximo à praça Fausto Cardoso.

Imagine só, oh, improvável leitor: Sebastião comprou o livro. Como ia viajar, deixou o livro comigo, ainda plastificado. Seria a última vez que nos veríamos ao longo de uns 40 anos. Difícil crer? Compreendo perfeitamente. Mas foi o que aconteceu.

Pois é, fiquei com o livro, li o livro, me apaixonei obsessivamente pelo livro.

E do que trata o livro? Bem, o romance emerge, qual arauto dum apocalipse financeiro, de dentro do escuro e oleoso oceano que, segundo Pilhes, alimenta a maquinaria administrativa e econômica.

Pilhes descreve, mediante extraordinário talento para a narrativa, uma civilização que parece encontrar-se em estado terminal. À medida que estranhos acontecimentos, dentro duma empresa, se sucedem, a obra chega a ser tingida por alguns tons góticos. Nesse aspecto, O Imprecador é uma obra de ficção, sem dúvidas.

Afinal, é Literatura. Mas, penso, também se aproxima de uma percepção profética: aquela que dispõe a organização mecânico-financeira mundial, independentemente de qual seja o regime ideológico e o país, em um objeto do mais puro [e até místico] horror metafísico.

A trama que estrutura o romance gira em torno de uma gigantesca multinacional, de nome Rosserys & Mitchell. Entidade monstruosa, qual cria do poderoso Ninurta, deus sumério, que é descrita menos como empresa do que como organismo autônomo.

O empreendimento assume, progressivamente, formato de um lugar que envolve e domina, espiritualmente, seus funcionários, de todos os escalões. A construção  se revela um verdadeiro labirinto, quase templo sacrificial.

Mas, certo dia, voltando, aqui, aos fatos mais banais, que a mim dizem respeito, outro amigo pede o livro emprestado. Tão incauto quanto um vulcanólogo fascinado, a debruçar-se por sobre a instável borda do Santa Helena [“Vancouver, Vancouver! Vai ser agora!], cedi ao pedido e emprestei. Pois bem: o cara perdeu o livro.

Desolado, sem ter como conseguir outro, na época, resignei-me ante a desgraça. Com o tempo, anestesiei, indicativo, preteritamente perfeito, a dor pela falta. Até que um dia…

Mistério… Coisa de ser citada em “As Raízes da Coincidência”, do escritor e jornalista húngaro-britânico Arthur Koestler: estava eu, como de costume, no sebo Coquetel da Cultura, na rua Campo do Brito, a conversar, naquele dia, com o proprietário sobre, justamente, “O Imprecador”. Lamentava-me, enquanto contava a história [esta história] a ele.

De repente, desviei meus olhos dos dele, e os passeei pelas lombadas dos livros que estavam meio que arrumados numa estante de aço, à minha esquerda.

Cabra! Creia-me ou não, fato é que vislumbro um exemplar do livro. Suspensa a respiração, olhos esbugalhados, silêncio opressor… E o Luís, preocupado, me toma pelos ombros a interrogar: “Mittaraquis, cê tá bem?”.

Os sentidos voltam, aos poucos, à normalidade. Aponto o livro e digo a Luís: “Óia ele ali!”.

O sebeiro gira a cabeça em direção ao ponto, ao qual aponto, solta uma exclamação digna do momento, entretanto, não recomendável reproduzir aqui. Pega o livro. Detém-se admirado, olhando a capa. Abre devagar, folheia. Fecha e me entrega. Pergunto quanto é, puxando a carteira do bolso. Ele diz: “É seu. Não precisa pagar. Você mentalizou e materializou este livro”.

 

Compartilhe:
Leo Mittaraquis

Léo Mittaraquis é graduado em Filosofia, crítico literário, mestre em Educação. Bodegário da empresa Adega 7 Instagram: @adega7winebar

Posts Recentes

A Mulher na Política

  Por Diego da Costa (*)   Nenhuma sociedade evolui tentando diminuir a força da…

1 hora atrás

Lula assina MP e zera “taxa das blusinhas”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, nesta terça-feira (12), uma Medida Provisória (MP)…

3 horas atrás

Obras no Guajará unem Estado e Iguá em investimento de R$ 237,9 milhões

A intervenção da Iguá Sergipe nas obras de esgotamento sanitário do bairro Guajará ganhou destaque…

21 horas atrás

Fluxo de passageiros no Aeroporto de Aracaju cresce 5,9% em abril

O Aeroporto Internacional de Aracaju – Santa Maria registrou crescimento de 5,9% no fluxo de…

1 dia atrás

Estácio oferece consultoria gratuita para declaração do Imposto de Renda 2026

  Com a proximidade do prazo final para a entrega da declaração do Imposto de…

1 dia atrás

Desenrola Fies: estudante pode renegociar dívida a partir desta quarta

Os estudantes com dívidas do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) podem renegociar seus débitos a…

1 dia atrás